Livro de Oswald de Andrade publicado em 1927 com 300 exemplares é relançado

'Primeiro caderno do alumno de poesia' volta em edição fac-símile e expõe olhar irônico sobre o Brasil

por Nahima Maciel 08/04/2018 09:03
Arquivo EM
O enfant terrible do Modernismo brasileiro editou o livro com 24 poemas em uma tipografia próxima à sua casa, no Centro de São Paulo (foto: Arquivo EM)
Oswald de Andrade editou apenas 300 exemplares de seu Primeiro caderno do alumno de poesia. Com 24 poemas nos quais visita temas que apareceriam ao longo de toda a produção do poeta, o livrinho foi impresso em 1927 em uma tipografia no Centro de São Paulo. Trazia ilustrações do próprio Oswald e de Tarsila do Amaral, com quem era casado e que se ocupou da capa do livro. Não é, como aparenta no título, a obra de um iniciante. O modernista já havia publicado o manifesto Pau-Brasil, três anos antes. Mas esse caderninho charmoso e muito satírico ficou um tanto esquecido. Ganhou uma reedição nos anos 1940 e outra, duas de décadas depois, em meio a outros títulos em volumes de poesia completa. E foi só, até a Companhia das Letras decidir trazer de volta às prateleiras a edição fac-símile da edição original.

Com formato de 26,5 X 21,5cm, tipografia em preto e vermelho, como Oswald planejou em 1927, e um volume anexo com textos assinados por Augusto de Campos e Manuel da Costa Pinto, o Primeiro caderno do alumno de poesia é uma joia. “O mais belo livro de poesia do nosso modernismo”, segundo Augusto. “O mais belo enquanto conjunto coerente de poemas, enquanto risco e ousadia de linguagem, enquanto concepção plástica e material do livro.”

Companhia das Letras/Reprodução
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
O poeta concretista conheceu o livro em 1949, durante uma visita a Oswald, em companhia de Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Recebeu o presente que o modernista tirou de uma pilha de livros guardada em um canto do apartamento. Havia ali alguns exemplares que ofertava a um ou outro amigo. Na época, o mentor do modernismo estava esquecido. Foi apenas nos anos 1960, graças aos poetas concretos, que seus romances e poesias retomariam lugar de destaque na literatura brasileira. “Toda a obra dele ficou mais ou menos sem edição praticamente até os anos 1960, quando foi objeto de uma redescoberta a partir da atitude dos poetas concretos de revalorizarem a obra dele. Também foi muito importante a montagem de O rei da vela pelo Zé Celso, em 1967. Isso significou, de fato, uma releitura em perspectiva da obra do Oswald como um todo, mas principalmente pelo prisma da antropofagia”, explica Manuel da Costa Pinto.

PERCEPÇÃO

Oswald de Andrade foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e um dos mentores da ideia de criar uma arte inteiramente brasileira. Seu Manifesto antropófago, de 1928, deu origem ao movimento antropofágico e trazia a proposta de se apropriar das referências culturais europeias, degluti-las e devolver ao cenário artístico brasileiro uma produção com todas as características nacionais que poderiam resultar de uma digestão bem-feita.

Companhia das Letras/Reprodução
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Tarsila do Amaral foi a melhor representante dessa ideia nas artes plásticas e Oswald e Mario de Andrade, as melhores expressões do movimento na literatura. É com isso em mente que se deve abordar esse Primeiro caderno. “O Pau-Brasil e o Primeiro caderno estão um pouco nesse contexto de criar uma poesia que tem um olhar irônico para a história oficial brasileira, um olhar singular para questões como urbanização, industrialização e, ao mesmo tempo, para o caráter tímido da própria modernidade num país periférico como o Brasil. Isso tudo faz com que ele reivindique um olhar com olhos livres para a realidade, para se despir um pouco da tradição, seja lusitana, seja de um certo beletrismo que havia na literatura brasileira, e de uma perspectiva muito calcada nas raízes europeias”, diz Costa Pinto.

Oswald buscava um olhar novo sobre a realidade brasileira e uma expressão poética nova sobre essa realidade. E o Primeiro caderno tem alguns bons momentos dessa busca. São versos como os de As quatro gares, nas quais fala de infância, adolescência, maturidade e velhice com uma ironia que é retomada ao transformar em poesia a própria história do Brasil nos excelentes História pátria e Canção da esperança. Dedicado a Manuel Bandeira, Historia patria fala de caravelas, ou “barquinhas”, na concepção do poeta, que chegam ao litoral brasileiro carregadas de aventureiros, governadores, espanhóis, cruzes de Cristo, donatários e bacharéis, assim com o de degradados e filibusteiros, prontos para encontrar índios e pau de tinta (ou pau-brasil).

Companhia das Letras/Reprodução
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
A perspectiva infantil e ingênua a respeito da realidade brasileira é recorrente nos poemas do Primeiro caderno e é com essa estratégia de buscar o olhar pueril que Oswald consegue falar, com muito lirismo e ironia, da violência e da desigualdade entranhadas na sociedade brasileira. “E essa troça reapropriada pelo adulto serve como instrumento de exposição desses impulsos mais violentos”, explica Costa Pinto. “É um livro consciente, mas não é programado, calculado, ele libera certos impulsos instintivos, destrutivos, de deboche e de exposição das nossas violências cotidianas e faz isso aflorar utilizando uma perspectiva infantil para mostrar como, reapropriados na idade adulta, esses instintos se mostram como a raiz das forças que atravessam uma sociedade violenta, escravista, segregadora, elitista.”

Companhia das Letras/Reprodução
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Os desenhos que acompanham o livro ilustram o tom dos versos, mas também funcionam como uma declaração de amor a Tarsila do Amaral. Alguns são claramente inspirados na obra da artista, que também é o alvo da dedicatória desse fac-símile: um perfil de cidade discretamente carimbado com a frase “Viva Tarsila!”, uma bananeira cujo traço pode estar em algum quadro da artista, uma fazendinha, um canhão, uma montanha. “A Tarsila, de certa maneira, encontra uma representação da paisagem brasileira que é muito semelhante à representação poética da paisagem brasileira de Oswald. Esses desenhos são como uma tentativa de estabelecer uma aliança entre eles e o olhar que partilham em relação ao Brasil”, garante Manuel da Costa Pinto.

PRIMEIRO CADERNO DO ALUMNO DE POESIA
De Oswald de Andrade
Companhia das Letras
64 páginas
R$ 79,90

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