'Sexo é bonito', diz Teresinha Soares, artista de 91 anos que chocou a família mineira nos anos 1960

A retrospectiva da artista mostra a evolução da linguagem contestadora e provocativa, que chocou a sociedade mineira ao abordar a sexualidade de maneira aberta

por Pablo Pires Fernandes 14/04/2018 08:55

Os primeiros versos são imperativos: “Não seja medíocre. Não seja modesto”. O poema diz muito sobre a autora, Teresinha Soares, artista, poeta e, sobretudo, mulher. Essas palavras, nas páginas iniciais de Eurótica, álbum de 32 serigrafias, foram escritas em 1970. A autora, hoje com 91 anos, certamente se orgulha do que escreveu há tanto tempo. Coerência e atitude nunca lhe faltaram, nem na vida e tampouco na arte.
Fred Bottrel/EM/D.A Press
A artista de 91 anos acompanhou equipe do Estado de Minas na visita à montagem no Palácio das Artes, onde gravou vídeo para o portal (foto: Fred Bottrel/EM/D.A Press)

A série completa dessas gravuras é uma das delícias da exposição Teresinha Soares, aberta ao público a partir de hoje na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes. Além deste conjunto, a mostra apresenta 72 trabalhos da artista, incluindo três séries inéditas, e três instalações: Túmulos (1972-73), Bandejas (1971-2017) e o Altar do sacrifício (1973). A curadora Marília Helena Andrés explica que o recorte foi feito a partir do conceito de corpo, o da mulher e o da terra. E a própria artista confirma essa relação íntima: “A minha arte sempre foi assim, corpórea, é como se nascesse, como se eu parisse”.
Arquivo Teresinha Soares/Divulgação
Serigrafia de 1970 da série Eurótica, em que o traço solto representa órgãos sexuais (foto: Arquivo Teresinha Soares/Divulgação)

Apesar de profícua, Teresinha Soares produziu seus trabalhos entre 1965 e 1976, quando abandonou a arte de maneira definitiva. A obra desta mineira, no entanto, fez sucesso nesse período. Ela participou de três bienais de São Paulo (1967, 1971 e 1973), expôs no Rio de Janeiro e nos lugares mais importantes de Belo Horizonte. Recentemente, tem sido resgatada e ganhou destaque com participação em coletivas em Londres e nos Estados Unidos, além da grande individual, em 2017, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), intitulada Quem tem medo de Teresinha Soares?. Agora, o Palácio das Artes apresenta ao público mineiro a maior retrospectiva já realizada da produção da artista.
Thamiris Rezende /FCS/Divulgação
Obras inéditas da década de 1960, quando a mulher e o corpo feminino começaram a ser os temas principais de sua produção (foto: Thamiris Rezende /FCS/Divulgação)

O feminino, a sexualidade e seus aspectos políticos e a teatralidade perpassam toda a obra de Teresinha, que sempre teve atitude provocativa. “Gosto de mexer com as pessoas, de cutucar, gosto de despertar nelas reações, mesmo se for crítica boa ou ruim, qualquer crítica. A busca pelo prazer foi – e continua sendo – um norte na vida de Teresinha, o que, naturalmente, está refletido em seus trabalhos e na representação de suas mulheres plenas. Além do sexo, a arte e o espírito de provocação lhe deram grande satisfação. “Era pra mim um prazer enorme colocar para fora o que eu sentia, ter contato com as pessoas, ver que elas ficavam aturdidas – isso é arte? isso não é arte? essa mulher usando seu próprio corpo! – isso me dava prazer demais”, lembra ela sobre suas performances, sem conseguir conter a prazerosa gargalhada e o brilho nos olhos de novamente ser o centro das atenções.

Teresinha afirma que a mulher sempre foi seu tema central e sempre sentiu “necessidade orgânica de falar e lutar por aquilo que eu achava que tinha razão”. Ela menciona a opressão da mulher, a violência e o machismo como motivos de sua luta e a representação do corpo e a forte carga erótica emerge, assim, como a afirmação de uma feminilidade independente e poderosa. “É uma mulher realizada, que sentiu prazer, que gostou do sexo, até hoje eu gosto. Acho que o sexo me deu muita vitalidade, o sexo é muito bom, tomar um vinho gostoso, né? A mulher tem que ter prazer, desejo, sem crime e sem castigo”, diz, reforçando a postura libertária. Teresinha tem plena consciência de que sua atitude contestadora é um ato político, sobretudo porque suas obras foram produzidas sob a ditadura militar no país.

