Festival de Inverno da UFMG chega à sua 50ª edição com o tema 'Coexistência: um, dois, nós'

Evento busca estabelecer diálogos entre linguagens e práticas em grupo. A programação transcorre entre 20 e 28 de julho; inscrições para as atividades já estão abertas

por Walter Felix 27/06/2018 08:25
Lucas Braga/Divulgação
Em 2017, o Grupo Galpão foi responsável por abrir a programação do Festival. Neste ano, a MG Big Band faz a abertura em show que reúne obras nacionais e internacionais em arranjos instrumentais. (foto: Lucas Braga/Divulgação)

Com o tema Coexistência: um, dois, nós, a 50ª edição do Festival de Inverno da UFMG busca promover a interdisciplinaridade e a imersão dos participantes nas experiências em grupo. A programação transcorre entre 20 e 28 de julho e será composta por residências artísticas, oficinas, jornadas de estudo, conferências, espetáculos e shows abertos ao grande público. As inscrições para as atividades são gratuitas e já estão abertas até 20 de julho.

O conceito de coexistência, que perpassa toda a programação do festival, foi encontrado em reflexões do diretor de cinema e teatro britânico Peter Brook. “Nosso conselho curador se inspirou em uma frase dele que diz: o ator deve trabalhar uma conexão consigo mesmo, com os companheiros e com o espaço. Começamos a pensar a montagem do festival a partir dessa noção de coexistir, a fim de criar e sustentar condições para que esse trabalho fosse feito”, conta o diretor artístico Mauro Rodrigues, professor da Escola de Música da UFMG.

Para ele, a temática não poderia ser mais apropriada ao contexto atual, em que se nota um crescimento da intolerância e da violência em todo o mundo. “Coexistir nos leva a uma aceitação do outro e de sua legitimidade, algo que tem tudo a ver com o nosso momento, em que tudo está tão polarizado e as pessoas cada vez mais radicais”, aponta Mauro.

A temática de 2018 dá sequência à proposta do ano anterior, quando foi abordado o conceito Poéticas de transformação: criação e resistência. “Em 2017, trabalhamos a cultura como um local de resistência e afirmação de direitos e da democracia. Queremos evocar, mais uma vez, a aceitação da universidade pública e gratuita, que é algo muito importante de ser reafirmado. O festival é, por natureza, aberto a todos os públicos, incluindo a comunidade externa à UFMG”, aponta Mauro.

Parte da programação é dedicada a um público que, em geral, não circula entre os ambientes acadêmicos. Serão duas oficinas para crianças e pré-adolescentes: “Era uma vez – Brincando com as histórias”, com a professora Alessandra Visentin, e “Brincando de fazer brinquedos”, ministrada por Agnaldo Pinho. Para adolescentes, de 14 a 18 anos, será ofertada “O pulso e o fluxo”, do músico Kristoff Silva. Já os idosos terão “Um encontro com a arte”, em que poderão desenvolver e compartilhar suas habilidades artísticas em companhia do veterano Gil Amâncio.

Ainda na intenção de ampliar o alcance do festival, uma jornada de estudos composta por quatro conferências será realizada no Conservatório UFMG. Todas as abordagens estão ligadas a estudos de música. “É uma forma de dialogar com a cidade, para além do câmpus, abrindo pelo menos uma parte da programação para a região central”, avalia Mauro.

PRECEDENTES
Ao longo de 49 edições, o Festival de Inverno da UFMG propiciou a formação de artistas e companhias renomadas da cena cultural do estado, como os grupos Corpo, Galpão e Oficcina Multimédia. “Notamos o surgimento de grupos de trabalhos para além desses mais famosos, porque nossa programação está sempre voltada para processos de criação e interação”, diz Mauro Rodrigues. “O que toda escola faz é criar condições para o aprendizado. Com o festival, desenvolvemos um ambiente para que as coisas aconteçam e estamos sempre na expectativa de que sejamos bem-sucedidos”, completa o professor.

O evento voltou a ser realizado em Belo Horizonte em 2014, após duas décadas com edições em Ouro Preto e Diamantina. “Observamos que, quando o festival veio para BH, a imersão do público ficou difícil de ser sustentada porque a cidade é muito grande. Nossa intenção, agora, é resgatar essa interação, apoiando a programação principalmente nas residências artísticas, que são experiências mais intensas, com horário integral, que propiciam a transformação de quem participa através de uma efetiva imersão”, revela Mauro.

O êxito, em adesão e estrutura, das residências realizadas no ano passado fizeram com que esse modelo de atividade fosse adotado como eixo central da nova programação. Serão oito ações no formato, organizadas em pares, que permitem o desenvolvimento da transdisciplinaridade. Desta forma, os profissionais que ministram cada residência podem dialogar com outra atividade realizada simultaneamente. A forma como isso se dará, na prática, vai depender das dinâmicas estabelecidas entre os grupos.

