'Manifesto antropófago', de Oswald de Andrade, completa nove décadas

A professora da UFMG Eneida Maria de Souza fala por que o texto ainda é referência para a cultura nacional

por Pablo Pires Fernandes 25/05/2018 10:46
Fernando Tavares/Reprodução
Obra em tipografia criada por Fernando Tavares. (foto: Fernando Tavares/Reprodução)
Era maio de 1928 quando foi lançada a Revista de Antropofagia, editada por Antônio de Alcântara Machado e gerenciada por Raul Bopp. Em seu primeiro número, Oswald de Andrade publica o Manifesto antropófago, uma eloquente proposta de interpretação (e transformação) o Brasil sob uma perspectiva inédita.

À frente de seu tempo, a visão de Oswald de Andrade se distanciava dos modernistas e seguia um rumo autônomo e radical. Certas análises acusaram o texto de pregar a vulgaridade e “nadar no instintivo”. Vários autores simplificaram o conceito do Manifesto à “digestão” de influências vanguardistas europeias e sua adaptação à cultura nacional. Poucos perceberam a dimensão mais profunda da invenção do escritor paulista.
 
Foram necessários muitos anos para que o Manifesto – assim como a obra de Oswald em geral – fossem analisados em suas múltiplas dimensões. Trata-se de uma visão de mundo peculiar, ousada e provocativa, que deseja não apenas um Brasil distinto, mas um mundo mais feliz. A utopia oswaldiana aposta na possibilidade de um novo ser humano vivendo em uma sociedade mais fraterna e sem quaisquer imposições herdadas de um colonialismo brutal. Daí sua aposta na visão de mundo dos povos ameríndios. Não se trata de um retorno ao primitivismo, mas a ideia de que é possível viver sem pecado, sem posses, sem Estado nem Édipo.

Esta edição do Pensar celebra os 90 anos da publicação do Manifesto antropófago, trazendo entrevista com a professora Eneida Maria de Souza, professora titular de teoria da literatura da UFMG e uma das maiores estudiosas do modernismo brasileiro. A poeta, música e pesquisadora Beatriz Azevedo escreveu um artigo no qual discute o visionário conceito de Matriarcado de Pindorama elaborado por Oswald. As páginas são ilustradas por um raro trabalho tipográfico de Fernando Tavares em homenagem ao poeta.

A obra de Oswald de Andrade, geralmente, é colocada como modernista. No entanto, do Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de 1924, ao Manifesto antropófago, de 1928, há certa radicalização do discurso do poeta. Como ocorre essa evolução?

Oswald de Andrade pertenceu ao movimento modernista de 1922, defensor da construção da arte e da literatura brasileira de forma admirável, apesar de se valer dos movimentos e manifestos de vanguarda europeus, pautados pela revolução de linguagem e de costumes. Em 1924 e 1928, a preocupação do escritor e de outros se modifica para a valorização do nacionalismo e da ruptura gradativa e não radical com a hegemonia artística e cultural europeia. A busca de um elemento primitivo da cultura brasileira, ilustrada pela viagem a Minas em 1924, em busca da tradição do Barroco colonial como marco do moderno, reuniu o novo e a vanguarda. Em 1928, com a criação da Revista de Antropofagia e o Manifesto, Oswald abriu as portas para a compreensão mais arguta e política do modernismo, compreendendo a segunda fase do movimento. A luta por uma poesia pau-brasil, concebendo a poesia tupiniquim material exportável, como foi a exportação do pau-brasil no período da colonização, incrementa a proposta nacionalista do movimento.

Como você definiria o conceito de antropofagia de Oswald?

A antropofagia seria, em linhas gerais, a transformação de um ritual indígena – alimentar-se de carne humana do inimigo para se fortalecer e se apropriar de sua força – em conceito operatório, em manifesto pela defesa da cultura nacional diante da cultura europeia, responsável pela colonização das terras descobertas. A poética modernista celebra a produção desta cultura brasileira que atua como resposta à dominação estrangeira, personificada na valorização do que é nosso.

Qual é a visão que Oswald tem da colonização a partir do Manifesto

Poderíamos dizer que Oswald irá repetir, em outra dimensão, a proposta de 1822, ao ser o Brasil tornado independente de Portugal. Agora será a cultura brasileira que se insurge contra a colonização e pretende responder em termos de igualdade aos males da colonização, deglutindo o que essa cultura teria de melhor, para mastigá-la, apropriar-se dela e devolver o troco. Um manifesto guerreiro, radical e utópico.

