Ensaio que registra o cotidiano do Aglomerado da Serra é restaurado e ganha visibilidade

Trabalho de Afonso Pimenta da década de 1980 é publicado pela revista semestral de fotografia Zum

por Márcia Maria Cruz 12/05/2018 12:30

Afonso Pimenta/Divulgação
Com bolo, refrigerante e amigos, Renata comemora seu aniversário em 1986 (foto: Afonso Pimenta/Divulgação)
Parte da memória de Belo Horizonte estava bem escondida numa casa na Vila Cafezal, uma das comunidades que compõem o Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul. O tesouro estava guardado não em baú, mas num saco de plástico azul: são 70 monóculos com fotos de valor histórico e estético. Os registros, feitos desde o início da comunidade, incluem festas, encontros dos moradores e inúmeras cenas do cotidiano.

A guardiã do tesouro, Dona Ana Martins, revelou o segredo, em 2015, ao artista visual e pesquisador Guilherme Cunha, que chegara até ela em busca de histórias para a produção de livro de memória sobre o Aglomerado. “Uma fenda da história se abriu. Uma parte da história de BH estava ali naqueles monóculos”, lembra ele.

Com o achado, nasceu o Retratistas do Morro, projeto de resgate da memória visual das comunidades. Guilherme não tinha dúvidas da riqueza do material, mas era necessário lapidá-lo. Muitas imagens estavam deterioradas pelos efeitos da passagem do tempo. O primeiro passo foi identificar os fotógrafos que se dedicaram a retratar o dia a dia dos habitantes do Aglomerado. Os negativos foram restaurados e digitalizados.

As imagens dessa comunidade feitas pelo fotógrafo Afonso Pimenta, de 63 anos, são a aposta da edição número 14 da revista de fotografia Zum, publicação do Instituto Moreira Salles. A capa traz a imagem de uma noiva (“A primeira esposa do Paulinho”) no meio de um beco de terra batida na Vila Marçola. De branco e com buquê nas mãos, ela é observada por crianças escoradas em tábuas que formam cercas e dentro de casas de tijolos expostos. A cena é de 1987.

Naquela década, Afonso registrou a vida da comunidade. Nos retratos de homens e mulheres, há flagras de troca de afeto entre casais, festa de aniversários, encontros de amigos no armazém onde se vendia de tudo um pouco, aniversários, batizados e casamentos. “Comecei a fotografar em 1968, mas a expansão foi em 1983, depois que cheguei de viagem. Fui para vários países participar de torneios de Kung Fu e Karatê Shotokan”, conta.

Cerca de 800 fotos de Afonso foram restauradas e incluídas no acervo, que viajou pelo interior de São Paulo e foi em parte exibido no Memorial Minas Vale, no Circuito Cultural Liberdade, entre 5 de agosto e 31 de dezembro do ano passado.

Afonso não mora mais no Aglomerado, mas continua fotografando por lá. “Ainda aparece muito serviço, graças a Deus. Espero que clientes não me aposentem tão cedo”, diz. O fotógrafo nasceu em distrito de São Pedro do Suaçuí, no Vale do Rio Doce, e veio para Belo Horizonte em 1963, quando foi morar com a madrinha, Maria Ribeiro, no Aglomerado da Serra. A primeira foto foi feita cinco anos depois, com câmera emprestada de amigos. “Quando fazia o ginásio, num curso noturno, tentei comprar uma máquina Instamatic 11, mas o rapaz não queria vender.”

A primeira câmera que adquiriu foi uma Olympus Pen, comprada por “3 mil reis”. Mas até Afonso se tornar retratista da comunidade levou um tempo. Entrou como assistente no estúdio de fotografia de João Mendes, localizado na rua Corinto, no Bairro Serra, quando trabalhava como gari. Deu um tempo no sonho. Viajou para outros estados e até outros países. Quando voltou, retomou o trabalho com João, que foi seu “professor”. Era encarregado de lavar as fotos reveladas. Na época, todo o processo era analógico. “Via fotografia como mistério; captar imagem pela sombra por uma película.”

A imagem escolhida para ser a capa da revista Zum foi um ensaio de casamento, planejado e produzido por Afonso. “Depois que a moça se casou, ela pediu para que eu fosse fazer as fotos na casa dela. Quando cheguei, não tinha como fazer. A casa era muito pequena. Tinha uma lente 4 milímetros, muito limitada. Até bati algumas em casa. Mas ela queria tirar foto de corpo todo para mandar para os parentes”, lembra.

Afonso propôs que fizesse o ensaio na região do Parque das Mangabeiras, mas a moça não quis, com medo de as meninas a criticarem. “Ela me disse: ‘As cocotas estão aí; vão me pejorar’. Então, falei: Vamos tirar aqui mesmo. Vou fazer ótimo trabalho para você”. E assim foram feitas quatro fotos. “Ela estava muito bonita e aceitou. Estava cheio de coisa, até cachorro tinha lá fora”, conta. Afonso começou a usar as câmeras digitais em 2010.

Zum # 14
>> Revista semestral de fotografia
>> Editora: Instituto Moreira Salles
(184 págs.)
>> Preço sugerido: R$ 57,50

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