Mitologia e crise brasileira são temas de exposição de Leo Brizola

Artista plástico volta à técnica do óleo sobre tela e expõe sua recente produção, em que aborda temas contemporâneos inspirado por pintores holandeses do século 17

por Walter Felix 25/04/2018 08:45
Tina Carvalhães/Divulgação
Os holandeses Vermeer e Jan Steen são referência para Brizola (foto: Tina Carvalhães/Divulgação)

O artista plástico Leo Brizola cria em suas pinturas um contraponto entre estéticas do passado e abordagens do presente. Retomando a técnica de óleo sobre tela, que havia abandonado logo após o início de sua carreira, na década de 1980, ele expõe sua recente produção na Errol Flynn Galeria de Arte, em mostra aberta à visitação a partir desta quarta (25) . As obras permanecem no local até 12 de maio.

“Há cerca de seis anos, eu estava com uma turma de ateliê coletivo e uma das alunas trabalhava com óleo. Senti uma nostalgia com aquele cheiro da tinta... Retomei essa técnica ao acaso, quando bateu saudade”, diz o artista.

Na série de pinturas que compõem a mostra, Leo apresenta diversas dicotomias, a exemplo do real associado com frequência ao irreal e ao fantástico. “Coloco nas telas o real que não é o imediato, objetivo ou fotográfico. Só é real porque você percebe uma figura representável, reconhecível. Nisso, gosto de misturar a fantasia. É minha maneira de falar da realidade cotidiana sem ser óbvio”, afirma.

O artista aborda questões contemporâneas com estética inspirada em pintores holandeses do século 17. Ele revela forte influência dos trabalhos de Vermeer e Jan Steen. “Eles pertenciam a um grupo que não estava pintando para a Igreja, ou para o Estado, ou para qualquer poder estabelecido. Representavam o interior das casas e de outros ambientes, algo que me fascinou logo que conheci”, conta Leo. “Falo do hoje, mas sem deixar específica a data. Trato da situação política e sexual do momento, a exemplo das discussões de gênero e do papel feminino, mas sempre de forma poética, sem ir direto ao fatos.”

MITOLOGIA As pinturas de Leo Brizola exibem fortes traços mitológicos de diferentes culturas. O artista diz que se trata de um repertório prático, possível de ser utilizado para as mais diversas abordagens. “O mito, de uma forma geral, trata do imutável. Toda mitologia é arquetípica, funciona tanto há 3 mil anos quanto hoje, porque fala do ser humano. Isso restringe um pouco o alcance da pintura, porque pouca gente tem conhecimento mitológico. Mas você também pode ler as obras à sua maneira, não necessariamente é preciso ter esse conhecimento prévio”, argumenta.

O mito grego de Diana e Acteón instiga Leo há pelo menos 20 anos e tem forte impacto em seu fazer artístico. Em síntese, conta a história de um caçador que encontra uma deusa tomando banho e, por ter a ousadia de vê-la nua, é transformado por ela em um animal que acaba morto pelos cães que o acompanhavam.

“É um mito que me fascina pela atualidade. Fala do ser humano que encara a divindade sem qualquer receio, algo que me assusta. É o que a gente faz quando brinca com a genética, cria um clone ou uma comida transgênica. Você está brincando com o divino sem saber qual será a consequência, mas os resultados sempre vêm depois”, opina.

Sentimentos como agonia, ansiedade e desassossego se manifestam de forma recorrente na obra de Leo Brizola. Em uma de suas pinturas, o artista substitui a figura humana pela de um alien – o monstro alienígena do filme de Ridley Scott. “Meu trabalho é como uma cortina que se abre e revela as variações de uma história. Quem assistiu ao filme sabe que o alien é um bicho indestrutível. Traço um paralelo com o ser humano, que vem resistindo por tanto tempo ao lixo e à poluição, por exemplo”, afirma.

Ele afirma que, aliado ao caráter fantasioso de sua arte, há nela um compromisso político e de observação do mundo ao seu redor. O que Leo cria pode, por vezes, causar estranheza, já que o artista imprime nas telas as mazelas e o caos que enxerga no país e no mundo.

“Os tempos não estão fáceis. Nos últimos anos, vimos uma presidente, eleita pela maioria, ser deposta; e um ex-presidente sendo preso, contra o anseio de um mundo de gente. O que faço é imprimir um pouco desse sentimento de angústia, mas de forma bela. É como o Brasil: esse mar de corrupção em um país maravilhoso, de natureza belíssima”, analisa o artista.

“Eu sou muito pessimista, mesmo. Tenho sobrinhos e fico pensando qual será o futuro deles. Vejo uma juventude triste, neutra, sem esperanças. O mundo está muito mais estranho que as minhas obras”, brinca Leo.

LEO BRIZOLA – PINTURAS
Abertura quarta (25/4). Até 12 de maio, na Errol Flynn Galeria de Arte. Rua Alagoas, 977, Savassi. (31) 3318-3830. Aberta à visitação de segunda a sexta, das 9h às 19h, e aos sábados, das 9h às 13h.

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