Filósofo Franklin Leopoldo traz a BH a conferência 'O eclipse da política'

Estudioso discute a perda da noção de alteridade e a indiferença aos processos democráticos

por Márcia Maria Cruz 09/05/2018 08:47
Hermano Taruma/Divulgação
O filósofo Franklin Leopoldo. (foto: Hermano Taruma/Divulgação)

O ciclo Mutações – A outra margem da política terá como conferencista Franklin Leopoldo e Silva, professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (USP). Um dos instigantes pensadores brasileiros, o filósofo analisa o momento contemporâneo a partir do individualismo e seus efeitos sobre a política, que deixa de ser entendida como construção do bem comum e passa ser campo do pragmatismo. O professor aponta o apolitismo como desafio para que o Brasil alcance uma democracia substantiva e não apenas formal. Na conferência “O eclipse da política”, Franklin dialoga com o filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) e o filósofo francês Cornelius Castoriadis (1922-1997). “A modernidade provocou confinamento. Cada um confinado a si próprio. Daí a dificuldade de conviver, formar comunidades. Você não vê o outro como ele é. Vê o outro como você acha que ele é. O outro é projeção do eu. Não tem autonomia e independência como pessoa”, argumenta.

O senhor define o apolitismo contemporâneo como “projeto de despolitização elaborado pelas elites na tentativa de tornar as pessoas indiferentes à política”. O senhor se refere à realidade brasileira ou mundial?
É alguma coisa que se repete em vários países. O que se percebe tanto no Brasil, nos Estados Unidos quanto nos países europeus é que a política se tornou supérflua. Então, não se precisa mais da política para exercer o poder. Isso parte do avanço do neoliberalismo cuja essência é o individualismo. O avanço desse individualismo, na história do liberalismo, fez com que as pessoas ficassem, cada vez mais, isoladas e separadas. A prerrogativa do indivíduo evoluiu para o individualismo. Do ponto de vista ético, para certo egoísmo, suspeita e medo dos outros. Você observa isso no problema das migrações e mesmo nas relações entre as classes aqui no Brasil.

Na sociedade brasileira, como essa exacerbação do individualismo se manifesta?
Manifesta-se, principalmente, numa regra essencial ao capitalismo que é a competição. Desde a infância e juventude, nos regimes escolares e, depois, no mundo do trabalho, observa-se a importância da competição. O que significa que a outra pessoa é um obstáculo para você. Então, você não pode ter convivência comunitária e democrática com os outros. Essas diferenças reproduzem desigualdade e injustiça. Isso gera violência e medo.

O sentimento do apolitismo ganhou face pública nas manifestações de 2013. É um processo desencadeado naquele ano ou é anterior?
É algo anterior. Embora esse desinteresse pela política não fosse tão manifesto quanto é hoje, as pessoas já sabiam que vivíamos numa espécie de democracia formal. Em que a eleição é um mecanismo formal para repor as elites no poder e que, realmente, não há grande possibilidade de transformação. Qualquer tipo de reforma política tende a estender a que está no poder hoje. Então, nunca pode ser algo muito diferente. A intuição disso faz com que as pessoas fiquem desinteressadas da política, pensando que não há como mudar o que é importante.

O senhor diz que é anterior a 2013, podemos pontuar um marco para o início desse descrédito na política?
Pontuar, talvez não. Mas episódios importantes podem ser marcados. Primeiro lugar, o longo período da ditadura, que desacostumou as pessoas de se interessar pela política. Depois, com a redemocratização, verificou-se que ela não atendia interesses democráticos, atendia aqueles que estavam promovendo a redemocratização impondo os interesses políticos próprios. Isso gerou certa desesperança, uma falta de expectativa. As pessoas passam a votar por motivos muito particulares e corporativos. A comunidade política – o bem comum como se diz – não entra nunca em conta. As pessoas fazem cálculo do que é menos pior. O que é puro pragmatismo.

Quando o senhor usa o termo eclipse está denunciando esse afastamento das pessoas da vida democrática?
Sim. Na verdade estou colocando uma pergunta, uma dúvida. A palavra eclipse significa que você tem momento de escuridão, mas depois a luz vai voltar. Então, coloco em minha conferência um quê de esperança. Pode ser que as coisas voltem, que haja uma realidade política mais efetiva em que as pessoas voltem a ter consciência de que a vida em comunidade é o importante. Mas também pode ser que isso tenha desaparecido de maneira irreversível. Só o futuro nos dirá.

