Análise: Infelizmente, Carolina Maria de Jesus ainda não dispensa apresentações

Apesar de ter vendido mais 10 mil exemplares de 'Quarto de despejo', muita gente a desconhece. Entenda o projeto literário da autora

por Aline Alves Arruda* 29/06/2018 10:18
O Cruzeiro/EM/D.A Press
Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de despejo: diário de uma favelada'. (foto: O Cruzeiro/EM/D.A Press)
Infelizmente, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) ainda não dispensa apresentações. Apesar de ter vendido mais de 10 mil exemplares de seu Quarto de despejo: diário de uma favelada na primeira semana de seu lançamento, esgotando a primeira edição, em 1960, há muita gente que ainda desconhece a escritora mineira nascida em Sacramento, no ano de 1914, que recebeu o adjetivo “favelada” por ter morado na extinta favela do Canindé, em São Paulo. A alcunha impressa na capa do livro permaneceu por muitos anos, mesmo depois de ela ter comprado sua casa de alvenaria, no Bairro Santana, com o dinheiro recebido pela venda do seu primeiro livro publicado. É assim que a imprensa da época continuou chamando Carolina e também é dessa forma que muitos ainda se referem a ela. Talvez por conhecerem apenas o livro que lhe deu visibilidade e ignorar o seu projeto literário.

Não há problema que a favela seja uma das marcas da escritora, até porque, foi mesmo de lá que ela veio quando seu sucesso ganhou o mundo. Era o ponto de vista de alguém de dentro, o lugar de fala marcado e demarcado. Por isso o sucesso estrondoso e merecido. A curiosidade das pessoas da “sala de visita” era enorme, assim como o espanto em perceber uma escritora vinda do lugar onde “jogam os lixos”, como ela afirmava em seu primeiro diário.

A questão é que Carolina mesma não glamourizava o Canindé, seus escritos revelam suas dificuldades vividas lá com os três filhos pequenos, em um barraco simples, e a fome era assunto repetido diversas vezes, quase diariamente. Sobre isso, ela conclui: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”. Em outro momento de Quarto de despejo, Carolina diz que chegou em casa e corrige, “no meu barracão”. Assim, a ideia de pertencimento, de lar, de dignas condições de moradia, de “um teto todo seu” – lembrando a famosa frase de Virginia Woolf para se referir às condições mínimas para que uma mulher escrevesse literatura – não se aplicava à realidade de Carolina de Jesus. Teimando em ser escritora num país em que dificilmente alguém como ela conseguiria esse feito, Carolina escolhe usar a escrita como arma de denúncia: “Vou escrever um livro referente à favela. Hei de citar tudo que aqui se passa”.

De uns anos para cá, especialmente após seu centenário, em 2014, a escritora tem ganho um espaço maior nos trabalhos acadêmicos, nos saraus, nos eventos de movimentos negros e populares, na formação de professores. O livro de Tom Farias recém-lançado, Carolina: uma biografia, coroa um momento de efervescência, ainda que menor que o de 1960, sobre a escritora. Além do livro do jornalista, ainda temos publicações recentes dos textos inéditos de Carolina, como Meu sonho é escrever, organizado pela pesquisadora Raffaella Fernandez; muitas teses e dissertações vêm sido escritas sobre ela, espaços com seu nome são inaugurados por todo o país, de bibliotecas a ocupações por moradia, como a que temos em Belo Horizonte, na Avenida Afonso Pena. É justo que os leitores tenham acesso a toda a obra da escritora, aos muitos gêneros que ela escreveu além do diário, como contos, provérbios, canções, romances, poemas, peças. Também é importante que Carolina venha à tona como figura de representatividade para jovens negros e para mulheres que conhecem sua história e nela se espelham, se veem. A escritora Conceição Evaristo sempre cita a importância da antecessora de Sacramento para a sua literatura e a de outros muitos escritores negros.

Antes de Audálio Dantas, jornalista recém-falecido que editou Quarto de despejo, Carolina já se queria escritora. Ela havia procurado vários jornais, rádios, revistas, para tentar publicar seus textos, especialmente os poemas, e já havia conseguido alguma visibilidade, mas nada comparado ao estrondoso lançamento publicado pela livraria Francisco Alves.

