Marcelo Rubens Paiva retorna à ficção com romance que analisa os homens

'O orangotango marxista' apresenta um narrador símio que aprende a ler em laboratório, estuda filosofia e fica perplexo com a falta de erudição e o isolamento da humanidade

por Nahima Maciel 02/05/2018 09:28

Walter Craveiro/Divulgação
Marcelo Rubens Paiva retorna à ficção após dois livros autobiográficos. (foto: Walter Craveiro/Divulgação)

O zoológico de Americana (SP) conta com cerca de 400 animais espalhados por uma área de 120 mil metros quadrados. Localizado bem em frente à casa do sogro do escritor Marcelo Rubens Paiva, sempre atraiu a atenção do autor do consagrado livro Feliz ano velho, ao ponto de ter se tornado um dos programas preferidos quando visita a cidade.

Na falta de cinema e livraria, Marcelo vai dar uma olhada nos bichos. No espaço dedicado aos macacos, há um lago com algumas ilhotas. Aquela cena um tanto patética de homens observando os símios e os símios observando os homens chamou sua atenção. Foi quase natural, portanto, o escritor imaginar o narrador de O orangotango marxista, que chega às livrarias pela Alfaguara.

Com um protagonista pouco ortodoxo e narrado em primeira pessoa, o novo romance tem inspirações que vão de Franz Kafka e sua barata de A metamorfose a Ian McEwan e seu feto em Enclausurado e é um retorno à ficção depois de dois livros autobiográficos lançados em 2015 e 2016. Marcelo é um estudante de filosofia autodidata, e o olhar de seu narrador vem carregado de perspectiva filosófica, que não chega a ser superficial, mas também não mergulha profundamente em conceitos complicados. “Filosofia te abre caminhos, não te leva a nenhum oásis ou epifania”, constata o personagem.

Karl Marx é o mais citado pelo orangotango, que aprende a ler em laboratório, mas não conta para ninguém, estratégia para evitar o assédio que a revelação certamente causaria. O filósofo Immanuel Kant ajuda o animal a compreender coisas como deveres, individualismo, altruísmo e vaidade. Com Hegel, ele descobre que as ideias se movem e se contradizem, que o presente é feito de contradições passadas, logo, a história é previsível.

Acostumado a roubar celulares, livros e revistas das mochilas dos estudantes, bonés e outras coisinhas eventualmente ao alcance, ele passa a filosofar sobre seu próprio valor em relação ao primo homem, que chama de “macacos nus”. Em um trecho, dá conselhos ao apontar que a humanidade está engordando e se isolando graças à tecnologia. Às vezes, entra em crise de identidade e sofre por ser desprezado como uma espécie inferior. Também tem momentos sentimentais em que acredita que “a humanidade tem jeito”.

Marcelo Rubens Paiva arranca boas risadas do leitor, mas também provoca um sentimento de banalidade, de lamento, como se as escolhas da sociedade contemporânea fossem cheias de equívocos.

O orangotango aprende tudo lendo a coleção Os pensadores, disponível no laboratório, e começa a observar, de sua ilhota destinada aos símios do zoológico, o comportamento humano. O romance não é, portanto, sobre esse personagem, e sim sobre a humanidade.

 

Há algo tão patético quanto trágico na maneira como o animal compreende as escolhas humanas e regurgita suas conclusões. Eventualmente, sentencia algumas verdades. Ao ver todos dependurados no celular, constata que os homens são atrações para si mesmos.

O desdém pelo comportamento da espécie irmã vai desfilando com muito humor, como se o autor, na pele do orangotango, zombasse da própria espécie. “O livro é uma ironia, uma grande brincadeira, uma grande farsa em relação à humanidade. Adoro a vida, adoro a humanidade, e acho que melhorou muito em relação a algumas coisas, principalmente em relação aos direitos individuais, às questões de gênero. Mas fico meio assustado com a natureza sendo eliminada”, afirma Marcelo.

 

 

O orangotango marxista
. Autor: Marcelo Rubens Paiva
. Editora: Alfaguara (152 págs)
. Preço sugerido: R$ 39,90

Cinco perguntas para...

Marcelo Rubens Paiva
escritor


O romance não é sobre os macacos, mas sobre os homens. Tem uma vontade aí de fazer uma crítica?

Sim. O que acontece é que o macaco descobre que as pessoas estão tão enjauladas quanto ele. Enjauladas e presas em seus mundos virtuais. Ele descobre como a humanidade se afastou da natureza. Tanto que tem que criar um zoológico para as pessoas verem o que é um animal. Há uma ignorância do homem atual em relação à vida selvagem que é enorme. Ignorância de quem só vê galinha no zoológico. Queria mostrar esse homem preso também.

E que impacto isso tem na sociedade?

As pessoas se isolam. É incrível, porque elas acham que têm redes sociais, mas a verdade é que são redes antissociais. Elas ficam presas dentro de casa achando que estão vivendo magneticamente através das redes sociais, mas elas estão sozinhas, deixando de viver, de andar na floresta, na mata, de andar a cavalo. São coisas que estão ao nosso redor, especialmente num lugar chamado Brasil, um território vasto e agrícola. E o macaco percebe isso. Ele começa a fugir do zoológico e a perceber que as pessoas estão tão presas quanto ele.

Em certo trecho, o personagem faz uma análise crítica da leitura dos estudantes, dos quais rouba livros. Ele fala em superficialidade e amadorismo que não levam à reflexão. É uma crítica à maneira como os jovens são educados no Brasil?

É um pouco isso, sim, sobre a pobreza literária, mas também sobre a pobreza didática da literatura de escola, que não ensina filosofia de um jeito profundo, e sim de um jeito superficial. Quando sai do laboratório, que tinha uma bibliografia vasta de filósofos, e começa a roubar livros dos frequentadores do zoológico, ele entra em choque com a diferença entre o que lia e o que está sendo lido pelas pessoas.

Seu personagem se preocupa com a extinção das espécies. Estamos todos ameaçados de extinção?

Sempre achei que era uma trajetória normal parte da humanidade procurar autodefesa, mas o mundo escapuliu do trilho depois da Revolução Industrial e está descontrolado. Você vê cidades com populações de 10 milhões, 20 milhões de pessoas. Evidentemente que não cabe tudo isso. Matematicamente, é impossível alimentar tanta gente no mundo. Não temos recurso para isso. E o meteoro um dia vai cair. Com o aquecimento global, as geleiras vão derreter. E tem várias teorias, tem a teoria de mudança de eixo magnético na Terra, da mudança das correntes de calor, dos oceanos, da camada de ozônio. Tinha a ameaça nuclear nos anos 1980. O apocalipse sempre é algo que está na mente do homem. E do jeito que a gente lida com a natureza, tudo isso está num processo de degradação que não vai ter volta.

Para que serve a filosofia?

Serve não para resolver questões, mas para fazer questões. Ajuda a perguntar, a entender as relações sociais. Quando o homem foi morar em cidades, começou a criar os problemas sociais. Como lidar com tantos homens juntos? Qual o papel de cada um? Qual o papel e a responsabilidade do Estado? E essa é uma questão muito presente no Brasil, a ausência do Estado. É um país que despreza e maltrata a população. O papel da educação no Brasil, o que o Estado deve ou não oferecer ao cidadão, são questões do dia a dia brasileiro. Como você entende tudo? Através da filosofia. As pessoas ficam achando que Marx está ultrapassado, mas, se você for pensar em luta de classes, no Brasil, ela é completamente presente, né?

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