Em livro, físico mineiro conta como se tornou cientista da NASA

No livro 'A caminho de Marte', Ivair Gontijo fala sobre ter estudado numa escola agrícola e trabalhado como servente de pedreiro

por Mariana Peixoto 19/03/2018 09:32

Arquivo pessoal Ivair Gontijo
O físico nascido em Moema, no Alto São Francisco, ao lado do Curiosity. Ele integrou a equipe da NASA que controlou a descida do veículo de exploração no Planeta Vermelho. (foto: Arquivo pessoal Ivair Gontijo)

“Existe vida em Marte?”, pergunta Ziggy Stardust, a persona de David Bowie em Life on Mars?. Bem, 45 anos depois do lançamento da canção, a resposta é a mesma: não. Mas muito do que se sabe do planeta vermelho tem a mão de um brasileiro. Em A caminho de Marte (editora Sextante), o mineiro Ivair Gontijo, físico de 57 anos que trabalha na NNASA, a agência espacial norte-americana, conta sua história. Que é absolutamente fantástica, diga-se de passagem.


Nascido em Moema, município no Alto São Francisco, na região de Bom Despacho, Gontijo é o quinto de nove irmãos. Viveu a infância e a adolescência numa fazenda. Assistiu à TV pela primeira vez em 1969, durante a transmissão da chegada do homem à Lua. Estudou em colégio agrícola do interior, fez bico como servente de pedreiro para ajudar a família, gerenciou uma fazenda sem luz elétrica.

Mas conseguiu, a despeito da incredulidade de parentes e amigos, estudar física. Fez graduação e mestrado na UFMG, doutorado na Escócia (Universidade de Glasgow), pós-doutorado (ele tem dois) na Escócia (Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo) e nos EUA (Universidade da Califórnia, a UCLA).

Desde 2006, Ivair Gontijo trabalha na NASA. No chamado Jet Propulsion Laboratory (JPL), ele é o físico responsável pela construção do coração do radar do robô Curiosity, que chegou a Marte em 6 de agosto de 2012. Depois da primeira missão bem-sucedida, está sendo preparada uma segunda incursão. O físico trabalha atualmente no projeto do próximo veículo que será enviado àquele planeta, em 2020.

Em A caminho de Marte, Gontijo entremeia duas narrativas – a pessoal e a científica, em que fala do universo. Na parte final, a partir do momento em que se mudou para Los Angeles (onde reside), as duas narrativas convergem. Ao final de cada capítulo, o autor incluiu coordenadas terrestres e marcianas para que o leitor possa localizar os lugares da Terra e de Marte mencionados.

Depois que o Curiosity chegou a Marte, Gontijo passou a fazer muitas palestras. “A pergunta de quase todo mundo era como eu tinha ido parar na NASA. E é sempre uma história longa, as pessoas queriam saber detalhes”, comenta ele sobre a origem da ideia de escrever o livro.

ACESSÍVEL A intenção, segundo o autor, foi fazer uma narrativa acessível. “Nós, cientistas, precisamos divulgar a ciência de uma maneira que a população entenda. E, ao contar a minha história, de uma pessoa que sai do interior e chega à NASA, mostro que isso está ao alcance de quase todo mundo. Só que o preço é alto e leva-se muito tempo”, afirma. Como trabalhou numa fazenda por três anos, Gontijo teve que atrasar os estudos. “Com certeza, meu caminho poderia ter sido mais curto. Se eu tivesse feito um curso mais técnico, em vez de ter estudado numa escola agrícola. E quando se faz graduação numa das grandes universidades americanas (MIT, Caltech, por exemplo) é muito mais fácil entrar na NASA”, diz ele. Anualmente, a agência recebe em torno de mil estudantes para estágio.

A chegada do Curiosity a Marte foi uma conquista e tanto, já que a NASA foi o único centro de pesquisa espacial a conseguir operar um robô no planeta – a União Europeia, por exemplo, não conseguiu que o seu chegasse lá inteiro. “Tive sorte de estar no lugar certo na hora certa”, afirma Gontijo. O radar em que ele trabalhou controlou a descida do robô em Marte. Caso ele não funcionasse, o resto seria irrelevante, pois o robô seria destruído ao chegar ao destino.
O Curiosity foi lançado para explorar o planeta – do lançamento na Terra à chegada em Marte foram percorridos 560 milhões de quilômetros durante oito meses e meio. A missão que terá início em dois anos será mais ambiciosa. “Hoje temos tecnologia para estudar os materiais que existem lá. Só que os equipamentos enchem um prédio inteiro, e é impossível fazer versões miniaturizadas deles para colocá-los num veículo e mandá-los para lá. Então, para a próxima missão, vamos tentar trazer pedacinhos de Marte para estudar.”

 

TRECHO

“Quando conseguimos entrar na sala, achei estranho, porque havia somente uma cadeira perto da parede do fundo com a tal ‘caixa’ de televisão em cima. Foi uma grande decepção para mim, porque, pelo que o meu irmão tinha descrito, eu esperava muito mais. Aquela caixinha tinha mesmo uma frente de vidro. Apareciam umas imagens meio difíceis de reconhecer. Em pouquíssimo tempo, consegui perceber que aquelas imagens eram mesmo de gente, como uma foto que se mexia. Parecia estar chovendo no lugar daquelas imagens que estavam se formando, e era um chuvisco forte. Riram de mim e me disseram que não, que aquele chuvisco era só na imagem, porque ainda era difícil transmitir com maior clareza.Todos os móveis haviam sido removidos para abrir espaço. A sala estava apinhada de gente. Não tinha lugar para ninguém sentar, com a sala cheia de adultos, muita gente conversando e os filhos mais velhos do dono da casa, amigos do meu irmão, pedindo silêncio. Nós, as crianças, fomos colocados sentados a meio metro da TV e dali assistimos aos pequenos passos de Neil Armstrong na Lua”

 

A CAMINHO DE MARTE
Autor: Ivair Gontijo
Editora: Sextante
(288 págs.)
Preço sugerido: R$ 39,90 (livro) e R$ 24,99 (e-book)

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