O autor menciona ideias de Marx, Nietzsche, Freud e os transporta para um universo próprio. Como analisa essa ressignificação feita no Manifesto?

A defesa da apropriação do outro, da conquista da terra nativa e a valorização do indígena como verdadeiro proprietário das terras nativas estariam dentro da proposta marxista e econômica do manifesto. Em Freud, a transformação do tabu em totem, a desvirtuação das leis e a desobediência. Em Nietzsche, a defesa de ser a alegria fruto da dor, quando proclama o refrão “a alegria é a prova dos nove”. A herança freudiana estaria implícita na revolta contra a criação de complexos e traumas, trazidos pela colonização europeia: “Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem prostituições e sem penitenciárias do Matriarcado de Pindorama”.

Podemos afirmar que o Manifesto é a formulação de uma utopia? 

Guardadas as diferenças, é possível conceber um impulso utópico no Manifesto, pela necessidade de fornecer uma saída para os males colonialistas, revertendo o pensamento para a valorização de uma cultura que diz não à hegemonia da cultura europeia. A defesa do Matriarcado de Pindorama ressalta a figura materna como substituta do pai colonizador, restituindo os valores próprios da terra-mãe. Não deixa de ser aí eminentemente utópico. No entanto, o resgate dessa utopia reside na retomada da esperança e da alegria, contrapondo-se à antropofagia bélica e ressentida. Rachel Lima, crítica literária muito arguta, conclui, ao analisar a leitura da antropofagia pelo viés da dependência cultural: “No Matriarcado de Pindorama, a infantil e inocente curiosidade indígena frente aos bens do europeu, (...) transforma-se em hábito a ser incorporado por todos que apostam na vida comum.”

Como se articulam as análises sobre a história do Brasil, as ideias “vanguardistas” e a criação literária no Manifesto?

A criação literária do Manifesto responde pela estrutura fragmentária e incisiva de todo texto que mantém este teor, condensando fatos próprios da colonização, da realidade indígena, afirmações contundentes sobre nossa cultura, trazidas pelo pensamento colonizador. Compõe uma montagem de frases feitas, de ecos de afirmações alheias, realizando aí a necessidade de não se separar prosa de poesia, teoria e ficção. Com incursão na história brasileira, atualiza, de forma humorística, os traços e resíduos de um discurso do colonizador, invertendo-o: “Tupy or not tupy, that is the question”, parodiando Shakespeare, para mostrar que nossa realidade é outra.

Qual o impacto do Manifesto na cultura brasileira ao longo do tempo?

Teoricamente, pode-se afirmar que Oswald de Andrade iniciou uma linhagem de crítica cultural no Brasil, ao introduzir a antropofagia como um dos antídotos para que se deslanchasse o diálogo pós-colonialista. A continuidade, em diferença, dessa linhagem, encontra na alegria e no bom humor a maneira mais eficaz de conversar com o outro, levando às últimas consequências a “prova dos nove” desse sentimento. A cultura de massa, uma das vítimas prediletas da intelectualidade elitista e iluminista, atua no momento antropofágico e tropicalista brasileiro como peça integrante para a diluição dos limites entre a cultura considerada erudita e de importação e sua devoração pelos autores tupiniquins. Nas artes plásticas, com Hélio Oiticica, teve início o diálogo com o modernismo dos anos 1920, quando o artista reconhece a importância e a atualidade da antropofagia como uma das mais rentáveis lições de ruptura e releitura do momento político e artístico do momento. Caetano Veloso, com o movimento Tropicalista na década de 1960 – ao lado de Gilberto Gil, Nara Leão, Torquato Neto, entre outros –, admite que o apelo ao programa antropofágico oswaldiano significava, naquele momento, o rompimento com as raízes da cultura brasileira, com o culto do primitivo, pela aceitação do mais avançado que se produzia no exterior. Alegre e parodístico, o Tropicalismo bebe em várias fontes musicais, do bolero ao rock, da música pop às expressões de mau gosto. Sem falar no teatro de José Celso Martinez Correa. Hoje, a cultura musical, literária, histórica e cultural se alimenta de várias fontes e se enriquece com a mistura heterogênea reinante. Não precisamos canibalizar mais culturas, pois as fronteiras culturais estão cada vez mais contaminadas pela presença do outro, o que não deixa de ser um grande avanço.

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