Exposição apresenta retrospectiva dos irmãos Nello Nuno e Eliana Rangel

'Construções afetivas' traz os dois pintores que fogem dos padrões da arte praticada em Minas Gerais

por Pablo Pires Fernandes 06/03/2018 09:27

Cadernos da Arte Mineira/Reprodução
'A árvore da vida' (1974), obra de Nello Nuno e 'Terra, ritmo', de Eliana Rangel. (foto: Cadernos da Arte Mineira/Reprodução)

Dois irmãos e trajetórias distintas, mas que guardam alguns pontos em comum, sobretudo a liberdade criativa e a alegria do fazer artístico. Nello Nuno (1939-1975) e Eliana Rangel (1941-2003), dois artistas com percursos particulares na arte produzida em Minas Gerais, ganham retrospectiva a partir desta terça-feira (6), na Casa Fiat de Cultura. Com cerca de 80 obras, a mostra permite um diálogo entre a produção dos pintores nascidos em Viçosa e a evolução artística de cada um. Na abertura, serão lançados os livros Nello Nuno: a poética do cotidiano e Eliana Rangel: construções afetivas, do crítico e artista Márcio Sampaio, que assina a curadoria com o psicólogo Nello Rangel.

Pintor autodidata, Nello Nuno buscou caminho próprio e sempre manifestou a convicção de ser artista. O curador Márcio Sampaio conta que, obrigado pelo pai a prestar vestibular para arquitetura, Nello feriu a própria mão para não fazer a prova. A convivência com artistas permitiu-lhe aprofundar e descobrir técnicas para se expressar, mas logo rompeu com a pintura que se praticava em Belo Horizonte na década de 1960, fortemente influenciada pelo realismo lírico de Guignard. “Ele faz a opção de se contrapor a essa tradição, primeiro pelos temas e, segundo, pelo tipo de material e técnica que criou para si próprio, que era muito diferente do que se via na época”, explica Sampaio, acrescentando que o artista trabalhava com tinta de parede como fundo, o que permite criar texturas, além de utilizar cores pouco usuais.

Nas telas de Nello Nuno, é notável a liberdade criativa, expressa em composições sofisticadas e no uso de cores intensas. Há uma série de trabalhos que retratam a vida em família, com os filhos, a mulher e o pai como tema. Neles, observa-se o uso de motivos decorativos que remetem ao lirismo colorido de Matisse e revela também o gosto de reinventar cenas e paisagens cotidianas, temas centrais em sua carreira. “O que lhe interessava era o que estava próximo, Nello olha para a realidade do dia a dia e a transfigura. Nos retratos de família e de amigos, é mais a pintura em si e menos a pessoa que retrata, ele usa o assunto para fazer pintura em vez de fazer pintura para enfatizar o assunto”, diz Sampaio. Desse conjunto, destaca-se A família feliz, de 1966.

Ao longo dos anos, a pintura de Nello segue em busca de uma síntese, reduzindo a variedade de cores e fazendo o uso recorrente de símbolos – flores, corações, elementos orgânicos. “As formas ganham intensidade, muito pela maneira como ele trabalha a forma em si e as composições”, pontua o curador. A exposição traz também alguns quadros em que o pintor faz representações de objetos e figuras referentes à infância – cachorros, brinquedos e árvores em cores fortes, recriados como se as lembranças evocadas ganhassem um lirismo próprio.

Desse período são as telas em que Nello envereda pelo onírico e faz homenagem ao amigo escritor Murilo Rubião e seu universo fantástico apresentados nos trabalhos Os dragões e Paisagem com beijagira, mistura de girassol e beija-flor. “Nello nunca foi literário, usou temas dos contos de Rubião com liberdade grande, não fazia o fantástico, mas o fantasioso”, destaca Sampaio.

A partir dos anos 1970, a pintura de Nello Nuno explora formas geométricas, com referências aos telhados de Ouro Preto, cidade em que vivia, mas, nas palavras de Márcio Sampaio, “nunca são meramente geométricos, pois são cheios de referências e evocações na representação da realidade objetiva ou de questões imaginadas que se referem ao real”. O crítico também destaca a maneira como as pinturas subvertem a perspectiva, compondo com diferentes planos que se alternam como fundo ou objeto mesmo em massas de cor e forma, além de criar diálogos entre elementos orgânicos e geométricos, ressaltando a força da composição.

INTUIÇÃO Nos trabalhos figurativos do início da carreira, Eliana Rangel apresenta figuras relacionadas à infância e às memórias afetivas, extraindo leveza de temas familiares – animais, crianças, brinquedos. Aos poucos, sua obra se dirige à abstração, com notada atenção à cor, às linhas e formas para composições que seguem também a busca por uma síntese formal capaz de traduzir uma essência.

Márcio Sampaio, que foi casado com a artista, afirma que as composições seguiam a intuição e destaca o papel da cor nas telas que criava. Na exposição, uma grande série é dedicada a composições inspiradas em signos gráficos indígenas e africanos, explorando formas geométricas de grande ritmo e força plástica. Para Sampaio, há nesta fase uma busca pela espiritualidade, ao mesmo tempo em que recupera “a força dessas manifestações culturais genuínas”, essenciais para a construção da alma brasileira. “Ela investiga essa signografia usando cores fortes, buscando reinterpretar os elementos ritualísticos da cestaria, da pintura corporal, trazendo para a tela as pulsões da cultura negra e indígena”, aponta.

Sampaio destaca o caráter de simulacro dessas pinturas, que se parecem com pedaços de madeira e são  elaboradas a partir de técnicas bem particulares. Nesse sentido, não se trata de uma representação, mas de uma explícita busca pela recriação de um objeto em outra dimensão.

Outro aspecto particular do trabalho de Eliana Rangel é a materialidade das telas, já que ela utiliza variados procedimentos para obter textura e volume nas pinturas. Sampaio conta que a artista se dedicava ao trabalho com intensidade, num corpo a corpo com a pintura, em que acrescentava massa de parede, cobrindo-a com panos molhados e fazendo incisões repetidamente para alcançar o resultado desejado. Como o irmão Nello Nuno, seu percurso também persegue uma síntese formal, mas com um sentido de transcendência e espiritualidade próprios.

PAISAGEM

O branco escorre pelos verdes em enxurradas sinuosas
O verde ladeia e contorna fugidio das casas
O rio escorrega e tropeça e cai rindo.
Ouro Preto vai surgindo um branco, um verde, um verde, um branco
Em banda de música dança e canto
O céu entorna nuvens e a montanha desaparece nas brumas.
Um sino, o homem e o menino se tornam em pedra
Sentinela no alto da montanha Itacolomi.

Nello Nuno, Ouro Preto, 1971


Carta a uma criança sexagenária

Criança detesta o sorriso do gato da Alice,
aparece e desaparece tão de repente, num
momento está ali e, no outro, onde está?
É um sorriso dissimulado.
Criança não sabe o que é dissimulado.
Criança só percebe o que é visível, bem claro,
bem aparente.

Transparente é igual invisível?

Criança é transparente?

Eliana Rangel, sem data

CONSTRUÇÕES AFETIVAS – NELLO NUNO E ELIANA RANGEL
Abertura nesta terça-feira (6), às 19h, com lançamento dos livros Nello Nuno: a poética do cotidiano e Eliana Rangel: construções afetivas, de Márcio Sampaio. Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. De terça a sexta, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h. Entrada franca.

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