Restauradores mineiros lutam para regulamentar seu ofício

Trabalho é fundamental para manter elos do passado com a sociedade contemporânea. Minas Gerais e a UFMG são referências nacionais no setor

por Ana Clara Brant 10/04/2018 08:00
acervo pessoal
Thaís Carvalho restaurou o Presépio do Pipiripau (foto: acervo pessoal)
Durante congresso realizado em Salvador, a restauradora mineira Thaís Carvalho aproveitou a folga e foi conhecer a Igreja  São Francisco, famosa pela suntuosidade. Calcula-se que 1t de ouro foi empregada nos douramentos daquele templo, erguido no século 18. Além de se encantar com a grandiosidade da igreja, Thaís ficou imaginando o esforço dos escravos para construí-la. Não deixou de reparar nas colunas monumentais e nos azulejos desgastados pelo tempo. “O olhar do restaurador não consegue enxergar só a beleza da obra. A gente repara também na técnica, em como aquilo foi construído, se está bem cuidado, se tem algum dano. Enfim, fazemos a tomografia completa. Não tem jeito, é automático”, explica.

A conservação e o restauro são fundamentais para reparar ou promover ações preventivas em obras que necessitem de intervenções visando à preservação de sua integridade física e valor artístico. Curiosamente, ainda não foi regulamentada no Brasil a profissão do conservador-restaurador de bens culturais móveis e integrados, apesar de sua importância para a memória do país.

“É uma luta de anos. O projeto chegou a ser votado, mas o Executivo o vetou e nem sei em que pé está isso. Quando uma empresa precisa de um restaurador, sai muito mais barato contratar alguém que não tenha graduação ou especialização. Ainda há esse tipo de profissional atuando, apesar de muitos lugares exigirem um especialista. Há vários cursos pelo país e a regulamentação já passou da hora”, lamenta Beatriz Coelho, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nos anos 1970, ela implantou o primeiro curso do país para formar profissionais especializados no setor.

Thaís Carvalho atribui as dificuldades de normatizar o ofício ao fato de a formação superior do conservador-restaurador ser muito recente. Só em 2008 a UFMG implantou o seu curso. Em 1976, Beatriz Coelho ajudou a criar o de especialização.” Pra você ter uma ideia, não há concursos públicos na nossa área. Na maior parte das vezes, somos contratados para serviços temporários ou cargos de confiança”, observa Thaís, ponderando que a não regulamentação pode ter ocorrido por falhas no texto do projeto, pois ele abrange, ao mesmo tempo, o restaurador, o técnico em restauração e o especialista, além de mestres e bacharéis.

“É complexo. Sem contar que alguns profissionais que estão no mercado, sobretudo os mais antigos, não tiveram essa formação. Eles são autodidatas ou aprenderam com pessoas no exterior. Há até outros profissionais, como arquitetos e engenheiros, atuando em paralelo. O panorama é diverso. Falta cercear essa definição”, sugere.

Thaís Carvalho entrou no ramo por acaso. Era aluna da Escola de Belas-Artes da UFMG quando um estágio no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), voltado para a conservação e organização de documentos antigos da Secretaria de Transporte e Obras Públicas, levou-a para outro caminho. “Nem sabia do que se tratava, mas foi lá que conheci os primeiros conceitos na área. Restauração é um curso interdisciplinar, envolve vários campos do conhecimento – história, geografia, arte, biologia e química, por exemplo –, sem contar o estudo das técnicas antigas. Costumo dizer: não fui eu quem escolheu a restauração, foi ela que me escolheu”, brinca.

PIPIRIPAU Um de seus orgulhos foi a minuciosa restauração do Presépio do Pipiripau, concluída em 2017, depois de cinco anos de trabalho. “Praticamente morei lá durante esse período”, conta, referindo-se ao Museu de História Natural da UFMG, no Horto, onde está instalado o presépio. “Toda a equipe se empenhou muito para que o resultado ficasse tão bacana e imperceptível. Ao contrário do que muita gente pensa, restaurador não é artista. Ele não pode criar nada. O bom restauro mantém a essência, as características históricas do bem. Ele tem que estar ‘novo’, mas não fake. Quanto menos visível for a restauração, melhor o nosso trabalho”, explica.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Marrege no ateliê do Grupo Oficina do Restauro, em BH (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Quem passa pelo Centro de Belo Horizonte não tem como deixar de notar a Igreja São José. A recuperação do tradicional templo da cidade ficou a cargo do Grupo Oficina de Restauro. Uma das especialistas e encarregadas da missão, Maria Regina Reis Ramos, a Marrege, não esconde a satisfação com o trabalho. “Um dos aspectos mais interessantes é que a igreja já era um ponto turístico, mas ganhou um outro tipo de público depois da restauração. Isso é bacana”, salienta.

Natural de Ouro Preto e filha de antiquária, desde cedo Marrege tomou gosto pelas artes e pelo patrimônio histórico. Em 1974, com apenas 14 anos, já frequentava cursos livres de restauração. Em 1987, criou a Oficina de Restauro em parceria com o irmão, Adriano Reis, e Rosângela Costa. O grupo se volta para a prestação de serviços na área de preservação e restauração de bens imóveis e móveis e arte aplicada, treinamento e capacitação de mão de obra especializada, assessoria técnica, consultoria, montagem de exposições, embalagem e transporte de obras de arte. Também organiza eventos ligados à divulgação do patrimônio cultural.

“Nossa profissão é bem minuciosa, detalhista. Além do conhecimento intelectual, que é imprescindível, a pessoa tem que gostar de colocar a mão na massa. É igual a peão de obra. Sem contar a ligação com a preservação. Quem perde sua história fica sem memória, sem referência. E isso é muito triste”, salienta Marrege.

PAPEL Um dos trabalhos mais delicados do ofício é a restauração e conservação de papéis. Vivian Santiago se tornou expert: recupera livros, documentos, fotografias, obras de arte em papel e mapas. “Eu me descobri nessa área quando entrei no Arquivo Público Mineiro. Ali é o paraíso do restaurador, ainda mais de quem mexe com papel. Gostei tanto que comecei estagiária e saí como coordenadora de projetos. O papel é bem minucioso. Envolve não só restauro e conservação, mas digitalização e microfilmagem”, explica Vivian, que atualmente trabalha em um ateliê, no Bairro Santa Tereza.

Vivian chama a atenção para a importância da conservação preventiva. O acondicionamento ideal de papéis – que envolve o controle da temperatura e da umidade, além do manuseio e higienização adequados – evita danos futuros. “Alguns procedimentos podem ser feitos por qualquer pessoa, sobretudo por quem tiver um acervo de livros, fotos ou documentos em casa ou outro lugar. Porém, no caso da conservação ou restauração ampla e esmerada, é necessário procurar um especialista”, ensina.

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