Entrevista: 'Escrevo para não enlouquecer', diz Ignácio de Loyola Brandão

Em seu novo livro, escritor fala de um Brasil distópico, governado por presidentes sem cérebro e 1.082 partidos políticos

por Nahima Maciel 18/06/2018 08:37
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Lá pela página 25 de Não verás país nenhum, o narrador introduz o leitor ao que ocorreu ao Brasil: “As casas sumiram, edifícios dominaram tudo, os espaços ficaram caríssimos devido à intensa especulação imobiliária. Tudo produto da Grande Locupletação, quando o país foi dividido, retalhado, entregue, vendido, explorado. Tenho medo de pensar nisso. Medo de falar com alguém a respeito”.

Ignácio de Loyola Brandão publicou esse romance em 1981, seis anos depois de Zero, que trata da ditadura. Não verás... é uma distopia sobre uma sociedade despedaçada. Tem muito a ver com a destruição das instituições e da autoestima causada pela ditadura. Uma espécie de consequência da opressão.

Assim como o narrador de 37 anos atrás, Ignácio de Loyola Brandão segue com medo – quase o mesmo de seu personagem. “O que me dá medo é meus filhos e meus netos não terem um país. Eu me aproximo do fim, não tenho medo, uma hora vamos morrer todos. Sei que meu tempo está encurtando, não me incomodo com isso. Mas tenho medo do que vai ser da vida desses jovenzinhos”, diz.

Para combater o medo, ele escreve. “Para me salvar”, brinca. Seu novo romance, Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela, deve sair em agosto. Por enquanto, Ignácio prefere falar pouco sobre o novo livro. Não quer decepcionar o leitor, nem privá-lo da descoberta.

Distopia que se passa num futuro não muito distante, Desta terra... tem muitos dos elementos que fizeram de Não verás país nenhum referência da literatura nacional. A política brasileira está dividida em 1.082 partidos e cada um tem direito à Presidência da República por um mês. “Mas todos não presidem nada”, avisa o autor. O Supremo está encerrado em um prédio de granito preto, inviolável. Transmissões de julgamentos são constantes, mas a população não entende absolutamente nenhuma das palavras ditas pelos protagonistas da corte. Na verdade, o que se vê ali é um simulacro, e uma surpresa está guardada para o final.

“É o livro mais louco que já escrevi. Azar. Quando escrevi Zero e Não verás..., pensei que ninguém ia ler. Agora, gostaria que lessem o próximo”, avisa Ignácio. “De repente, penso que fiz uma trilogia, sem saber.” Nesta entrevista, ele fala de literatura, do Brasil e da política educacional do governo Temer.  “O ensino, como está, é um desastre que não tem solução”, adverte.

Ainda fazem sentido eventos literários em um país de tão poucos leitores?

Sim. Recentemente, fiz uma palestra em Póvoa do Varzim, cidade próxima a Porto, em Portugal, onde nasceu Eça de Queiroz. Fiz a palestra de abertura e falei, justamente, da importância dos professores. Hoje, o ensino, como está, é um desastre que não tem solução, pois não tem ministro e não tem verbas. E agora, com a coisa da segurança, Temer tirou dinheiro da saúde e da educação. Não há interesse, continua a se querer manter um analfabetismo, uma ignorância para dominar. O que a ditadura fez foi ir derrubando a escola. Estudei numa escola excelente, meu ginásio e meu científico valeram por uma universidade. Tinha 13 matérias eliminatórias. Sei que isso é passado, que o mundo todo mudou.

Qual é o lugar da literatura na sociedade brasileira?
Desapareceram os suplementos literários, as páginas dedicadas à literatura. Quando vejo lista de mais vendidos, me dá um desânimo! É tudo livro de autoajuda, de ser feliz, pra regime, dieta, beleza. Agora, literatura, não há nenhuma colocação. E me pergunto também (qual o lugar). Só que aí digo para mim mesmo que vou continuar fazendo o que faço há 30 anos: ir a todos os lugares, porque tem um grupo fazendo, tem pessoas fazendo. Tem focos isolados de resistência, como havia, durante a guerra, focos contra o nazismo e contra o fascismo. Temos essa resistência e acredito nela. Se a gente parar, vai piorar. Estou com 82 anos e, recentemente, fui a Cuiabá, Campo Grande, Rondonópolis, Marabá e Brasília. E continuo indo para falar sobre literatura.

O que as listas de livros mais vendidos dizem sobre o Brasil?
Isso fala de uma sociedade mundial vaidosa, superficial, que quer as grifes, o consumo, e é estimulada por publicidade. E, hoje, também temos essas redes... Quem é lido hoje? Essas meninas youtubers. A bienal passada e a próxima prometem esses youtubers seguidos pelos gritos de milhares de menininhas e menininhos. Aí, um monte de autores sérios de boa literatura ficam lá sozinhos numa sala. Você vai dizer que é inveja, mas não sinto inveja. Sinto que a mediocridade está aí. E isso me apavora. A mediocridade está na política, na economia, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário que a gente não aguenta mais.

O que a distopia de Não verás país nenhum e a ditadura de Zero têm a ver com a realidade de hoje?

O Zero era a ditadura. Censura, tortura, morte, violência. A violência tá aí. Não é praticada por militares, e sim pelas milícias. Quem está comandando as coisas hoje são as milícias. O marginal é que manda neste país. E quando a gente tem o presidente mais frágil, mais sem ideias, fica difícil. No meu livro, vários presidentes não têm cérebro. Quem sabe esse que está aí não tem cérebro também? É um livro muito irônico, muito violento. Eu, ao mesmo tempo, me entristeci e me diverti ao escrevê-lo.

Você fala em violência e corrupção no Brasil de hoje. O que vai ser do país? Há esperança?

Esperança é uma bobagem que a gente alimenta. Mas se perdesse a crença de que tudo pode mudar, daria um tiro na cabeça. Agora, também não dou um tiro porque escrevo. Escritura é a minha salvação, fico flutuando nesse mar. Mas nunca vi o país nesta situação. Sei que o mundo mudou, a gente tem Temer, mas os Estados Unidos têm Trump e a Coreia do Norte tem aquele boneco inflável que acabou sendo estadista. É muito louco! Olha o mundo! Você entende? Mas tem umas coisas positivas, como o movimento das mulheres contra o assédio, contra a discriminação. Cresceu muito. E por que não mudar? A coisa não se faz de um momento para o outro. Lembro-me de uma frase do Antonio Candido: “Eu vivi uma época, a minha época. Depois vivi outra, em que tudo começou a se transformar. E agora não entendo nada”. Ele disse isso pouco antes de morrer.

O absurdo está perdendo para a realidade?

O absurdo é mais que a realidade. No livro, tem um momento do personagem em que a mulher deu um pé na bunda dele. Está na primeira linha. E ele, no desespero, alucina e fica andando pelo país. Em determinado momento, começa a andar numa terra esquisita, que não passa da lama da barragem de Mariana, e senta a seu lado o Euclides da Cunha. Absurdo não existe para mim. Se absurdo existisse, o Kafka não teria escrito Metamorfose. Uma hora, na conversa, Euclides da Cunha diz, observando Canudos com tiros e gente morta caindo, que ninguém mais se importava, porque a anormalidade tinha se estabelecido como normalidade. Isso define o Brasil e meu livro.

Por que você escreve?
Escrevo para não enlouquecer. Para me divertir também. Tenho um prazer imenso em escrever. Escrevo para me salvar. Mas me salvar do quê? Será que alguém sabe por que escreve, por que faz música? Porque alguma coisa empurra a gente.

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