Clássico 'O velho e mar', de Hemingway, ganha versão em HQ e chega à 94ª edição

Lançamentos mostram saga do pescador que se tornou alterego do escritor e sua vida de aventuras

por Paulo Nogueira 16/03/2018 10:57
Thierry Murat/Bertrand Brasil/Reprodução
Ilustração do designer francês Thierry Murat para a novela gráfica adaptada do clássico do escritor americano. (foto: Thierry Murat/Bertrand Brasil/Reprodução)
“É uma estupidez não ter esperança”, diz o velho em seu barco com o enorme peixe-espada amarrado e cercado por tubarões. Agora, ele já podia ver as cabeças enormes e as barbatanas brilhando ao sol. Eram tubarões idosos, malcheirosos, assassinos e comedores de carne podre atraídos pelo rastro de sangue. Quando tinham fome, eram capazes de morder os remos ou o leme de um barco e atacar um homem na água. O velho está exausto, à beira do desespero, mas desafia: “Venham”. E vieram. Para tristeza do velho, as feras famintas ignoram sua coragem e começam a abocanhar o espadarte, o gigantesco peixe-espada de meia tonelada. É mais um ataque assustador ao pequeno barco e hora de lutar outra vez até a última gota de suor e de sangue.

Obra mais popular e a última de Ernest Hemingway (1899-1961), O velho e o mar (The old man and the sea) foi publicada em 1952, deu ao escritor norte-americano o Prêmio Pulitzer de 1953 e teve peso decisivo na sua escolha como Nobel de Literatura em 1954. Já teve milhares de edições ao redor do mundo, rendeu dois filmes em Hollywood, em 1958 e 1990, e um curta de animação, que ganhou o Oscar em 2000. Além da 94ª edição no Brasil, chega ao mercado brasileiro uma belíssima adaptação do livro em quadrinhos.

O velho e o mar é uma angustiante novela dramática ambientada em Cuba e no Mar do Caribe, onde Hemingway viveu na década de 1950 e baseou sua história, seja pelas próprias pescarias ou pelas que ouviu. Um libelo contra o abandono e a solidão da velhice e a perseverança em superar forças que parecem invencíveis. Conta a história de Santiago, que está há 84 dias sem pescar nada e, por isso, é motivo de chacota de outros pescadores de Havana. Por causa disso, perdeu também a companhia do garoto Manolin, que sempre o incentiva e ajuda na pescaria em alto-mar, mas é proibido pelo pai de acompanhá-lo porque o velho não consegue pescar mais.

No 85º dia, então, tragado pelo sofrimento e pela força da dignidade, ele parte sozinho para o mar em seu desafio definitivo. Pesca o maior peixe da sua vida, de mais de cinco metros de comprimento, maior que o seu barco. Durante dois dias e duas noites, o longo confronto de Santiago com o imenso espadarte e suas dramáticas consequências em mar aberto constituem a grandeza da obra.

A simplicidade da narrativa em O velho e o mar e outras obras de Hemingway exemplifica sua filosofia para escrever. Ele sempre buscou uma prosa baseada na linguagem jornalística, porque também trabalhou como repórter, sem firulas ou embelezamentos, contundente e econômica, e não em adjetivos ou excessos emotivos, como destaca o escritor Luiz Antonio Aguiar, no prefácio da nova edição em português.

Santiago é um homem muito simples, que mora sozinho numa cabana paupérrima, esquecido pelos pescadores, conta apenas com a solidariedade do pequeno Manolin e notícias do beisebol e seu ídolo máximo, o famoso Joe DiMaggio, que o inspira em sua aventura no mar.

MONÓLOGO DA SOLIDÃO Acima de todas as dificuldades está sua força de vontade, que o impede de pedir dois dólares emprestados para ver a partida do seu time. “Não quero pedir emprestado a ninguém. Primeiro pede-se emprestado, depois pede-se esmola”, ele diz ao menino. Sua obstinação aparece também no encontro com as grandes forças que enfrenta, principalmente nas conversas com o gigantesco espadarte fisgado. “Peixe, eu gosto muito de você, é como se fosse meu irmão e o respeito muito, mas vou matá-lo”, diz.

Santiago está sozinho no mar. Sobram-lhe os solilóquios. “Em toda a sua grandeza e glória, tenho que matá-lo. Vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer o que é capaz de aguentar”, ele diz em outro momento ao peixe, ao qual resta lutar ferozmente pela vida, fazer sangrarem as mãos do velho em meio ao dia e à madrugada, ao frio e ao calor, à fome e ao perigo.

Belos e inquietantes são seus devaneios durante sua luta com o peixe: “Imagine o que seria se um homem tivesse que matar a lua todos os dias. A lua corre depressa. Imagine só se um homem tivesse de matar o sol. Nascemos com sorte. É bom que não tenhamos de tentar matar a lua, o sol ou as estrelas. Já é ruim o bastante viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos”, filosofa o velho.

Mas o embate com o espadarte é apenas parte da luta. Depois virão os terríveis tubarões. E serão muitos e muitos... E ele está ali, firme, pronto para continuar o combate: “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”.

