Prêmio Jabuti altera regras de duas categorias e provoca avalanche de críticas

Câmara Brasileira do Livro, organizadora do prêmio, anunciou a fusão das categorias infantil e juvenil e a alteração na avaliação de ilustração

por Nahima Maciel 26/06/2018 09:35

Anagrama/Divulgação
A escritora Marina Colassanti sustenta que a literatura infantil tem o papel de estruturar a leitura entre as crianças. (foto: Anagrama/Divulgação)

As mudanças anunciadas pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) para a 60ª edição do Prêmio Jabuti, em maio, ganharam repercussão que resultou na renúncia do curador, Luiz Armando Bagolin, e ameaça de boicote entre os autores e editores. Nas redes sociais, muitos revelaram que desistiram de inscrever seus livros este ano, em resposta à decisão da CBL de não voltar atrás no novo regulamento.

Entre as mudanças no prêmio, um dos mais tradicionais da literatura do Brasil, estão a fusão das categorias infantil e juvenil e a transferência de ilustração para Livro, categoria técnica que abrange ainda Projeto Gráfico, Impressão e Capa. A novidade desagradou a autores e artistas que trabalham com literatura infantojuvenil. Eles acusam a CBL de ignorar as especificidades da produção para jovens e crianças e a diferença entre a ilustração técnica e aquela carregada de simbologia e narrativa.

Autora de mais de 40 livros, boa parte deles infantojuvenis, Marina Colasanti diz que ficou muito surpresa com as novas regras do Jabuti. Ela recebeu um comunicado da editora Brinque-book, pela qual publica alguns livros, sobre a decisão de não participar do prêmio este ano. “Não há uma pessoa na área que não tenha se surpreendido, que não seja contra essas modificações”, garante Marina.

Segundo ela, a CBL cometeu um equívoco ao juntar as categorias infantil e juvenil. “É um desconhecimento do que seja a literatura infantil como suporte para a estruturação da leitura. Essa estruturação se dá por etapas com o livro infantil, o juvenil e o adulto. Juntar dois desses degraus é absurdo”, lamenta. “O raciocínio seguramente foi: ‘a área tem três prêmios, vamos tirar dois’. Mas a área não tinha três prêmios. A área é composta de três segmentos, e cada segmento tinha um prêmio. Não entender isso é desconhecer a área.”

Uma das justificativas da CBL para a redução das categorias é a extensão da cerimônia de premiação, muito longa e enfadonha. “Mas o meio que se encontra para fazê-lo testemunha um preconceito contra a literatura infantil e juvenil que perpassa toda a literatura. Esse preconceito existe, embora o mercado seja muito favorecido pelo segmento”, diz Marina.

Para a mineira Paula Pimenta, autora que é febre entre jovens leitoras, a fusão não deveria ter ocorrido. “São duas categorias diferentes e acho injusto que entrem em uma mesma avaliação. Não tem como equiparar um livro de 20 páginas, ilustrado, com um de 200 em texto corrido. Cada um tem suas qualidades, é como colocar dois produtos diferentes para concorrer em um mesmo segmento, gera uma comparação indevida”, diz Paula.

Maria Tereza Correa/EM/D.A Press
Paula Pimenta defende a separação das categorias. (foto: Maria Tereza Correa/EM/D.A Press )
Na carta em que renuncia ao cargo, Bagolin acusa os autores e editores de defenderem interesses pessoais e mercadológicos: “Mas o que realmente importa em minha divergência é alertar para o fato de que há indivíduos que estão agindo contra o novo projeto apenas para defenderem interesses pessoais e comerciais, e não pela possibilidade de prestar uma colaboração desinteressada ao Prêmio Jabuti”. Ele diz que a CBL tem perfeito conhecimento das diferenças entre a produção infantil e juvenil e cita o maior prêmio da área, o Hans Christian Andersen, que tem apenas a categoria infantojuvenil, como referência.

“Não há que eu saiba atualmente nenhum manifesto ou mobilização de nossos autores, ilustradores e editores para que haja uma mudança no Hans Christian Andersen. Ao contrário deste prêmio, contudo, o Jabuti não é voltado exclusivamente seja à literatura infantil, seja à juvenil, seja à ilustração infantil”, escreve. Este ano, o Jabuti ficará sem curador.

