Morto aos 88 anos, Tom Wolfe trouxe a realidade para a ficção

Um dos pais do novo jornalismo, autor de 'A fogueira das vaidades' acreditava que as boas histórias são extraídas do real

por Pablo Pires Fernandes 16/05/2018 08:55
AFP
Em seus trajes de dândi, ele foi um influente autor que se inspirava no realismo do francês Émile Zola. (foto: AFP)

Autor que descreveu com detalhes aspectos singulares da cultura e da vida norte-americanas, o escritor e jornalista Tom Wolfe morreu na segunda-feira (14), aos 88 anos, em Nova York. Considerado um dos pais do “novo jornalismo” – ao lado de Gay Telese, Truman Capote e Norman Mailer –, corrente criada na década de 1960, que utiliza técnicas literárias para artigos jornalísticos e responsável por inovar tanto os textos da imprensa escrita como o próprio romance, Wolfe trouxe a realidade para a ficção, criando uma mistura saborosa e com grande influência em ambos os meios.

O agente do escritor, Lynn Nesbit,  informou que ele estava internado com uma infecção no New York City Hospital. “Ficamos profundamente tristes ao saber da morte de Tom Wolfe. Ele foi um dos grandes nomes e suas palavras viverão para sempre”, informou em nota a editora Picador, da MacmillanPublishers.

Nascido em Richmond (estado da Virginia), estudou em ótimas escolas e se mudou para Nova York (onde viveu por toda a vida), desde que começou a trabalhar no The New York Herald Tribune, em 1962. Nesse período, escreveu inúmeros artigos e ensaios para revistas como New Yorker, Esquire e Harper’s, brilhando pela sua criatividade para descrever a cultura pop e o narcisismo da sociedade americana. Em 1965, Wolfe estreou com o livro The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby, uma coletânea de artigos e ensaios publicados com sua típica escrita experimental, em que usava grafia em itálico, palavras estranhas e muitos sinais de pontuação para dar ritmo e conferir maior dramaticidade à narrativa. O livro tornou-se um clássico da literatura de não-ficção, mas nunca foi traduzido no Brasil.

Sempre em trajes impecáveis, parecia um dândi ao caminhar pelas ruas de Nova York, com seus ternos claros, lenço à mostra no bolso do paletó, gravata de seda e, frequentemente, chapéu, numa mescla de cavalheiro dos velhos tempos e um incentivador das novas gerações. Admirador do romancista francês Émile Zola e de autores do naturalismo, Wolfe era um americano pouco ortodoxo que insistia em que o único jeito de contar uma grande história era sair à rua e reportá-la.

LSD Lançado em 1968, O teste do ácido do refresco elétrico (Rocco, 1993, fora de catálogo) conta a história do escritor Ken Kesey, autor de Um estranho no ninho, que participou do grupo submetido a experimentos com LSD na Universidade da Califórnia no início dos anos 1960. O grupo inicial, que incluía Timothy Leary, se dispersou, mas outro se formou em torno de Kesey, então um foragido da Justiça que se refugiou num bosque e vivia a experiência psicodélica ao extremo. Escrito no calor do momento, mostra a dificuldade do grupo em se adaptar à vida cotidiana e retrata com condescendente ironia as loucuras da turma e a viagem da Califórnia a Nova York numa jardineira multicolorida e seus alucinados passageiros, que tinha como motorista Neil Cassidy, o Dean Moriarty de On the road.

Em Radical Chic e o novo jornalismo (Companhia das Letras), Emboscada no Forte Bragg (Rocco) e Os eleitos, o escritor faz grandes reportagens sobre o universo liberal americano, os limites do jornalismo e da verdade e sobre a corrida espacial americana, sempre questionando os limites de ficção e não ficção. Os eleitos se tornou um filme dirigido por Philip Kaufman e estrelado por Sam Shepard e Dennis Quaid.

Wolfe ironizava a relutância dos escritores americanos em enfrentar problemas sociais e alertou que a auto-absorção e os programas de mestrado em escrita iriam matar o romance. “Assim as portas se fecham e os muros sobem”, escreveu no seu manifesto literário de 1989, Stalking the billion-footed beast. Ele ficava chocado com o fato de nenhum autor de sua geração haver escrito um romance abrangente no estilo do século 19 sobre a cidade de Nova York, e acabou escrevendo um ele mesmo, A fogueira das vaidades, seu famoso primeiro romance. O livro é uma sátira sobre os excessos dos anos 1980 em que o protagonista, um ganancioso banqueiro de Wall Street, atropela com seu carro um afro-americano do Bronx e foge, foi publicado pela primeira vez em capítulos pela revista Rolling Stone. A obra virou filme dirigido por Brian De Palma, lançado em 1990.

Os interesses de Wolfe eram amplos, mas suas narrativas tinham um tema comum. Seja descrevendo o mundo da arte em Nova York ou passando tempo com usuários de ácido, Wolfe apresentava o homem como um animal em busca de status, preocupado sobretudo com a opinião dos seus pares.“Minha questão é que status está na cabeça de todo mundo o tempo inteiro, sejam eles conscientes disso ou não”, disse Wolfe, que vivia num apartamento de 12 cômodos no Upper East Side de Manhattan, em 2012.

Em 1978, Wolfe casou-se com Sheila Berger, diretora de arte da Harper’s, com quem teve dois filhos, Alexandra e Tommy. Ele venceu grandes honrarias literárias e comerciais, como o American Book Award (agora chamado National Book Award), e diversos de seus livros estiveram na lista de mais vendidos desde os anos 1970.

 

Seu trabalho rompeu várias regras, mas era baseado no jornalismo velha guarda, numa atenção obsessiva ao detalhe que durou décadas. “Nada alimenta mais a imaginação do que os fatos reais”, Wolfe disse, em 1999. “Como diz o ditado, ‘isso aí não dá para inventar’.” (Com agências) 

 

NÃO FICÇÃO 

 

 

The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby (1965)

O teste do ácido do refresco elétrico (1968)
The Pump House Gang (1968)

Radical Chic e o novo jornalismo (1970)
A palavra pintada (1975)
Os eleitos – Onde o futuro começa (1979)
Da Bauhaus ao nosso caos (1981)
The purple decades (1982)
Emboscada no Forte Bragg (1998)
Ficar ou não ficar (2001)
O reino da fala (2017)

FICÇÃO

 

A fogueira das vaidades (1987)
Um homem por inteiro (1998)
Eu sou Charlotte Simons (2004)
Sangue nas veias (2012)

CATÁLOGO


A obra de Tom Wolfe no Brasil é editada principalmente pela Rocco, mas vários de seus livros estão fora de catálogo ou sequer foram traduzidos. Em catálogo, a Rocco tem O reino da fala, polêmico ensaio sobre evolução e linguística lançado em 2017; os romances Sangue nas veias, Eu sou Charlotte Simmons e Um homem por inteiro; a coletânea Ficar ou não ficar, uma mistura de reportagem, ficção e ensaio sobre temas variados; e A palavra pintada, em que discorre sobre a arte moderna e contemporânea. O romance mais importante de Wolfe, A fogueira das vaidades, está fora de catálogo, assim como Os eleitos – Onde o futuro começa, O teste do ácido do refresco elétrico e Da Bauhaus ao nosso caos, todos da Rocco. Seu primeiro livro, The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby, com ensaios escritos para a revista Esquire, nunca foi traduzido no país. Radical Chic e o novo jornalismo, que reúne os principais artigos e textos publicados pelo escritor nas décadas de 1960, editado pela Companhia das letras, também está fora de catálogo.

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