Livro mostra a história da gestação do antológico disco 'Clube da Esquina'

Escrita pelo jornalista Paulo Thiago Mello, a publicação conta os bastidores deste que se tornou um marco tanto para a discografia nacional quanto para a mineira

por Ana Clara Brant 23/05/2018 09:13
Arquivo O Cruzeiro/EM - 3/11/71
Fernando Brant, Lô Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento em Diamantina, na época em que compunham Clube da Esquina. (foto: Arquivo O Cruzeiro/EM - 3/11/71)

O ano de 1972 foi emblemático para a MPB, com obras que entraram para a história musical e hoje se tornaram clássicos: Acabou chorare, dos Novos Baianos, A dança da solidão, de Paulinho da Viola, Expresso 2222, de Gilberto Gil, e Transa, de Caetano Veloso. Um desses lançamentos fonográficos foi importante não só para a discografia nacional, mas, especialmente, para a mineira, Clube da Esquina.

O LP duplo de Milton Nascimento e do então desconhecido Lô Borges – que tinha apenas 20 anos – foi um marco em todos os sentidos. A história e os bastidores da criação desse álbum antológico está em Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina, livro do jornalista e doutor em antropologia Paulo Thiago Mello. A publicação é o 16º título da coleção O Livro do Disco, da Editora Cobogó, que, desde 2014 se dedica a produzir obras a partir dos grandes discos de todos os tempos. Entre os já publicados estão The Velvet Underground – The Velvet Underground and Nico, escrito por Joe Harvard; Jorge Ben – A tábua de esmeralda, de Paulo da Costa e Silva; Tom Zé – Estudando o samba, de Bernardo Oliveira; e Gilberto Gil – Refavela, de Maurício Barros de Castro.

Como já há algumas obras no mercado dedicados ao movimento que revolucionou a música brasileira e aos artistas que fazem parte dele, Paulo Thiago quis trazer um diferencial. Inicialmente, a ideia era pegar depoimentos de Milton analisando as músicas, os arranjos e revelando os bastidores da produção de Clube da Esquina. A agenda do artista e a distância geográfica, no entanto, fizeram o projeto tomar outro rumo. “Acabei fazendo esse livro na primeira pessoa. Quis mostrar como aquele disco que eu ouvi quando tinha apenas 12 anos impactou não só a mim como toda uma geração. Ele foi criado em um momento difícil para o Brasil, era o auge da ditadura. Mas, ao mesmo tempo, era um período de extrema criatividade em vários campos da arte brasileira”, ressalta.

O jornalista começa a pesquisa exatamente do início de tudo. Uma sessão em 1964 do filme Jules et Jim, do diretor francês François Truffaut, no Cine Tupi de Belo Horizonte, e como aquele longa impactou Milton Nascimento e o transformou. “Ali foi um rito de passagem, como se fosse uma pré-história do que viria a ser o disco alguns anos depois. O Milton já tinha lançado Travessia, Canção do sal, Morro velho e outras canções que se aproximavam mais da bossa nova, do jazz. Aí, quando veio a ideia do disco, em 1972, ele teve a sacada de convidar o Lô, que era um jovem músico que trazia uma coisa dos Beatles, de um rock mais psicodélico. Era uma mistura nova, uma coisa boa que surgia na MPB.”

COLETIVO Apesar de inovações de sons, arranjos, letras e melodias, Paulo Thiago conta que o álbum não recebeu críticas muito favoráveis e chegou até mesmo a ser ignorado na época do lançamento. “Era uma sonoridade que a minha geração estava esperando. É um trabalho coletivo, apesar de ser um disco assinado pelo Bituca e o Lô, que teve toda aquela coisa da criação na praia, em Piratininga (Niterói), e trouxe muitas inovações não só no seu conteúdo, mas na maneira como foi gravado. Os arranjos feitos ali, todo mundo participando ativamente. Teve o Beto Guedes, Toninho Horta tocando, letras do Fernando Brant e do Ronaldo Bastos. Uma grande obra, sem dúvida”, analisa.

Mais do que analisar as composições e falar da trajetória do disco, o livro traz histórias que vão além das músicas. Uma delas é a primeira parceria de Milton Nascimento e Márcio Borges. Surgida logo após as sessões de Jules et Jim, foi batizada de A paz do amor que vem e só seria lançada em disco 30 anos depois no disco Angelus (1994), rebatizada de Novena. Há também o registro da reportagem do Estado de Minas que descobriu quem eram os verdadeiros “meninos” da icônica capa, Cacau e Tonho – que todos julgavam se tratar de Milton e Lô.

O processo de pesquisa, leituras, escritas e revisões levou cerca de dois anos e foi também uma volta às origens para o jornalista e antropólogo. Nascido em 1959 em Belo Horizonte, Paulo Thiago Mello se mudou para o Rio de Janeiro pouco antes de completar um mês e retornou à Minas em raras ocasiões. “De certo modo, é um caminho inversamente paralelo ao do Milton, que nasceu no Rio e se mudou para Três Pontas (MG) ainda bem pequeno. Mesmo tendo ido tão poucas vezes ao meu estado natal, Minas Gerais, no entanto, permaneceu como um lugar que me constitui, afirma, acrescentando que carrega uma timidez e uma reserva que considera bem mineiras. “Tenho aquela coisa tão típica do mineiro que faz uma volta grande para contar uma coisa simples. Quando mergulhei de cabeça no projeto, mergulhei na minha própria história também”, reflete.

Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina será lançado no Rio de Janeiro, em 5 de junho, e deve ter lançamento também em Belo Horizonte e São Paulo.


MILTON NASCIMENTO E LÔ BORGES – CLUBE DA ESQUINA
. De Paulo Thiago de Mello
. Cobogó
. 128 páginas
. R$ 40

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