Em seu segundo romance, Martha Batalha apresenta história sobre castelo em Ipanema

Depois do sucesso de A vida invisível de Eurídice Gusmão, que será adaptado para o cinema, escritora conta a trajetória dos descendentes do cônsul da Suécia, Johan Edward Jansson, que, no início do século 20, construiu uma casa em forma de castelo para a família viver no Rio

por Pedro Galvão 29/04/2018 11:44
Jorge Luna/Divulgação
"No Brasil, temos o problema da falta de memória. Embora alguns achem esse assunto batido, não podemos nos esquecer de que vários problemas do país se devem à ditadura". Martha Batalha (foto: Jorge Luna/Divulgação)
Quando Martha Batalha, pernambucana radicada nos EUA, escreveu seu primeiro livro, as editoras brasileiras não se interessaram. Publicado em 2016, A vida invisível de Eurídice Gusmão conquistou o mercado estrangeiro, com ótima repercussão entre os críticos, despertou o interesse de produtores em adaptá-lo para o cinema. Depois disso, o país se rendeu ao talento da escritora, que lança agora seu segundo romance pela Companhia das Letras, Nunca houve um castelo.

O livro conta a trajetória dos descendentes do cônsul da Suécia, Johan Edward Jansson, que, no início do século 20, construiu uma casa em forma de castelo para a família viver na então despovoada Ipanema. A trama é fruto de extensa pesquisa sobre o bairro carioca, símbolo cultural do Brasil, fonte de inspiração de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outras mentes criativas do país.

“Uma das muitas coisas que aprendi foi sobre esse castelo, tão icônico. Mesmo demolido, a praia em frente ficou conhecida como Ponto do Castelo. Também havia o Bar Castelo, fascinante. O cônsul veio ao Brasil por causa dos problemas de saúde da mulher. Achei tudo isso incrível para recriar o universo do livro”, explica Martha, que mora na Califórnia com a família.

Miséria 

A narrativa começa com a saída do casal de Estocolmo para morar no Rio de Janeiro, capital ainda provinciana da jovem República brasileira. Martha descreve como a escravidão, já abolida, ainda se fazia presente na cidade, cenário da miséria da população negra. A falta de infraestrutura e saneamento também é parte da paisagem carioca. O choque de deixar um país nórdico rumo ao calor tropical do Brasil, sentido especialmente por Brigitta, esposa do cônsul, logo é superado. Eles se estabelecem à beira-mar, na emblemática construção erguida onde hoje se encontram prédios luxuosos.

A saga da família é narrada por seguidas gerações. A trama se dá em duas partes – antes e depois de 1968. Na segunda etapa, os protagonistas são Otávio, neto do casal sueco, e a mulher, Estela. Detalhes da construção política e social do Brasil vão permeando o texto, mas só como pano de fundo, ressalta Martha. “Existem pinceladas no texto falando de construções demolidas, um pouco do descaso com o passado, de construções que ninguém pensa em preservar. Elas são demolidas e ninguém liga. A personagem Estela nota as primeiras casas subindo o Morro do Cantagalo, por exemplo. Mas são pinceladas”, explica.

Temas urgentes e muitas vezes espinhosos da contemporaneidade – direitos das mulheres, luta de classes e preconceito social – também estão presentes no livro. “Um romance nunca pode ser didático ou panfletário. Trato disso com humor e de forma muito sutil, como se estivesse descrevendo a dinâmica das famílias de classe média, a relação do patrão com a empregada doméstica, dos funcionários da obra. Porém, não é simplesmente a relação explorada/exploradora, há muitas outras vertentes e particularidades”, observa a escritora.

“Não temos só a patroa megera, tanto que a história mostra a empregada que protege a patroa, aprende com ela. Sempre toco nessa questão, mas de forma sutil e irônica. São temas presentes, pois é impossível descrever uma família de classe média sem falar de violência e divisão de classes”, argumenta Martha Batalha.

COMPANHIA DAS LETRAS/REPRODUÇÃO
(foto: COMPANHIA DAS LETRAS/REPRODUÇÃO)
Ditadura 

Como não poderia deixar de ser, o enredo, que coincide com o período da ditadura militar, aborda a repressão política. “No Brasil, temos o problema da falta de memória. Embora alguns achem esse assunto batido, não podemos nos esquecer de que vários problemas do país se devem à ditadura. O brasileiro teve que aprender a votar no fim dos anos 1980, pois o golpe de 1964, por meio da repressão, fez as pessoas aprenderem a se calar. Tenho cenas fortes no livro, mas não gosto da violência pela violência. Tento não entrar muito por aí, mas é preciso não esquecer e saber que muitos problemas que temos hoje é porque não exercemos a nossa democracia. ”

O arco dramático, que se desenvolve por mais de 70 anos, apresenta vários personagens. Alguns deles reais, como Laura Alvim, que dá nome a um centro cultural instalado onde ficava o castelo de Ipanema. Gal Costa, Caetano Veloso e o apresentador Clodovil também aparecem na história. Com seu livro anterior já encaminhado para virar filme, com roteiro de Rodrigo Teixeira e Karim Aïnouz, Martha não descarta a possibilidade de Nunca houve um castelo ser adaptado para as telas do cinema e da TV. “Nunca pensamos em escrever um livro para vender para a TV ou o cinema, mas sei que o castelinho é uma coisa muito visual e pode ser que se realize.”


NUNCA HOUVE UM CASTELO

. De Martha Batalha
. Companhia das Letras
. 248 páginas
. R$ 44,90 (livro) e R$ 30,90 (e-book)

Trecho

“Havia também o resto não chamuscado pelo golpe militar, e que nem por isso parecia simples. A pílula e a minissaia, Beatles e Rolling Stones, os prédios desarvorados que cresciam em Ipanema, fazendo todo mundo se perguntar onde é que ia caber tanta gente, e na falta de resposta as pessoas continuavam cabendo. O homem na Luz, o LSD, as músicas do festival da canção. Tanta coisa que era melhor dizer: “Vem cá, meu bem, deita comigo na rede, deixa o resto pra lá”.

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