Anelito de Oliveira lança 'O iludido', sua primeira obra de ficção em prosa

Os 13 contos presentes no livro alternam linguagens, mas trazem sempre um desencanto diante do mundo

por Pablo Pires Fernandes 23/05/2018 08:59
Arquivo Pessoal/Divulgação
O escritor autografa seu livro no Café do Centro Cultural do Minas Tênis Clube. (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Com diversas obras teóricas publicadas, Anelito de Oliveira se aventurou na poesia em 2000, quando lançou Lama, seguido de outras quatro coletâneas com seus poemas. No entanto, os versos foram longamente trabalhados desde a década de 1990. O mesmo caso ocorre com O iludido, livro de contos e sua estreia na prosa de ficção que será lançado nesta quinta-feira (24) com a presença do autor no Café do Centro Cultural do Minas Tênis Clube.

As 13 narrativas de O iludido passeiam por estilos bastante distintos, embora seja reconhecível, como aponta Luiz Ruffato na contracapa do livro, uma marca pessoal. Se os contos alternam ritmo, abordagens e subjetividades muito amplas, todos trazem uma inquietação diante da realidade e do ser humano, com especial e arguto olhar aos que ele chama de subalternos. São pequenos desgraçados que lutam pela sobrevivência diante da sociedade e suas regras, que tentam se desvencilhar das imposições culturais castradoras.

De narrativas mais experimentais, em que utiliza onomatopeias e neologismos, a uma prosa poética ritmada e desconcertante, até textos de linguagem aparentemente simples e fluida, Anelito de Oliveira mostra extrema habilidade com a palavra, mesmo quando afirma que “escrever é uma luta”. “Todos os textos foram exaustivamente trabalhados, com certa obsessão de fazer algo durável, que não se esgotasse numa primeira leitura, que resistissem à passagem do tempo”, afirma.

Sobre o fato de a maioria dos contos de O iludido ter ficado guardada por longos anos, Anelito diz que houve “resistência a participar do jogo tantas vezes sujo do mercado editorial”. E revela que, assim como esses textos, há muitos outros – contos, novelas e romances – esperando o momento certo de publicação. “Publicar, hoje mais do que nunca, é um gesto de solidariedade, uma tentativa de abrir o horizonte que forças reacionárias estão fechando cada vez mais, uma política de sensibilização.”

Você passou um longo tempo gestando este livro. Como foi esse processo e o que mudou nesse tempo?

Foram dois tempos: o início dos anos 1990 – nos quatro primeiros anos daquela década – e os últimos cinco anos. Mudou, no caso da ficção, basicamente a finalidade: escrevia “para” a literatura, agora escrevo “contra” a literatura, tinha interesse mais estético, agora tenho interesse mais ético. Estética é prazer, ética é dever. Digo “mais” porque acredito que o que se passa agora já se passava outrora, de um modo mais intuitivo.

Você menciona que o livro surgiu de uma “inquietação subjetiva”. Como define essa inquietação?

A subjetividade inquieta é aquela que não se compraz com lugares comuns sobre o sujeito contemporâneo, que tenta ir além do que já está institucionalizado como mundo do sujeito, como seu comportamento natural. As narrativas d'O iludido partem muito de uma ignorância sobre o que é o sujeito, sobre quem são realmente os sujeitos subalternos, especialmente abordados: a mulher, o pobre, o negro, a negra, o louco, o trabalhador comum, o idoso etc. O sujeito como um locus subterrâneo, como uma espécie de “subterraneidade”, é o que anima essas narrativas.

Você disse, certa vez, que escrevia para se sentir vivo e se encontrar. Como é esta relação existencial com a escrita?

Sim, escrever para mim é uma questão de vida – e morte, evidentemente. Isso explica muita coisa, a começar pelos longos períodos sem publicar livro. Nunca tive nem tenho uma vivência confortável da condição de escritor, daquele tipo: vivo para escrever. Estou sempre vivendo e escrevendo, numa dinâmica em que escrever é parte da luta para existir realmente.

Há muita variação estilística. Como você vê esse exercício múltiplo de linguagem?

Há ecos de muitos autores n’O iludido, a começar por Machado. Borges e Rubião aparecem como uma espécie de desdobramentos machadianos. Diria que é mais uma relação com a discrição narrativa, com aquela coisa de não dizer tudo, de apenas jogar os dados (ou os búzios). Rosa, por outro lado, é uma referência muito viva em razão do sertão, da minha origem sertaneja, marcada por uma certa mística bárbara, por um devir-onça.

A poesia, que exerce publicamente há mais tempo, é muito presente e vários contos são em uma escrita de prosa poética. Como essas duas formas de texto se contaminam ou se diferem?

Gênero literário sempre foi, para mim, uma imposição didática, tributária de uma cognição muito normativa, autoritária. Nunca me vi atrelado definitivamente a um rótulo, mas muito mais interessado na criação, na poiesis. Creio que a poesia, no sentido originário, seja uma potência passível de ser atualizada em registros diversos, inclusive no verso, mas também na arquitetura, na dança, na música, na pintura, na prosa de ficção. Toda grande prosa de ficção é edificada pela poesia, enquanto potência indeterminada.

Você usa vários recursos formais e dialoga com outras linguagens (o cinema, o rádio, o jornal).  Como é lidar com diferentes meios de expressão?

Estou buscando um outro modo de registrar matérias que se distinguem, a meu ver, pela sua informidade gritante, digamos, pela sua exterioridade, portanto. A narrativa “A terceira morte de Ricardo Gimenes”, por exemplo, exigiu-me uma forma reportagem como possibilidade de elaborar um registro eminentemente hipotético. Tudo é hipótese ali, a começar pelo próprio suicídio: um sujeito suicida-se com dois tiros? Por outro lado, a “Noveleta (quase) radiofônica” exigiu-me uma estrutura de novela de rádio, um “quadro” de cada vez, tendo-se em vista, em primeiro lugar, o público de rádio, ouvintes de um canal midiático popular, aliás, o mais popular. A própria singeleza da narrativa colocou-se para mim como dispositivo eficaz para dar forma ali ao informe, àquilo que é informe (vejamos), desprovido de forma, porque é referência de infame, de pessoas comuns, subalternas, um velho sertanejo, percebido pelas elites, óbvio, como uma espécie de lixo humano, que incomoda a ordem e o progresso.

Em alguns contos você explicita o narrador e seu lugar de enunciação. É uma forma de questionar o próprio ato de narrar ou uma necessidade?


Vejo-me, desde o final da década de 1980 (comecei a escrever com “fúria”, digamos, aos 16 anos!), confrontado pelas sentenças adornianas bastante conhecidas: impossível narrar depois da Segunda Grande Guerra, impossível escrever poesia depois de Auschwitz. Nunca pensei, nem penso, que o caminho fosse passar por cima da problemática histórica mundial, fazer vista grossa para os diagnósticos mais críticos sobre a vida contemporânea, cuidar apenas do meu ego. Tudo que faço é na impossibilidade de fazer, em meio à crise, criticamente. O iludido testemunha todo esse processo, como acredito que os demais trabalhos que publiquei também testemunham. Talvez a minha obra mesma, o que está em questão, seja o testemunho da condição crítica de um escritor, a exposição da verdade como crítica de toda e qualquer ideia de verdade.


O ILUDIDO
. De Anelito de Oliveira
. Páginas Editora
. 156 páginas
. R$ 42

LANÇAMENTO

Quinta-feira (24), das 19h às 21h30, no Café do Centro Cultural no Minas Tênis Clube (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes).

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