O escritor Alexandre Castro Gomes, autor de livros infantis, lembra que o gênero já ganhou três Hans Christian Andersen, o Nobel da área, e é reconhecido no mundo inteiro, mas sofre no Brasil. “A gente não pode exigir nada do Jabuti, porque o prêmio não é nosso, mas a gente pode defender a literatura infantojuvenil. Como pode eles estarem defendendo a formação de leitor quando o jovem leitor está perdendo espaço? Acho que isso é um reflexo de querer ‘didatizar’ a literatura e a arte, de querer colocar todo mundo na mesma caixa”, diz.

PRECONCEITO Para Tino Freitas, autor de Brasília, a junção das categorias representa ainda um preconceito em relação ao livro para crianças e jovens. “Por ser infantil, é colocado como pueril e fútil. Infantil e juvenil são dois estilos completamente distintos. É impossível pensar como se fosse uma categoria só. É como premiar romance com poesia”, sugere.

A polêmica começou há quase um mês, quando Volnei Canônica, especialista em infantojuvenil e autor de uma coluna sobre o tema no site Publishnews, criticou as mudanças no prêmio em dois textos nos quais argumenta, também, sobre os critérios de avaliação expressos no regulamento. Em uma reação publicada em post no Facebook, o curador do Jabuti, Luiz Armando Bagolin, ofendeu Canônica ao escrever que ele “se promove como especialista e surfa ao sabor das opiniões” e ao afirmar que o colunista faz a “defesa indefectível de seu amor, Roger Mello. Afinal, hoje é Dia dos Namorados. Beijos a vocês”.

 

Ana Rayssa/Esp, CB/D.A Press
O escritor Tino Freitas diz que há preconceito em relação a livros infantis e juvenis. (foto: Ana Rayssa/Esp, CB/D.A Press)
 


Acusado de ser homofóbico, Bagolin acabou por pedir demissão e, em outro comentário nas redes, acusou os autores de serem cabotinos e de promover reserva de mercado ao criticar a redução de possibilidades de ganhar o prêmio. “Em nenhum momento o curador ou a CBL combateram meus argumentos com argumentos. Houve sim uma ofensa pessoal. Mas nunca houve uma argumentação”, lamenta Canônica.

Na semana retrasada, ele participou de reunião com o presidente da CBL, Luiz Antônio Torelli, e com o próprio Bagolin, então curador, para apresentar uma carta assinada por 360 autores e artistas – entre eles Ziraldo, Maria Valéria Rezende e o próprio Roger Mello. No documento, os autores apontam três aspectos do prêmio para os quais sugerem mudanças. A CBL alegou ser muito tarde para novas regras, mas aceitou falar dos critérios. “Muitos conceitos que estão nos critérios de avaliação são ultrapassados e retrógrados”, explica Canônica. “Eles colocam, por exemplo, a ilustração como prestadora de serviço para a palavra.”

ILUSTRAÇÃO Para os ilustradores, colocar a ilustração infantil em categoria técnica é desconsiderar o potencial da linguagem. “A ilustração tem um papel muito importante e existe uma responsabilidade de fazer um livro para um jovem. Claro que o jovem vai ler tudo, mas existe uma área de interesse que não é preparar para ler um livro adulto, é entender esse momento. E o Brasil está cheio de escritores excelentes desse segmento e ele está sendo ignorado”, aponta Roger Mello. Ele lembra que o Jabuti é um prêmio do mercado e que os jovens lotam as feiras e bienais, o que torna ainda mais inexplicável a redução de categorias. “É como se os jovens não existissem”, lamenta.

Para Mariana Massarani, que já ilustrou mais de 150 livros infantis e também é autora, a ilustração não é apenas um detalhe técnico do livro. “Antes do texto, vem a ilustração. Às vezes, você pode ter um livro genial sem texto e outros em que a ilustração e o texto se completam”, explica. “O pessoal do Jabuti não entendeu o valor da ilustração. E é curioso, porque o prêmio sempre foi muito mais valorizado pelo pessoal do infantil do que do adulto.”

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