Poeta Fabrício Marques lança biografia de Wander Piroli

Wander Piroli - Uma manada de búfalos dentro do peito vasculha obra do escritor e jornalista

por Pablo Pires Fernandes 08/06/2018 11:32

Assim como incontáveis trabalhadores, bêbados, prostitutas, malandros e tipos peculiares que circulavam na boêmia Lagoinha das décadas de 1940 e 1950, o personagem Wander Piroli (1931-2006) estava lá. O menino cresceu e virou homem nas ruas do bairro. Foi lá, sempre afirmou, onde aprendeu a vida na base do olho  no olho com os outros. E viver e conviver com as pessoas, toda a gente, tornou-se seu maior tesouro.

Ser escritor, ganhar concursos e prêmios literários, advogar e se iludir numa possível justeza, reinventar-se como jornalista, para Wander, tudo isso era menor do que a rua, a vivacidade da experiência de estar diante das pessoas. Seu interesse era o outro, era compartilhar pedaços de histórias. O papo-furado do malandro, a felicidade do mendigo, o olhar do filho à beira da lagoa, a mulher assassinada pelo marido e as miudezas dos pobres coitados eram prato cheio para Wander.

Finalmente, esse personagem belo-horizontino tem sua vida registrada por escrito. Wander Piroli – Uma manada de búfalos dentro do peito é uma cuidadosa biografia realizada pelo poeta Fabrício Marques, que será lançada na noite de quinta-feira, dia 21, na Galeria de Arte BDMG, em Belo Horizonte.

Em 256 páginas, obviamente, é impossível apreender Wander Piroli. A personalidade, a vida, as histórias e sua literatura não cabem em páginas. Diante do desafio, Fabrício Marques optou por dar voz ao próprio Wander. Esse é o grande mérito da biografia, que integra a coleção Perfis de BH, da Conceito Editorial. O resultado é um texto delicioso. Com sensibilidade e discrição, o autor oferece ao leitor a(s) história(s) de um sujeito fascinante.

Marques também se fascinou. Leu todos os livros do autor, vasculhou vários arquivos, o acervo da família, entrevistou 55 pessoas e criou um blog em que compartilhou parte de suas descobertas (wanderpiroli.wordpress.com). O biógrafo quis iniciar o volume com 30 trechos de depoimentos concedidos pelo escritor em distintas épocas – material extraído da inédita compilação de entrevistas Todo amor é marginal. Nas sete primeiras páginas, a contundente franqueza já expõe a singularidade do biografado. O leitor, dificilmente, poderá evitar ser seduzido pelo personagem.

O livro de Fabrício Marques deixa evidente a grandeza literária de Wander Piroli, cuja obra ainda não alcançou o devido reconhecimento. Publicou cinco livros de contos, um romance, sete infantojuvenis (um deles reconhecido com o Jabuti), uma coletânea de crônica e um volume de casos de pescaria. E há material inédito. Wander Piroli – Uma manada de búfalos dentro do peito aborda a relação desse ser inquieto com a literatura, com o jornalismo, resgata casos peculiares de uma outra Belo Horizonte e revela sua apaixonada e intensa dedicação à conversa, à troca, à rua, enfim, à vida.

Nestas páginas, Fabrício Marques fala sobre o personagem e como foi capturá-lo em livro, e o jornalista Arnaldo Viana, discípulo de Piroli e mestre de tantos, escreve um testemunho sobre o amigo. De brinde, um conto inédito do escritor, concedido gentilmente por sua família ao Pensar.

 

Entrevista: Fabrício Marques 

 

Como vê a relação entre vida e obra no caso de Wander Piroli? É indissociável?
Os contos de A mãe e o filho da mãe, por exemplo, representam bem essa relação entre vida e obra, ou seja, de como ele fala de algo que ele conhece profundamente, de como ele consegue transpor para o papel a observação e a percepção de que tira de determinados fatos e acontecimentos. O que se pode ressaltar é que Wander é um escritor que está entre os maiores de nossa literatura. Só falta ser olhado com mais cuidado pela mídia, pela academia, pelos leitores. Há uma força, uma verdade, uma potência em tudo o que ele escreve. Gosto de uma observação do Jarbas Juarez, que ilustrou a primeira edição de O menino e o pinto do menino. Para ele, Piroli é capaz de ternura, lirismo e dramaticidade ao mesmo tempo. Jarbas entendia Wander dividido em três partes: “Malícia, trazida de seus tempos de boemia e Lagoinha; lirismo, peculiar de sua própria pessoa; e dramaticidade, que ele aprendeu no cotidiano da vida”. Resumindo, ele completou: “O Wander é um fenômeno e faz o que quer das palavras”.