Um fator que contribuiu para a popularidade do livro é apontado por Moacy Scliar (1937-2011), um dos maiores escritores brasileiros, em texto publicado em 1999, no qual ele fala da inquietude de Hemingway. Segundo ele, o sucesso de O velho e o mar, tratado como resgate literário de Hemingway, que estava em baixa no fim da vida, sensibilizou os leitores devido ao aspecto simbólico do texto. “O velho era claramente o próprio Hemingway e o peixe com que ele lutou a literatura ou a própria vida. É o laconismo do macho americano, do herói do Oeste”, afirmou Scliar.

HEMINGWAY VIRA PERSONAGEM O velho e o mar merecia uma bela versão HQ. E ela veio da imaginação e das mãos do ilustrador e designer gráfico francês Thierry Murat, de 52 anos. A crítica do jornal Libération dá o tom da obra: “Thierry Murat escolheu privilegiar a elipse e a sugestão, com uma incrível paleta de cores, um obscuro alaranjado. Um beijo de poesia”. A sofreguidão de Santiago, seus sonhos com a África natal e os “leões brincando como gatinhos” estão muito bem retratados em cor laranja para os dias sofridos e o azul sombrio para as noites estreladas, quando parece que a solidão engole a alma do velho pescador.

Óbvio que a linguagem sucinta dos quadrinhos reduz o apelo dramático da prosa de Hemingway, mas Murat soube dosar o lirismo inerente à realidade de Santiago ao pinçar uma definição tirada do livro: “Sua pele, seu cabelo, suas lembranças, tudo nele era velho. Menos seu olhar, que ainda brilhava como um sol triscando a crista das ondas”.

E a grande surpresa de Murat para o leitor em sua livre adaptação da obra é transformar o próprio Hemingway em personagem. Enquanto o livro começa com o garoto Manolin em primeira pessoa e depois segue um narrador, nos quadrinhos o garoto conta a história para um amigo, que é ninguém menos que o próprio escritor americano. Impressionado com a narrativa do velho pescador, o personagem Ernest se impressiona e segue-se o diálogo: “Sua história é muito bonita, meu filho”. E Manolin responde: “Não é uma história, senhor Hemingway, é a vida”. Ernest retruca: “Sim, e é por isso que é tão bonita”. Triste e choroso, o menino conta: “Mas hoje de manhã ele cuspiu uma coisa esquisita”. E Ernest arremata: “Não chore meu garoto, vai dar tudo certo... Acho que na sua derrota o velho obteve a vitória mais bonita que um homem pode esperar”.
Warner/Divulgação
A versão com Spencer Tracy no papel principal, desagradou o autor. (foto: Warner/Divulgação)

DO FRACASSO AO OSCAR O velho e o mar teve três adaptações para cinema, incluindo um curta de animação. Em 1958, o diretor John Sturges (1910-1992) levou para as telas uma versão bem fiel ao livro com Spencer Tracy (1900-1967), considerado um dos principais atores de Hollywood de todos os tempos. O ator foi indicado nove vezes ao Oscar, inclusive por este filme, e ganhou três. O filme, entretanto, levou a estatueta de melhor trilha sonora.

Apesar do bom desempenho do ator, Ernest Hemingway não gostou. Segundo críticos da época, o escritor americano, que chegou a se envolver na produção do longa em cenas de pesca de marlin na costa do Peru, disse que Tracy parecia mais o homem rico que era do que um pescador cubano. Na verdade, os produtores usaram um peixe-espada de borracha nas principais cenas do peixe-espada e filmagens de que Hemingway não participou.

O ator Humphrey Bogart (1889-1957), famoso por Casablanca, que já havia protagonizado o filme Uma aventura na Martinica, inspirado em outra obra de Hemingway, se identificou com a história e quis interpretar o velho Santiago após comprar os direitos sobre o romance, mas morreu antes do início das filmagens.

A principal crítica ao filme de Sturges foi a lentidão e os longos planos de Santiago no mar em embate com o espadarte, já que os momentos tensos e de ação são poucos se comparados com as divagações filosóficas do protagonista diante do seu incrível adversário. Dessa forma, o ponto alto do livro vira deficiência no longa, mas não compromete sua mensagem de superação humana.

Se a primeira versão teve seus problemas, a segunda, de 1990, dirigida por Jud Taylor (1932-2008), foi uma lástima. Mesmo com o veteraníssimo Anthonny Quinn (1915-2001), que ganhou o Oscar duas vezes e fez mais de 100 filmes, como protagonista, com um desempenho melhor que o de Tracy, o longa de decepciona do início ao fim. O roteiro inclui elementos estranhos ao livro. Primeiro, inventa para Santiago uma filha, que tenta convencê-lo a não voltar ao mar depois de sucessivos fracassos e nada acrescenta à história. No original, a única lembrança de família do velho é uma foto da mulher falecida que ele manteu escondido em sua cabana na praia para enganar a saudade.

