Encontro reúne contadores de histórias em Belo Horizonte

O griot camaronês Boniface Ofogo Nkama diz que essa atividade ancestral é uma forma de resistir ao mundo dominado pela tecnologia

por Débora Anunciação 16/06/2018 09:30

Luiz Evo/ Divulgação
'Griot é um poeta, alguém muito importante, pois como não há bibliotecas, ele é a biblioteca' - Boniface Ofogo Nkama, contador de histórias (foto: Luiz Evo/ Divulgação )

Histórias são contadas todos os dias. Seja um causo compartilhado no ponto de ônibus ou a fábula lida para os pequenos ao anoitecer. Contar histórias pressupõe disponibilidade e interesse do ouvinte. Esse ato de escuta, raro nos dias atuais, vem sendo praticado por diversos movimentos em BH.


Ao longo desta semana, a Candeia – 2ª Mostra Internacional de Narração vem ocupando diferentes espaços do Sesc Palladium, no Centro da capital, com apresentações, oficinas e mesas de conversa. Neste sábado (16), a programação inclui espetáculos e o lançamento de CD do Coletivo Narradores.

Em Camarões, contar causos faz parte da história. Boniface Ofogo Nkama, narrador de histórias daquele país africano, revela que se trata de uma prática ancestral. “Meu pai sempre me disse: ‘Te pagam pelos contos?’. Digo que sim. Ele diz: ‘Os brancos estão loucos, porque aqui não cobramos nada, é natural como respirar, como beber água’”, diverte-se Nkama, que vive na Espanha. Ele viaja o mundo para compartilhar os contos e lendas de seu continente.

O camaronês carrega essa paixão no próprio nome. Ofogo significa mensagem. Nkama é tarântula, animal sagrado nas terras de Omasa, a cerca de 150 quilômetros de Yaoundé, capital de Camarões. Segundo Boniface, lá está enterrado seu cordão umbilical, aos pés do baobá, a árvore da palavra – nativa da África e considerada sagrada.

Nkama promete levar sementes de baobá para a oficina que ministrará hoje sobre contos e lendas da África. Ao pé dessa árvore também são enterrados os corpos dos griots, figuras importantes nas comunidades africanas.

“O griot é tudo, é a memória do povo. Conhece perfeitamente a história, conhece cada família, cada pessoa. É um artista que conta, canta, dança. É um poeta, alguém muito importante, pois como não há bibliotecas, ele é a biblioteca”, explica Nkama.

COLETIVO Da união de 12 vozes nasceu o Coletivo Narradores, formado logo depois da primeira edição da mostra Candeia. Graduada em jornalismo, Aline Cântia encontrou ali outra forma para contar histórias. Há mais de 10 anos ela fez disso a sua profissão. Bibliotecários, professores e economistas participam do coletivo, que tem a agenda cheia de compromissos.

“Pensamos que quanto mais pessoas contando histórias, mais espaço teremos, enquanto o mercado nos diz o contrário”, diz Aline.

Marco Gonçalves/divulgação
Aline Cântia trocou o jornalismo pela contação de histórias (foto: Marco Gonçalves/divulgação)


O primeiro CD do Narradores, viabilizado por financiamento coletivo on-line, será lançado neste sábado. O repertório traz histórias entrelaçadas a músicas cantadas pelos integrantes.

ADULTOS De acordo com a narradora Alessandra Nogueira, há urgência em esclarecer que contação de histórias não se destina só às crianças. “Temos um público muito grande. Nós, adultos, precisamos urgentemente dessa escuta, pois contar histórias é um ato de amor, de cuidado, de respeito. Quando há uma criança ou adulto na plateia nos ouvindo, eles, na verdade, estão se sentindo acariciados. A palavra cura”, garante.

Para o camaronês Boniface Ofogo Nkama, contadores fazem parte do movimento de resistência cultural nesta sociedade virtual. “Você tem mil amigos no Facebook, mas quantos se sentaram com você no último ano para conversar?”, comenta o griot africano.

* Estagiária sob supervisão da editora assistente Ângela Faria

Programação
» Das 9h às 13h – Oficina “Contos e lendas da África”, com Boniface Ofogo. Oficina “Contos de lugares distantes: estudos e práticas do narrar”, com Giuliano Tierno
» 14h – Bate-papo com Ricardo Azevedo
» 16h – Mesa “Contador de histórias contemporâneo, que profissional é esse?”, com Giuliano Tierno e Boniface Ofogo. Mediação: Josiane Geroldi
» 18h – Espetáculo Histórias de muitos mundos, com Emile Andrade
» 19h30 – Espetáculo O buscador da verdade, com Rosana Mont’Alverne e Eduardo Flores
» 21h – Lançamento de CD do Coletivo Narradores.

CANDEIA – 2ª MOSTRA INTERNACIONAL DE NARRAÇÃO
Neste sábado (16), no Sesc Palladium. Av. Augusto de Lima, 420, Centro. Entrada franca, com retirada antecipada de ingressos no local. Informações: (31) 3270-8100.

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