O senhor tem algum indício, algo que aponte se desapareceu ou se podemos ter esperança?

Pessoalmente, considero que o mais provável é que a política tenha desaparecido do horizonte das pessoas. As novas gerações vão adentrar no mundo sem considerar que a política é uma dimensão importante.

Mas isso é muito ruim, professor!
É terrível. A política não é só uma questão de procedimento, de você votar e discutir. A política está no cerne da convivência humana. A comunidade humana é política. O ser humano é político. A ausência disso deforma muito o perfil das pessoas.

Nos protestos de 2013, alguns segmentos foram para as ruas a partir da ideia de constituição do comum, pensando a ocupação do espaço público, novas formas de estar nas cidades. O senhor vê essas mobilizações como retomada da ideia de comunidade como política?
Seria um caminho se fosse algo mais firme e com bases mais sólidas. Mas é uma coisa intermitente. Como é reação espontânea, ela não tem conteúdo político, uma base política bem sólida.

Quando o senhor olha para a política no Brasil, percebe algo diferente além do individualismo e apolitismo?
Esses exemplos que você citou mostram que as pessoas estão tomando consciência do problema. Esse é o primeiro passo: tomar consciência da crise e, a partir daí, verificar a possibilidade de superação e de transformar essa situação. Mas isso é muito difícil, o controle da mídia, o controle que é exercido sobre as pessoas fazem com que o neoliberalismo e capitalismo estejam introjetados. O nosso problema é esse. O apolitismo não é atitude exterior às pessoas. É alguma coisa que elas vivem. Então, é muito difícil superar.

Esse processo de individuação, que pode levar ao individualismo, também pode ser uma forma de retomada das subjetividades?
Sim. Essa subjetividade, que fez com o indivíduo voltasse para si mesmo e tomasse consciência de si, ela também é imposta pelo exterior, pela propaganda, pelo governo. O indivíduo é levado a calcular ao benefício que ele pode tirar disso no mundo do trabalho, na convivência e assim por diante. A subjetividade, no sentido mais profundo da palavra, não é realmente exercida. As pessoas vivem num mundo superficial e têm subjetividade também superficial. Portanto, os problemas aparecem de todos os pontos de vista: políticos, psicológicos e sociais.

O senhor parte da discussão que Bauman faz sobre a modernidade líquida?
O livro que utilizo é anterior à série da modernidade líquida, mas ele já fala disso. O tema do Bauman é sempre a dissolução. A sociedade está em dissolução, os valores, a ética, a política. As coisas vão ficando rarefeitas. O indivíduo não precisa mais das coisas. No final das contas, ele não precisa nem dele mesmo, nem da sua subjetividade. A política sendo supérflua acaba levando também o sujeito político a ser supérfluo.

Quando a gente olha para o sistema político é possível ver o reflexo dessa dissolução de valores?
A forma de fazer política gerou o político profissional. Esse sujeito que não tem nenhuma ideia de sua representatividade e da sua função. O que tem para orientá-lo são os contravalores: a ambição, o orgulho, a corrupção, o enriquecimento. A força desses fatores materiais na contemporaneidade faz com que o indivíduo substitua o que deveriam ser os valores por esses critérios. Aí, não tem mais a ver com comunidade. Tem a ver com seus grupos e seus fins.

O Castoriadis trabalha com a ideia de auto-instituição do indivíduo. O senhor parte desse ponto?
A tese principal dele que tanto o indivíduo como sociedade deve se auto-instituírem. A auto-instituição do indivíduo e sociedade é a única maneira de exercer liberdade real. Se você é constituído pelo sistema você exerce liberdade nos limites que são postos. Liberdade completa partir do sujeito e da sociedade. Sempre recriada e em tensão.

CICLO DE CONFERÊNCIAS MUTAÇÕES – A OUTRA MARGEM DA POLÍTICA
Eclipse da política, com o filósofo Franklin Leopoldo e Silva. Hoje, às 19h. Auditório do BDMG Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes, (31) 3219-8691). R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Inscrições www.appa.art.br.

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