Conceição Evaristo recebe prêmio e é ovacionada em Belo Horizonte

Escritora critica o massacre de jovens negros no Brasil e 'faz as pazes' com Minas Gerais, que lhe negou oportunidades

por Walter Felix 05/04/2018 23:31

Marcos Vieira/EM/D.A. Press
O secretário de Cultura Angelo Oswaldo entrega prêmio à escritora Conceição Evaristo (foto: Marcos Vieira/EM/D.A. Press)
Mineira radicada no Rio de Janeiro, a escritora Conceição Evaristo, de 71 anos, recebeu na noite desta quinta-feira (5) o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2017 pelo conjunto de sua obra. A entrega foi realizada no Teatro José Aparecido de Oliveira da Biblioteca Pública Estadual, em evento que celebrou a revitalização da sala, que passou por reformas.


A solenidade foi marcada pela rememoração da trajetória da escritora, em conversa conduzida pela jornalista Márcia Maria Cruz, do Estado de Minas. Conceição Evaristo nasceu e viveu até a década de 1970 na favela do Pindura Saia, no Alto da Avenida Afonso Pena. Em busca de melhores condições de vida, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez mestrado, doutorado e se tornou escritora e professora universitária. Embora reconhecida tardiamente, a belo-horizontina é um dos destaques da literatura brasileira contemporânea e, em seus livros, dá voz ao negro e à mulher.


Com essa premiação, Minas Gerais “faz as pazes” com a autora, que não encontrou aqui oportunidades para desenvolver sua arte. Esse é o ponto de vista da própria Conceição, que relembrou as dificuldades do início de carreira. Ela destacou a importância dos Cadernos Negros, publicação responsável por seu lançamento na literatura, em 1990. Idealizado pelo Coletivo Quilombhoje, o projeto publica contos e poemas de autores negros.


Conceição disse que se o mercado literário é árduo para escritores brancos, os negros se deparam com barreiras ainda maiores. “Nunca esmoreci no desejo da escrita, que me acompanha sempre. No desejo pela publicação eu já esmoreci várias vezes, diante das dificuldades”, lembrou.


A escritora contou ter recebido seu primeiro prêmio literário nos tempos de colégio, quando, em 1958, escreveu uma redação intitulada Por que me orgulho de ser brasileira. “E me orgulho até hoje. Eu não tenho nenhum motivo para não me orgulhar de ser brasileira. Quem causa vergonha à nação não somos nós”, completou.

ESCREVIVÊNCIAS A obra de Conceição Evaristo é marcada por “escrevivências”, em que relata, por meio de romances, contos e poemas, a luta da mulher negra e periférica por respeito e igualdade. A autora ressalta que não são livros autobiográficos. “A escrevivência toma como inspiração a minha experiência individual, mas sempre confundida com o coletivo. As histórias que crio são marcadas pela minha maneira de olhar o mundo, mas também são profundamente marcadas e comprometidas com a existência e com o coletivo”, afirmou.


Ao longo da noite, trechos de poemas da homenageada foram interpretados pelo coletivo feminino Preta Poeta. As artistas relembraram o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), representante dos negros e das mulheres. Conceição Evaristo também protestou contra o genocídio dos negros, especialmente jovens do sexo masculino.


“Meninos negros estão sendo mortos – ou por forças externas, ou por eles mesmos, em conflitos. Eles se tornam vítimas de uma eugenia. Mas quem sobreviveu aos navios negreiros e marcou uma nação vai continuar marcando, quer queiram, quer não”, disse Conceição, ovacionada pela plateia.


Presença constante em atos de apoio ao ex-presidente Lula, Conceição Evaristo não mencionou o mandato de prisão expedido pelo juiz federal Sérgio Moro na tarde de quinta-feira (5). O fato foi mencionado pelo vereador Arnaldo Godoy (PT), que gritou “Lula livre” ao pedir licença para deixar a solenidade para cumprir outros compromissos. O evento contou com a presença do secretário de Cultura de Minas Gerais, Angelo Oswaldo, que relatou sua “felicidade bairrista” em conceder o prêmio à mineira Conceição Evaristo.


Também recebeu o prêmio, na categoria poesia, a escritora Ana Claudia Costa dos Santos. Marana Borges (romance), Sara Pinheiro (jovem escritora) e Giovanna Ferreira Silva (menção honrosa), também premiadas, não compareceram à solenidade.

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