Mia Couto lança em BH livro sobre importância da memória para o homem contemporâneo

Autor moçambicano diz que a 'máquina global de produção do esquecimento' ameaça o mundo. Ele conversa com o público sobre 'O bebedor de horizontes' em evento nesta quinta (12)

por Ana Clara Brant 12/04/2018 09:00
Companhia das Letras/Divulgação
Novo livro encerra a trilogia histórica 'As areias do imperador' (foto: Companhia das Letras/Divulgação)
Invocar o passado para falar do presente. É esse o mote do livro O bebedor de horizontes (Companhia das Letras), do moçambicano Mia Couto, que encerra a trilogia histórica As areias do imperador. Hoje à noite, o escritor estará em Belo Horizonte para falar sobre a relação de sua obra com a passagem do tempo.

“A memória é um modo de ganharmos soberania sobre a nossa vida e de ser coprodutores do mundo. Mas estamos hoje perante um logro: uma parte do nosso tempo é apagada e ocultada como parte de um processo de legitimação de uma ordem construída pelos poderosos. Há uma máquina global de produção de esquecimento. Esquecemo-nos até da nossa própria singularidade”, diz Mia, um dos escritores mais aclamados da língua portuguesa.

O mundo contemporâneo assusta – e preocupa – o autor de Terra sonâmbula, O último voo do flamingo e Jesusalém. “Há uma onda de populismo que não é capaz de esconder uma tendência autoritária”, adverte. No entanto, ele não sente falta do passado. “Sinto falta de um tempo que foi meu, de um tempo que conferia alguma soberania à minha própria existência. Muitas vezes, dizemos que temos saudade de um tempo. Acho que temos saudade do momento em que soubemos que estávamos vivos”, observa.

As areias do imperador aborda a derrocada do Império de Gaza, no Sul de Moçambique, tido como o palco mais importante da resistência da África à colonização portuguesa. Trata-se da primeira trilogia assinada pelo moçambicano. Mulheres de cinzas (2015) e A espada e a azagaia (2016) antecederam O bebedor de horizontes, sobre o fim da epopeia de captura do imperador Gugunhana pelos portugueses.

Mia Couto se diz realizado ao encerrar o projeto. Quando se lançou na empreitada, sabia que deveria vencer a tendência de se dispersar em várias direções. “Pensei que não era capaz de ter a disciplina que uma trilogia requer. Mas correu bem, fui feliz e mantive o mesmo entusiasmo até o final da última página”, comenta.

Missão cumprida, ele já trabalha em um novo romance. “É um livro muito centrado na minha infância e na figura do meu próprio pai. Revisitei, na semana passada, a minha cidade natal (Beira) – que fica no centro de Moçambique – para mergulhar no clima encantado que foram esse tempo e esse lugar”, adianta.

‘MINEIRO’ Ano passado, durante o Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), Mia se assumiu “mineiro”, contando que sempre ouve comentários de que parece brasileiro. A “mineiridade” se dá não só pelo jeito mais discreto, mas pelas próprias referências literárias.

“Minas Gerais é um dos estados do Brasil que mais me fizeram pensar que estou em Moçambique. Há um sentido do tempo, uma habilidade de converter o mundo em histórias que me é muito familiar. Tenho algumas referências e preferências mineiras, como o próprio Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, um dos meus mestres. Mas há outros e tenho medo de não saber dizê-los todos: Adélia Prado, Fernando Sabino, Murilo Rubião, Paulo Mendes Campos”, destaca.

Mia é o único africano integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL). Sócio-correspondente eleito em 1998, ele ocupa a cadeira nº 5, cujo patrono é o português dom Francisco de Sousa.

Biólogo por formação, o moçambicano, de 62 anos, é conhecido como lapidador da palavra. Ele já escreveu cerca de 30 livros, entre romance, prosa, contos e poesia. Aliás, boa parte de seus títulos não deixa de carregar um traço poético: O bebedor de horizontes, Venenos de Deus e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra são exemplos disso.

“Vou avançando com títulos diversos ao longo da escrita. Servem-me de baliza num processo criativo que é muito caótico. Chega um momento em que eu sei o que vai ser o fim. E esse fim é que dita o princípio, que é o título”, conclui.

África briga por espaço

Mia Couto recebeu uma série de condecorações literárias. Entre elas estão o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, e o Neustadt Prize, concedido pela Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Em 2018, com O bebedor de horizontes, ele disputa o Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, que recebeu 1.364 inscrições.

Este ano, registrou-se o aumento de africanos disputando o Oceanos. São 37 – 22 de Moçambique (incluindo Mia), 11 de Cabo Verde e quatro de Angola. Ano passado, editoras da África inscreveram seis livros – o angolano Pepetela chegou à semifinal.

“Parece-me evidente que prêmios de dimensão internacional aumentam o interesse pelo que se faz na África. Espero que novos nomes surjam. Há muita gente nova e muito interessante a emergir de todos os países de língua portuguesa”, diz Mia Couto.

O BEBEDOR DE HORIZONTES
. De Mia Couto
. Companhia das Letras
. 328 páginas
. R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)

MIA COUTO

Nesta quinta-feira (12), às 19h30. Casa Fiat de Cultura. Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Entrada franca, com distribuição de senhas a partir das 18h30. Capacidade: 200 lugares

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