Wander tinha uma relação muito intensa com o viver, o dia a dia e os amigos. Como essa postura, em sua opinião, se reflete na literatura dele?
É verdade, Wander prezava o contato com tudo que fosse vivo: pessoas, animais, rios, florestas. A vida em estado puro. Estar com a mulher e os filhos, beber com os amigos, pescar, jogar sinuca, fazia tudo com a máxima intensidade. Dava grande valor ao tempo presente, aos amigos presentes, à vida presente – “o futuro é uma ignomínia” – ele afirmou certa vez. Agora, Wander fez uma ligação direta da vida com a literatura, sem mediações (que não fosse a de sua própria linguagem) ou intermediários. Isso resulta numa literatura sem adornos, direta, substantiva. Ele buscava chegar a uma história que se resumisse em sujeito, verbo e predicado, rumo ao sumo. Nesse sentido, o escritor Marçal Aquino, por exemplo, destacou numa resenha que Wander “tem um ouvido infernal para o alarido das ruas e os diálogos em seus textos soam com a familiaridade da conversa que acabamos de ouvir durante o cafezinho, no balcão do bar. É preciso olhar e ouvir a vida antes de falar dela, essa é a verdade da literatura de Wander Piroli, que elege o humano como sua matéria-prima”.

Em várias declarações, Wander coloca a literatura como algo inferior à vida e, às vezes, se refere à literatura com certo desdém. Como ele lidava com o ofício de escritor e jornalista?

Para Wander, a literatura é apenas algo que faz parte da vida. Se, em determinado momento, ele tivesse que optar entre pescar ou escrever um conto, ele optava pela pescaria, sem pensar duas vezes. E, embora ele não tivesse a menor estima pelas belas letras, quando escrevia era um artesão da palavra do mais alto nível. Wander tinha obsessão em reescrever seus contos, e várias vezes. Cortava, jogava fora. Já com o jornalismo era a mesma atitude em relação à literatura, ou seja, nunca algo maior do que a vida. Era visto, por ele, como uma atividade para garantir a sobrevivência dele e da família. Mas não se enganem. Ele fazia jornalismo tão bem quanto fazia literatura. É preciso lembrar também que, a partir de 1975, com o sucesso de O menino e o pinto do menino, ele passa a ser conhecido de forma mais ampla. É convidado para vários eventos literários, nos quais deixa clara a sua posição, naquele momento específico do país: a de que os escritores estão muito aquém da realidade brasileira. Ele dizia: “O povo não está se identificando com nossa literatura. E este é o grande desafio: encarar o que está acontecendo”. Sobre a relação entre jornalismo e literatura, ele lembrava daquela afirmação de Hemingway: “O jornalismo, além de um certo ponto, pode terminar por constituir uma autodestruição cotidiana para o escritor”.

Em seu livro, fica evidente o caráter humanista do escritor e a paixão dele pelas pessoas. Como esse olhar se reflete na literatura dele?
Wander era um humanista radical. A expressão é do Sebastião Nunes, num ensaio em que compara Piroli com outro contista de primeira grandeza, Dalton Trevisan, considerando que, entre os escritores brasileiros de qualquer época, eles são os únicos que conseguiram incluir o submundo urbano na categoria de literatura maior. Para Sebastião, o que aproxima Dalton e Wander é que ambos “conhecem como ninguém a vida estreita dos pobres e infelizes da periferia, com seus problemas miúdos, suas mazelas rotineiras, seu quase desespero constante”. Mas, enquanto Dalton tem dureza extrema, prossegue Tião Nunes, Wander esbanja piedade pelos indivíduos que revive em ruas, botecos e barracos. Na vida pessoal, Piroli demonstrava a mesma paixão, o mesmo interesse inarredável pelas pessoas.

A rua sempre foi grande matéria-prima da literatura de Wander. Podemos atribuir esta característica à relação dele com a Lagoinha?
A Lagoinha, onde viveu até os 27 anos, foi essencial para Wander. Era o bairro mais barra-pesada da cidade, basicamente operário e marginal, com uma dúzia de famílias de classe média. Ali, Wander teve contato com a boemia, com seus botequins, bêbados, prostitutas, a fina flor da malandragem, tudo quanto é náufrago da noite. Mas também com operários, carpinteiros, pedreiros. Da convivência e da observação desses personagens Wander extraiu grande parte de seus contos. Ele chegou a dizer: “A Lagoinha está em tudo. A minha visão do mundo é a visão da Lagoinha”. É claro que, física e geograficamente, a Lagoinha virou outra coisa. Mas a do Wander permanece viva em sua literatura. É importante ressaltar que, não obstante esse lado de “homem de rua”, Wander conseguia conciliar a família e a rua, a casa e vida boêmia. Um boêmio que não abria mão da família; um homem de família que não abdicava dos amigos e da noite.