JAM SESSIONS O músico Benjamin Taubkin e a artista de dança Dudude Herrmann vão desenvolver trabalhos em parceria. Ele estará à frente de um ateliê de música, enquanto ela ministra a residência “Mover e som”. Ao final de cada dia de trabalho, eles deverão unir as turmas em uma jam session, que, certamente, dará subsídios para as aulas seguintes.

Taubkin conta que pretende estimular nos participantes uma forma de traduzir gestos em música. “Acredito que tudo possa ser traduzido em música, dança ou qualquer outra linguagem. A questão é você se abrir para deixar isso fluido. É possível que o gesto já dispare alguma ideia musical no artista, mas nem todos estão abertos a essa percepção. É preciso uma espécie de estudo, de prática, para que, pouco a pouco, ele esteja apto para desenvolver tal percepção”, explica.

O pianista e produtor musical pretende trabalhar com os alunos a improvisação e a composição espontânea através de estímulos e movimentos que os levem à criação. “Acredito que a composição espontânea vá acontecer cada vez mais, tornando-se uma das principais formas de se fazer música. Ela pressupõe que a criação aconteça na hora, sem qualquer composição prévia, ao mesmo tempo em que busca uma estrutura. É quase um paradoxo.”

“Com a improvisação, você trabalha em cima de um tema preestabelecido, o que é muito comum no jazz. Já com a composição espontânea é totalmente feita na hora, você cria seu próprio tema. Um bom exemplo, no hip-hop, seria o freestyle”, assinala.

TROCAS Taubkin revela que o intercâmbio entre as artes pautou sua carreira. “É algo que sempre busquei. Já trabalhei música com cinema, dança, literatura e poesia e considero esse fluxo muito importante para a própria experiência criativa.” A interdisciplinaridade, através de sua residência artística, levará os alunos a uma análise de cada um sobre sua própria produção artística. Para participar, é necessário ter conhecimentos prévios de música, ainda que não a nível profissional. Cada aluno deverá levar o seu próprio instrumento.

“É muito importante que essa proposta (de coexistência e intercâmbio cultural) seja levada a um festival, especialmente por se dar em uma universidade, já que a academia tem uma tendência de se fechar em campos distantes”, avalia Taubkin. “O estudo técnico é necessário, mas também é preciso entender que, para o universo criativo, é fundamental que exista esse diálogo. Ele favorece o desenvolvimento da percepção e é instrumento para uma vivência muito mais ampla”, opina.

Outro par de residências artísticas unirá o fotógrafo Francisco Valdean e o professor Fernando Braga Campos (Bozo), doutorando em sonologia. “O Valdean desenvolve um projeto muito interessante com imagens de comunidades do Rio de Janeiro. Juntos, eles vão abrir para o grande público tudo o que está ocorrendo ao longo do evento, filmando e registrando as atividades e disponibilizando todo o conteúdo na internet. Será um olhar poético e documental sobre o festival, durante o festival”, antecipa Mauro Rodrigues.

Também farão residência artística na programação o cineasta Cao Guimarães, o grupo de música experimental O Grivo, o ator, diretor, dramaturgo e pedagogo teatral François Kahn, e o artista visual Jorge Fonseca.


50º FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG
Programação de 20 a 28 de julho, em vários locais de Belo Horizonte. Inscrições até 20 de julho. Mais informações no site ufmg.br/festivaldeinverno.

NO INTERIOR
Julho será um mês marcado pelos eventos culturais que acompanham a chegada da nova estação. O Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2018, promoverá mais de 400 atrações entre 6 e 22 de julho, contemplando ainda, de 9 a 14 de julho, a cidade de João Monlevade. Informações sobre as atividades – entre elas, oficinas, espetáculos e shows – estão no site festivaldeinverno.ufop.br.

['__class__', '__cmp__', '__contains__', '__delattr__', '__delitem__', '__dict__', '__doc__', '__eq__', '__format__', '__ge__', '__getattribute__', '__getitem__', '__gt__', '__hash__', '__init__', '__iter__', '__le__', '__len__', '__lt__', '__module__', '__ne__', '__new__', '__reduce__', '__reduce_ex__', '__repr__', '__setattr__', '__setitem__', '__sizeof__', '__str__', '__subclasshook__', '__weakref__', 'clear', 'copy', 'fromkeys', 'get', 'has_key', 'items', 'iteritems', 'iterkeys', 'itervalues', 'keys', 'pop', 'popitem', 'request', 'setdefault', 'update', 'values', 'viewitems', 'viewkeys', 'viewvalues']

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS