Conheça o coletivo de mulheres de BH que faz da poesia espaço de resistência e de liberdade

Coletivos se dedicam à poesia falada com o objetivo de aproximar o cidadão da literatura. Os grupos Palavra Viva e Pretas Poetas emocionaram Adélia Prado e Conceição Evaristo

por Márcia Maria Cruz 15/04/2018 09:36

Adélia Prado ficou emocionada ao ver seus versos saltarem das páginas dos livros para bocas e corpos dos integrantes do grupo Palavra Viva. Os jovens se apresentaram quando ela recebeu o Prêmio Governo de Minas de Literatura, em junho de 2017. A três passos largos da poeta, “palavras em movimento” ocuparam mais do que o espaço do Teatro José Aparecido de Oliveira, onde ocorreu a cerimônia.
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Grupo Palavra Viva assumiu a missão de levar a poesia para além das páginas dos livros (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Em 5 de abril deste ano, era visível a emoção de Conceição Evaristo ao receber o mesmo prêmio na categoria conjunto da obra. A escritora se encantou com a performance do coletivo Pretas Poetas. “A noite não adormece nos olhos das mulheres/ a lua fêmea, semelhante nossa,/ em vigília atenta vigia a nossa memória”, dizia Júlia Elisa Rodrigues dos Santos, de 24 anos, estudante de ciências sociais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Omar Freire/divulgação
Coletivo Pretas Poetas durante a entrega do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (foto: Omar Freire/divulgação)

RESGATE Os grupos Palavra Viva e Pretas Poetas resgatam a prática de falar versos, assim como faziam os gregos na Antiguidade. Não se trata de declamação. Tão antiga quanto a humanidade, a poesia nasceu da fala. E os dois coletivos mineiros comprovam que essa arte milenar aproxima os jovens da literatura. Ambos reúnem, majoritariamente, integrantes de 15 a 25 anos.

A poesia entrou na vida de Júlia como forma de expressar o que é ser mulher negra. A jovem formou o Pretas Poetas com amigas da UFMG. O propósito do coletivo é incentivar a escrita como “mecanismo de resistência, espaço de liberdade e escuta”, diz a universitária. “A gente é silenciada em tantos outros espaços”, observa. O grupo se encontra quinzenalmente na Biblioteca Pública Estadual, na Praça da Liberdade.

O coletivo pediu a ajuda da bibliotecária para selecionar livros de autores negros. “É parecido com os encontros que fazíamos na UFMG. Criamos um espaço íntimo e confortável, um espaço para ser livre”, resume Júlia. De acordo com ela, a consequência da imersão em uma obras literária nem sempre é a escrita. Há também o lugar de escuta.

Ao ouvir tantos autores, parece inevitável que elas queiram escrever suas próprias linhas. Ano passado, cada integrante do Pretas Poetas mandou uma carta para si mesma. “Sugeri isso para que todas entendêssemos que a escrita é nossa, indissociável da condição de mulher negra”, afirma Júlia.

Se a tendência é tirar das páginas os versos que serão falados, o oposto também pode ocorrer, afirma Ana Elisa Ribeiro, professora e pesquisadora no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-MG). Depois de dizer um de seus poemas, ela o publicará em Álbum (Editora Relicário), livro que será lançado em 5 de maio, na Casa Guaja.

Prenhez, escolhido para a quarta capa, foi declamado por Ana Elisa em diferentes ocasiões. “Foi selecionado porque funcionou falado. Pude senti-lo em situação de fala”, argumenta.

O projeto Palavra Viva tem 24 anos. Dedica-se à formação de jovens, explorando a interface entre teatro e poesia. Cerca de 300 pessoas, de 15 a 25 anos, assistem a aulas de literatura e música, na Biblioteca Pública Estadual e no Teatro da Maçonaria. Trinta participantes da turma fazem parte da companhia Palavra Viva, que, em 4 de maio, vai se apresentar na Academia Mineira de Letras (AML).

Cada um constrói o próprio repertório, que pode incluir textos de escritores brasileiros e estrangeiros. “A poesia falada incentiva o hábito da leitura e o gosto pela literatura”, diz Robson Vieira, coordenador-geral do grupo. “Há muita afinidade entre o que o autor expressa e o que gostaríamos de dizer. A fala do escritor é universal”, observa.

A interpretação poética deve ser fiel ao texto, mas abrindo um universo de significados. “A capacidade de atravessar o espectador é intensa. Amplia o poder da palavra devido às variações sonoras e emocionais”, diz Robson.

Rafael Carvalho/Divulgação
(foto: Rafael Carvalho/Divulgação )

Palavra de especialista
Ana Elisa Ribeiro

Poeta

Poesia sem pompa


A poesia falada é uma das modalidades mais antigas do mundo. Mesmo totalmente oral, sem matriz escrita. O que temos hoje, na maioria dos casos, é poesia oral que tem matriz escrita. Alguns poetas compõem por escrito para ser falado. Outros escrevem para ser mesmo escrito, mas pode ser falado. Outros ainda escrevem para ser apenas lido. Alguma coisa que escrevo funciona bem na boca, mas escrevo para ser escrita. Prefiro falar poemas sem a pompa da declamação. Gosto quando soa natural, uma conversa. É o que tento fazer quando vou ler. A poesia falada é um jeito de escoar a produção poética. De alguma forma chega, nem que seja na marra, às pessoas. Muitas não comprariam um livro de poesia, mas elas ouvem, pode ser que gostem e passem a consumir, de alguma maneira. Movimentos como os saraus ou grupos como Palavra Viva e Pretas Petas são igualmente importantes. A tarefa bacana é escolher poesia que fique bem na fala.

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