Exposição em BH convida visitante a ser operário de fábrica de pipas

'Dragão floresta abundante', que entra em cartaz nesta quarta (2), no CCBB, traz obras de Christus Nóbrega desenvolvidas durante residência do artista na China. Objetivo é incentivar a reflexão e propor interação

por Ana Clara Brant 02/05/2018 09:03

Lucas Las Casas/Divulgação
Christus Nóbrega em frente à 'fábrica de pipas' no CCBB-BH (foto: Lucas Las Casas/Divulgação)

Grandes inventos da humanidade surgiram na China. Um deles, a pipa, está presente em Dragão Floresta Abundante. A obra Passeio controlado convida o público para participar de uma fábrica de pipas. A ideia é promover uma aproximação com a milenar tradição do brinquedo, remetendo também às atuais condições do sistema de produção industrial e a desvalorização de trabalhos manuais e métodos artesanais.

Quem for ao CCBB vai ter a oportunidade de ‘trabalhar’ nessa fábrica, com direito a uniforme, cadastro digital, ponto e turnos de trabalho. A curadora Renata Azambuja explica que, a cada 11 pipas que o visitante/operário produzir, ele ganhará uma. “Esse número 11 é simbólico, porque a nova legislação trabalhista brasileira passou a vigorar em 11/11 do ano passado. E quem produzir 1.000 pipas (uma pessoa atingiu a marca em Brasília, onde a mostra ficou em cartaz no início do ano) vai ganhar uma pipa folheada a ouro. É algo único, justamente para que as pessoas possam ter essa experiência fabril, além de pensar e refletir sobre leis do trabalho, o modo de produção contemporâneo”, afirma a curadora. A montagem ainda apresenta centenas de pipas estampadas com fotos de chineses que já exerceram o ofício de produzir o objeto.

Outra fábrica em destaque é a de nuvens. Fotografias apresentam diferentes pontos de vista que Christus Nóbrega tinha da janela do cômodo em que residia em Pequim, encarando a chaminé de uma fábrica que contribuía diretamente com a poluição do ar. “Todos os dias, tirava fotos da chaminé. Esse período em que fiquei lá foi um dos mais poluídos da história da China. Era uma coisa impressionante. A gente não conseguia enxergar um metro à frente. Nas fotos, apaguei as chaminés digitalmente e deixei só a fumaça, que parecia nuvens. Foi uma maneira de poetizar a situação”, explica o artista.

RESIDÊNCIA NA CHINA

 

Radicado há 15 anos em Brasília, o artista plástico paraibano Christus Nóbrega já está acostumado a conviver com os famosos azulejos de Athos Bulcão (1918-2008). Por uma feliz coincidência, os dois se ‘reencontraram’ em Belo Horizonte e dividem a partir desta quarta-feira (2) o espaço do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-BH), na Praça da Liberdade, onde será aberta a mostra de trabalhos de Nóbrega Dragão Floresta Abundante, enquanto a exposição 100 anos de Athos Bulcão permanece em cartaz.

“Nossas obras vão conviver em perfeita harmonia. Há um diálogo entre as duas mostras. É bacana, até porque não houve nenhum planejamento. Coincidiu de estarmos expondo juntos. A ideia da minha exposição, que está espalhada pelo prédio do CCBB, é fazer com que o público viaje pelo hall, pelas salas, pela bilheteria, assim como ocorreu comigo na China. Ela não deixa de ser a história de um deslocamento”, diz o artista.

Dragão Floresta Abundante é resultado de uma residência artística de Christus Nóbrega em Pequim, entre os meses de outubro e dezembro de 2015. Nesse período, ele frequentou a Central Academy of Fine Arts (Cafa),  tendo sido convidado pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). “Essa mostra é a experiência de um artista num lugar estrangeiro e que, para nós, ocidentais, é um país muito fechado, seja por questões políticas ou culturais, ou pelo próprio idioma. Tudo isso afasta a gente da China, apesar de ela estar muito presente no nosso cotidiano por meio do consumo. Christus surge com uma outra questão, um outro olhar. É um artista vendo a China”, afirma a curadora Renata Azambuja.