Aparecem também na história um jornalista e sua mulher que estão com o carro enguiçado e ficam na aldeia de pescadores acompanhando o drama de Santiago. Mais uma vez, nada acrescenta. Para piorar, de novo, o ponto forte do livro, que é o longo embate no mar, no filme é intercalado com cenas descartáveis na ilha do Caribe, enquanto Santiago se consome em sua batalha. Não é à toa que foi um fiasco e caiu no esquecimento. Passada a decepção dos longas, em 1999, a obra de Hemingway ganhou bela versão no curta de animação do diretor e designer gráfico russo Alexander Petrov, então com 42 anos. A produção em conjunto de Rússia, Canadá e Japão foi consagrada com o Oscar em 2000. A animação de 20 minutos consumiu dois anos de trabalho de Petrov, que pintou a óleo e fotografou cada um dos 29 mil frames em quadros de vidro. The old man and the sea é de grande beleza, literalmente, para encher os olhos, e está disponível no YouTube.
IMAX/Reprodução
A produção animadade Alexander Petrov conquistou vários prêmios. (foto: IMAX/Reprodução)

BIOGRAFIA TURBULENTA A vida épica de Ernest Hemingway se confunde com a de os seus personagens desde O sol também se levanta (1927), seu primeiro livro, até O velho e o mar (1953), o último. Seus livros contam histórias sobre guerras, pescarias em alto-mar, touradas e caçadas, aventuras em que os protagonistas são seu alterego e quase sempre estão envolvidos em batalhas memoráveis e precisam superar intempéries e adversários que parecem invencíveis. Tanto que os seus principais livros, entre os quase 30 que escreveu, foram levados para o cinema.

Ao longo dos 62 anos, o escritor rodou o mundo, se casou quatro vezes, viveu outros romances e teve vários filhos. A popularidade de suas obras, segundo os críticos, vem dessa vida aventuresca e também do estilo seco e conciso dos seus textos que permeia a linguagem jornalística, outro trabalho que marcou profundamente a trajetória do escritor americano.

Filho de um médico e de uma cantora de ópera, Ernest Miller Hemingway nasceu em 21 de julho de 1899, em Oak Park, Illinois (EUA). Foi o quinto de sete irmãos (quatro mulheres e dois homens) e desde cedo teve vocação para a aventura. A infância e adolescência estão em detalhadas na obra O jovem Hemingway (The young Hemingway), de Peter Griffin. Já aos 17 anos se alistou no exército italiano e foi à Primeira Guerra Mundial como motorista de ambulâncias. Foi ferido gravemente, se apaixonou por uma enfermeira, teve baixa e acabou condecorado. Dez anos depois, em 1929, ele lançou Adeus às armas (A farewell to arms), romance autobiográfico sobre um tenente americano que serve como motorista de ambulância e se apaixona por uma enfermeira inglesa.

Ainda durante a guerra, ele iniciou sua carreira como repórter nos EUA e viajou pelo mundo. Sua extensa obra jornalística está relatada nos volumes Tempo de viver e Tempo de morrer, lançados em 1967, após sua morte. As duas obras são encontradas por aqui apenas em sebo, lançadas em 1967 pela editoria Civilização Brasileira.

Depois da guerra, Hemingway foi viver em Paris como correspondente, entre 1921 e 1926. Foi um dos expoentes da chamada Geração perdida, que reuniu principalmente artistas e intelectuais que se autoexilaram na capital francesa. Ali conheceu personalidades como James Joyce, Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Luís Buñuel, Salvador Dalí, Ezra Pound e Cole Porter, entre outros. Relatos da época estão em O sol também se levanta (The sun also rises), obra vigorosa, em estilo direto e despojado, que mostra relações e conflitos de americanos e ingleses na Paris pós-guerra. Sobre esta época, seria lançado postumamente em 1964 Paris é uma festa (A moveable feast). Hemingway escreveu o livro entre 1957 e 1960, contando sua convivência ao mesmo tempo gratificante e cruel com intelectuais e como conheceu clássicos de Dostoievski, Tolstói e Stendhal. “Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”, afirmou o escritor.

Nos anos 1940, Hemingway se alistou nas Brigadas Internacionais e foi lutar contra a ditadura de Franco na guerra civil espanhola. Desta época, surgiu sua grande obra-prima, Por quem os sinos dobram, For Whom the Bell Tolls, a história de um jovem americano que tem a missão de explodir uma ponte para barrar franquistas e se apaixona por uma bela e enigmática mulher. Nos anos 1940 e 1950, Hemingway morou em Cuba, onde se aventurou nas grandes pescarias.

Em 1961, de volta aos EUA, Hemingway, aos 62 anos, estava com depressão, hipertensão, diabetes e início de demência. Em 2 de junho, em sua casa em Idaho, ele se matou com um tiro de espingarda, seguindo o exemplo de seu pai. Críticos de sua obra dizem que ele representava apenas o protótipo do macho americano, heroico e viril. Má vontade à parte, ele foi um homem do seu tempo, que desafiou o mundo e venceu. Como todos, perdeu apenas a derradeira batalha, a da morte.
 
O VELHO E O MAR
De Ernest Hemingway
Bertrand Brasil
126 páginas 
R$ 37,90 (livro) e R$ 22,90  (e-book)

O VELHO E O MAR
De Thierry Murat
Bertrand Brasil
128 páginas
R$ 49,90

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