A escrita de Carolina é pungente, forte, densa, daquelas que incomodam e encantam ao mesmo tempo. A consciência demonstrada diante das condições políticas e históricas que a levaram, como a muitos, ao quarto de despejo da cidade é surpreendente. Enquanto no diário publicado em 1960 a autora relata a rotina de catadora de papéis que convivia diariamente com a fome, em Casa de alvenaria temos outra Carolina: a que vive o sucesso e ascensão depois do grande êxito de seu livro anterior, que proporcionara a ela e à família a saída da favela e a mudança para a “sala de visitas”, comprando uma casa de alvenaria, que dá título ao livro.

Já Diário de Bitita foi publicado primeiro na França, em 1982, e quatro anos depois no Brasil. Não tem a forma de diário como os anteriores; apresenta relatos da infância e juventude da autora antes de morar em São Paulo, quando era conhecida como Bitita, seu apelido de família. Duas jornalistas vindas de Paris, uma brasileira, Clélia Pisa, e outra francesa, Maryvonne Lapouge, entrevistaram Carolina em 1975 e ela lhes entregou os originais, que as duas se encarregaram de traduzir e publicar. Nos relatos, a narradora, sob um ponto de vista infantil, se mostra uma criança perspicaz, questionadora e consciente, assim como a adulta de Quarto de despejo. As questões de gênero, classe e etnia são muito discutidas nesse livro. É através dele também que vamos entender como surge a Carolina escritora, que pouco frequentou de escola; além de compreender também as origens e as dificuldades que levarão a autora à vida no Canindé.

A escrita diarística nos confirma como Carolina sempre se mostrou interessada em escrever ficção e ser conhecida como autora de romances, mais do que de diários. Os temas encontrados neles são também notáveis em sua ficção. Pedaços da fome, o único romance publicado, em 1963, veio quando a autora já não experimentava mais os louros da fama. O enredo é marcado pelo maniqueísmo na divisão de classes sociais. O assunto não tem relação próxima com o título escolhido pelo editor – o nome que a autora havia dado era A felizarda. A mudança do título, bem como a capa escolhida para a edição, bastante semelhante à primeira de Quarto de despejo, demonstra, novamente, o estereótipo ao qual Carolina é submetida, como se tentassem de todas as formas mantê-la nesse lugar marginalizado, determinando também um mercado editorial em torno disso.

Além dos livros publicados (há ainda Provérbios, de 1963, e as publicações póstumas Meu estranho diário, 1996; e Onde estaes felicidade?, 2014), encontram-se diversos inéditos à espera de leitores. Um dos romances presentes nos arquivos de Carolina (disponíveis no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG), Rita tem como protagonista a personagem do título, que o narrador descreve como uma menina raquítica, de olhos grandes e narinas dilatadas. Rita não é filha do marido de sua mãe, João Rodrigues, e este abandona Maria, a esposa, assim que ela nasce e ele percebe que não era sua herdeira. A criança era filha de João dos Santos, um “malandro”, tocador de violão, com quem Maria teve um caso. A mãe vê na menina o motivo de sua desgraça e fim do casamento e por isso a rejeita. Frases como “se esta desgraça não tivesse nascido, meu esposo não me deixava”, “por que esta diaba não morreu? Morre tantas crianças, esta cadela fica”, entre outras, mostram a violência com que Rita é tratada dentro de casa; sua infância é marcada por inúmeras crueldades e tragédias. Surpreendentemente, a narrativa se assemelha à biografia de Carolina e sugere uma instigante mistura de ficção e realidade.

Outro romance ainda inédito, Dr. Silvio frisa a diferença social: trata de um relacionamento amoroso entre a protagonista, moça pobre, filha da dona da pensão na capital, e um de seus hóspedes, um rico estudante de medicina, personagem que dá título ao romance. Maria Alice, a protagonista, é a moça ingênua que acaba iludida e traída por Silvio. No enredo há referência à defesa da reforma agrária e a denúncia social.

Percebemos, assim, que a consciência crítica da escritora e que os temas abordados por ela nos diários e nos romances parecem seguir uma espécie de plano, que nos faz conceituar o conjunto de sua obra como um “projeto literário”, uma concepção reveladora de como Carolina Maria de Jesus merece estar dentro da literatura brasileira e como, de forma surpreendente, sua escrita crítica e densa faz dela uma legítima escritora.

*Aline Alves Arruda é mestre e doutora em letras pela UFMG e autora de Memorialismo e resistência: estudos sobre Carolina Maria de Jesus (Paco Editorial, 2017).

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