Os trabalhos que compõem a mostra mesclam fotografia, registros de performances, desenhos feitos por meio de um equipamento GPS, recorte laser e algoritmos, além de obras interativas. Logo na entrada do prédio da Praça da Liberdade, o visitante vai se deparar com uma espécie de Muralha da China. “É um paredão feito de caixas de papelão carimbadas com a inscrição ‘Made in China’, que não deixa de ser uma brincadeira com a questão da muralha, mas fazendo uma alusão a algo perecível, a essa sociedade produtora de consumo que é a chinesa”, afirma Renata.

Christus Nóbrega, que é mestre e doutor em arte contemporânea pela Universidade de Brasília (UnB), revela que, desde menino, seu imaginário é povoado pela China – como um lugar fantástico e misterioso, mas também bem inacessível. “Quando o Itamaraty fez o convite, foi muito emocionante. Não deixa de ser a realização de um sonho infantil. Mesmo tendo estudado um pouco de mandarim, pesquisado sobre a cultura e tradições chinesas, a China é muito mais do que eu imaginava. Realmente me maravilhei e me senti bastante estimulado. Acho que isso acabou se refletindo no meu trabalho.”
Bruna Neiva/Divulgação
Organização da mostra reflete deslocamento do artista pela China. (foto: Bruna Neiva/Divulgação)

DIÁLOGO Um dos motivos da escolha do artista de João Pessoa para fazer a residência foi justamente a aproximação de sua arte com a China. “A curadora do programa de residência, Tiffany Beres, e os organizadores do programa no Itamaraty reconheceram na minha produção diálogos com a arte chinesa e, assim, uma possibilidade de aproximação entre os dois países. Um dos aspectos dessa aproximação foi o uso de papéis recortados, já que a China tem no paper-cutting uma técnica milenar e delicada, utilizada tanto por artesãos como por artistas. Porém, diferentemente de como é feito na China, utilizo como suporte a fotografia, enquanto os chineses usam o papel vermelho”, conta Nóbrega.

Uma das obras que refletem essa ponte entre o brasileiro e a China é Roupa nova do rei, que consiste numa série de autorretratos de Christus recobertos com mantos de papel recortados por artesãs chinesas. Eles  são afixados sobre as imagens com o uso de alfinetes de ouro. “O autorretrato está presente no meu trabalho há algum tempo e também sempre pesquisei sobre o papel e o recorte. O resultado ficou bem interessante.”

O título da exposição se relaciona ao nome que Christus Nóbrega ganhou durante a residência. Dragão Floresta Ambulante é a tradução literal do nome Lóng Pèi Sem, que foi dado a ele por Gloria Lee, estudante de fotografia de Taiwan que o ciceroneou nesses dois meses. “Ela foi a pessoa responsável por me introduzir nos rituais da China e, no dia do meu aniversário, 28 de novembro, que acabei passando lá, Gloria me presenteou com esse nome chinês. O primeiro logograma significa dragão; o segundo, abundante; e o terceiro, floresta. Em uma tradução livre, significa aquele que faz coisas bem-aventuradas e grandiosas. A Renata, curadora, adorou e achou que casava muito bem com a proposta da exposição”, relata.

Outra obra interessante é 89 passos. 89 linhas. Desenhos sobre a paz, que aborda o protesto na Praça da Paz Celestial, em 1989. A icônica cena do jovem desarmado que se dispôs a impedir com o corpo a passagem de uma fileira de tanques de guerra se tornou histórica. “Na China, esse episódio não faz parte do coletivo deles, é algo proibido de comentar. Mas essa obra é um trabalho de performance do Christus. Ele colocou uma câmera no chão, dentro de uma mochila, e através do GPS foi criando 89 passos através de desenhos. A obra traz algumas fotos desse percurso. É a interpretação artística dele sobre o episódio”, diz Renata Azambuja.


Dragão Floresta Abundante

Exposição de obras de Christus Nóbrega produzidas a partir de residência na China. Até 30 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). De quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada Franca

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