Jornalismo em tempos sombrios: livro relembra histórias do Jornal de Minas, de posição controvesrsa durante a ditadura

Publicação traz entrevista com Afonso Paulino, proprietário do periódico

por Walter Felix 08/06/2018 08:00
Arquivo/EM/Reprodução
Arquivo/EM/Reprodução (foto: Arquivo/EM/Reprodução)
A imprensa brasileira teve um de seus períodos mais sombrios durante a ditadura militar (1964 -1985). Jornalistas conviviam com a censura e ameaças constantes; opositores ao governo foram torturados e assassinados. Em um cenário controverso, o Jornal de Minas reunia uma equipe plural, capaz de abrigar desde militantes clandestinos de esquerda até apoiadores da ditadura. Entrevistas e textos sobre esse periódico, que foi fechado em 1988, estão reunidos no livro Jornal de Minas: histórias que ninguém leu, que será lançado nesta sexta-feira (8), no Sindicato dos Jornalistas.

A iniciativa de produzir o livro partiu de Fernando Horta Zuba, que trabalha como produtor investigativo da TV Globo. Seu pai, Fernando Zuba, foi editor do Jornal de Minas a partir de 1975. “Frequentei a redação desde os meus 5 anos. Auxiliava na fotografia e no fechamento da primeira página. Desde cedo, fui vivendo essa relação com o universo jornalístico, que certamente influenciou a minha formação. Havia muito tempo que sentia vontade de reunir as histórias desse jornal, que sempre me pareceu contraditório”, afirma Zuba.

Se em determinada época o Jornal de Minas adotava teor contestador, chegando a ser classificado como opositor à ditadura, meses depois, editorial de primeira página poderia escancarar o apoio de membros da diretoria aos militares. O contraste ficava evidente na figura do proprietário, o empresário Afonso Paulino – reconhecido jogador da Seleção Brasileira de futebol de salão e posteriormente presidente do Clube Atlético Mineiro. “O próprio dono apoiava a ditadura, mas os empregados eram, em sua maioria, liberais, comunistas e feministas ativas”, lembra Zuba.

Paulino não ficou de fora do livro que resgata a trajetória da publicação. Cinco repórteres de sua antiga equipe fizeram perguntas ao ex-chefe. “A entrevista com o Afonso Paulino é o ponto forte do livro. Ele não se furtou a responder nem mesmo às perguntas mais difíceis”, afirma Ronaldo Solha, que trabalhou no Jornal de Minas entre 1973 e 1976.

Na entrevista, Paulino diz nunca ter participado de sessões de tortura – dúvida que acompanhou seus ex-funcionários por décadas. Outra polêmica abordada é o assassinato do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), em São Paulo, forjado como suicídio em um episódio que deflagrou perseguição a jornalistas contrários ao governo. À época, o Jornal de Minas publicou editorial destinado “aos verdadeiros brasileiros”, que negava a hipótese de crime político para o caso Herzog. Essa espécie de apoio ao assassinato de um jornalista fez com que parte dos repórteres debandasse e criasse um veículo alternativo, chamado De Fato.

“Paulino afirma que aquele editorial foi imposição do governo e não foi feito por membros do jornal. Não há como provar o que ele diz, mas também não há ninguém capaz de desmenti-lo”, conta Zuba. Ele lembra que Afonso Paulino equilibrava suas posições políticas extremadas com atitudes por vezes assistenciais a seus funcionários. “Apesar da linha editorial de direita, ele não deixava isso transparecer no convívio, até mesmo com os repórteres de esquerda”,  relembra.

CORDA BAMBA

Trocar matérias, reescrever leads e até mesmo refazer toda uma reportagem eram ações cotidianas daquela redação tão heterogênea, segundo Ronaldo Solha. Os repórteres trabalhavam no mesmo espaço que membros da Polícia Federal, responsáveis pela censura prévia. “O Jornal de Minas foi uma escola de jornalismo, em que tínhamos que nos equilibrar em corda bamba. Houve um período de ouro, em que, incrivelmente, parecia um jornal de oposição ao regime e aos desmandos que ocorriam na época”, conta Solha, que foi revisor, repórter, chefe de reportagem, secretário de redação. Atualmente, ele está aposentado, vivendo no Espírito Santo.

A publicação não busca abranger todo o complexo movimento de levar notícia à população em meio à ditadura. Há relatos de ameaças veladas, mas não de torturas ou punições diretas àqueles profissionais, que rememoram como era fazer jornalismo naquele específico periódico de vida curta, que nasceu em 1973 e esteve nas bancas por pouco mais de 20 anos.

“Percebia um jornal deficitário do ponto de vista comercial, que tinha dificuldade para arrecadar anúncios, mas em que os jornalistas trabalhavam como se fossem uma família”, conta Zuba. “Falamos sobre a ditadura com um outro viés. O livro mostra como o jornalismo era feito sem o advento da tecnologia e traz ainda uma discussão contemporânea sobre as pautas daquela época”, conclui.

JORNAL DE MINAS: HISTÓRIAS QUE NINGUÉM LEU
>> Fernando Horta Zuba (org.)
>> Páginas Editora
>> 208 páginas
>> R$ 40

Lançamento
Hoje, às 19h, no Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais (Av. Álvares Cabral, 400, Centro). Informações: (31) 3224-4428.

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