Como a personalidade inquieta de Wander se refletiu no trabalho dele como jornalista?
Wander era inquieto, anárquico e iconoclasta. No jornalismo não foi diferente. Promoveu, em todos os veículos pelos quais passou, uma “desrepressão” não só da linguagem jornalística, mas da linha editorial, do design das páginas e das pautas. Mulheres, negros, homossexuais – com muitos anos de antecedência, deu espaço para minorias e desvalidos – sobretudo nos projetos em que tentou um jornalismo mais popular, como o Jornal de Shopping e Jornal de Domingo. Ele queria estar à frente de um jornalismo que fosse ousado e que incomodasse o poder. No Estado de Minas, chefiou a Editoria de Polícia, um grupo de muito talento, e que chegou a ganhar um Prêmio Esso com o Caso Defensor, um exemplo de uma série de reportagens que desafiaram a ditadura militar à época (1977). Tudo começou bem antes, no lendário Binômio, em que ingressou em 1962. Na sequência, passou pela edição mineira do Última Hora e d’O Sol. Essas experiências moldaram o editor de títulos geniais, o articulador de pautas inventivas, o gestor de equipes talentosas, que devotavam a ele um respeito que era mútuo – enfim, um editor notável.

Wander fez de coluna social a relatos policiais. Como foram os diferentes Wanders nas redações?
A passagem pelo semanário Binômio foi decisiva para ele, que até então nunca havia trabalhado numa redação. Aprendeu na marra. Foi repórter por poucas semanas. Tinha a coluna Nossa cidade, em que escrevia contos; tornou-se rapidamente editor do jornal. Mas o melhor estava por vir: assumiu, com o pseudônimo de Flamínio Moni, a anticoluna social A sociedade é deles, que se tornou um dos maiores sucessos do Binômio. No diário Última Hora, atuou como redator-chefe, e ali ele passou a entender a produção industrial de um jornal. Depois, foi editor d’O Sol, exercendo com ainda mais liberdade a picardia e o humor aprendidos no Binômio. No período de editor de Polícia no Estado de Minas, tomou contato mais de perto com o lado cruel da realidade, o chamado mundo cão. Em seguida, uma passagem-relâmpago, de pouco mais de cinco meses, pelo Suplemento Literário de Minas Gerais. Contudo, foi intensa e memorável, até hoje lembrada por muitos leitores.

A linguagem literária dele é muito concisa e ele, várias vezes, faz referência a Graciliano Ramos e Ernest Hemingway. Como essa linguagem foi moldada?

Esses dois nomes são referência para o escritor Wander Piroli. De Hemingway, Wander apreciava a linguagem seca, precisa e clara, bem como a estratégia de conferir ao final do conto um toque de inesperado. Sem contar, claro, a precisão nos diálogos. Essa característica, aliás, é muito destacada em outro contista, o Luiz Vilela, mas o Wander consegue grandes resultados nesse quesito. O Piroli também considerava que o Graciliano Ramos tinha o melhor português do Brasil, “disparadamente”. Curiosamente, Wander disse certa vez que, quando começou a ler, a literatura era algo que o aborrecia. Até que descobriu que vinha lendo os autores errados, como Coelho Neto. Até que Graciliano foi uma descoberta definitiva e que teve grande importância em sua formação. Mas só essas referências não são suficientes para formar o grande escritor. Ele surgiu, enfim, da capacidade do jovem criado na Lagoinha de traduzir suas experiências biográficas em linguagem literária, ao mesmo tempo simples e profunda. A gente deve ler o Wander em estado de graça. Na literatura, a mesma disposição para romper regras: basta lembrar dos primeiros livros infantojuvenis, lançados em meados dos anos de 1970, e que mudaram os caminhos da literatura infantil brasileira nesse período. O menino e o pinto do menino causou desconforto em muitos pais de família e escolas pela abordagem realista do cotidiano de uma criança. E Os rios morrem de sede inovou ao falar de ecologia, um assunto até então inexplorado nos meios de comunicação.

 

 

WANDER PIROLI – UMA MANADA
DE BÚFALOS DENTRO O PEITO

• De Fabrício Marques
• Conceito Editorial
• 256 páginas
• R$ 32,50

LANÇAMENTO
Dia 21 de junho, das 19h às 22h. Galeria de Arte BDMG Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes).

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