Nascida em Araxá, em 1937, desde jovem demonstrava inquietude. Foi a primeira mulher eleita vereadora da cidade, antes de pensar em ser artista. Autodidata, seu interesse pela arte se deu através do contato com o circo, ainda na infância, mas foi o envolvimento com o teatro que a despertou para a possibilidade de criar. Comecei em 1965 e foi uma abertura muito grande na minha vida, porque eu fiz um papel de uma pessoa que eu não era, então o teatro me deu isso, a liberdade de ser outra pessoa. A convivência com “a turma do teatro” também foi decisiva no aprofundamento de seu caráter libertário. “Ficávamos no Maletta batendo papo e jogando conversa fora, essas coisas de artista. Chegava em casa às 4h.Tudo isso me deu um posicionamento diferente, uma maneira de ser eu, de fazer o que eu quero, sem pedir licença para os outros. Porque sempre a mulher é o pai, é o marido, é o irmão, é o filho, todo mundo quer mandar na gente.”

Daí pra frente, Teresinha frequentou cursos de arte e começou a desenhar e pintar sobre jornais. Desta época, a exposição traz uma série inédita de seis pinturas em preto e branco, retratando a vegetação e pequenas paisagens que já refletem a organicidade das formas que viria a desenvolver mais livremente com tema do corpo da mulher. Duas obras, também inéditas e em preto e branco, do início de sua produção, já mostram um avanço formal, com corpos femininos criando um jogo de contraste. Identificada com a temática feminina, Teresinha começa a realizar trabalhos com cores vibrantes, passa a pintar sobre superfícies de madeira em diferentes volumes, que ganham a tridimensionalidade.

Com as gravuras, as formas vão desenvolvendo o caminho da abstração, mas ainda mantendo uma figuração simbólica e a temática feminina. São obras que dialogam com a pop art e se apropriam de elementos da cultura de massa, sobretudo o jornal. “O jornal sempre me influenciou muito. Eu modificava assim que eu lia, tirava algumas frases e fazia uma historinha, fazia o meu jornal particular”, diz sobre a série Acontecências, também presente na mostra.

dA artista também descreve o impacto da chegada da televisão. “A gente só sabia notícias no cinema e no jornal. Quando a televisão veio pra dentro de casa, começamos a ver as notícias enquanto estávamos comendo, aquilo me chocou muito.” Era por volta de 1967 e a Guerra do Vietnã estava no auge da violência e as imagens de violência invadiam as casas através do novo veículo. “Da tranquilidade ali do lar, víamos imagens de pessoas sendo carregadas, homens de prepúcios de fora, é uma coisa que pesa.” Essa experiência resultou em três quadros sobre madeira datados de 1968. O primeiro, Morra usando as legítimas alpargatas, é sobre o marketing, “o aproveitamento da guerra para se ganhar dinheiro”. A solidão é o tema de Morrem tantos homens e eu aqui tão só. “Quanta gente morre, quantos jovens, quantas mulheres, quantas mães ficam sem os filhos e os maridos, sem os pais? Então é sobre a solidão da mulher.” O terceiro, presente na exposição, aborda a indiferença. Guerra é guerra – Vamos sambar é irônico – “Ah, aquilo está acontecendo lá, mas aqui está tudo bem. Então vamos dançar!”.

Um dos grandes destaques da exposição, no entanto, é a apresentação completa da série Eurótica, de 1970, momento em que seu traço se solta para criar formas de corpos e órgãos sexuais e linhas e curvas. Bandejas, trabalho de 1971 e refeito para a exposição do Masp, também será exposto. O altar do sacrifício, última obra realizada pela artista, em 1976, será reapresentado pela primeira vez. Na instalação, um tronco que evoca a figura de Jesus Cristo é um protesto ecológico contra a destruição do meio ambiente.

Outro trabalho imponente e que foi remontado é Túmulos, apresentada em 1972 com as performances Vida, Morte e Ressurreição. O objeto escultórico tem o formato de um caixão-lápide, de onde se abrem três gavetas e oferecem linguiças, queijo e simulacros de arcadas dentárias. Com esse trabalho, a artista abre sua pesquisa para o happening e utiliza elementos simbólicos de vida e morte e brinca com a religiosidade, entre o sagrado e o profano.

TERESINHA SOARES

Retrospectiva da artista com pinturas, objetos e instalações

Na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400.

De terça-feira a sábado, das 9h às 21h; domingos, das 16h às 21h. Entrada franca. Até 1º de julho.

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