Belo Horizonte tem neste sábado a 3ª edição do Circuito 10 Contemporâneo

Dez galerias apresentam programação especial para debater e promover o mercado de arte

por Walter Felix 03/03/2018 10:41
José Luiz Pederneiras/divulgação
Foto de José Luiz Pederneiras que compõe, com a trilha de Tavinho Moura, o audiovisual Paixão e fé, obra de 1974 restaurada pela AM Galeria (foto: José Luiz Pederneiras/divulgação)
Dez galerias, 10 exposições e infinitas possibilidades. É o que propõe o Circuito 10 Contemporâneo, ação que conecta algumas das maiores casas dedicadas às artes visuais da cidade com objetivos em comum: promover debates sobre o mercado, ampliar o público e estimular profissionais da área. Realizado pela primeira vez no ano passado, a iniciativa chega hoje à sua terceira edição.

As galerias AM, Beatriz Abi-Acl, Celma Albuquerque, Dotart, Lemos de Sá, Manoel Macedo, Murilo Castro, Orlando Lemos, Quadrum e Studio Cícero Mafra funcionam em horário ampliado neste sábado, das 11h às 18h. A proposta é que os visitantes possam transitar entre os 10 locais participantes, conferindo as atrações especiais programadas para a ocasião.

“É uma proposta muito rica por dar ao público a oportunidade de apreciar 10 projetos com propostas tão diferentes”, afirma a galerista Flávia Albuquerque, responsável pelas exposições da Celma Albuquerque Galeria de Arte. “O circuito movimenta as pessoas interessadas em arte que, por questões da vida moderna, às vezes ficam acomodadas. O projeto anima esse público e, com a divulgação conjunta, a visita a uma galeria acaba gerando um interesse pelas outras”, completa a profissional. Flávia conta ainda que duas edições do 10 Contemporâneo estão previstas para esse ano. No futuro, a iniciativa buscará abranger mais cidades.

Sarah James/Divulgação
Tatiana Blass mostra na Celma Albuquerque Galeria cerca de 20 obras inéditas na exposição Vitrine algodão: Boneco sem descanso (foto: Sarah James/Divulgação)
Para esta ocasião, a Celma Albuquerque Galeria de Arte realiza exposição individual da artista Tatiana Blass, paulista que vive em Belo Horizonte. Cerca de 20 obras inéditas incluem pinturas em guache sobre telas de algodão cru, vidro e papel. Os trabalhos dialogam com a pesquisa de Tatiana em torno do universo teatral, abordando como os atores podem ser absorvidos pelo espaço ao seu redor. Outra inspiração foi a grande vitrine transparente da galeria, que levou a artista a reflexões sobre aparência e questões sociais. Em duas intervenções, Tatiana apresenta sapatos incrustados em um piso de cimento e dois manequins de cera que se derretem com o calor do refletor que incide luz sobre eles.

Completam a mostra três vídeos da série Desprofissões, criada em 2016. Em cada obra, um profissional subverte sua atividade: um lavador de carros suja o automóvel com água e barro; uma manicure passa esmalte em toda a mão de sua cliente; e um pichador passa por cima de pichações um spray com a mesma cor da parede. Os trabalhos permanecem em exposição no local até 7 de abril.

PAIXÃO E FÉ Proprietária da AM Galeria de Arte, Ângela Martins entende o 10 Contemporâneo como um projeto fundamental para o fomento das galerias em Belo Horizonte, que carecem de maiores incentivos. Ela compara a cidade com São Paulo, que desponta no cenário nacional pelos museus focados em arte contemporânea. “O paulista compra arte porque tem acesso à arte, algo que não ocorre aqui. As pessoas precisam ver arte para querer arte. O incentivo deveria ser um trabalho do governo, mas resolvemos nos unir para tentar nos fortalecer”, afirma.

O local exibe hoje uma obra de importância histórica para a cultura mineira. A parceria entre o fotógrafo José Luís Pederneiras e o músico Tavinho Moura, que deu origem a uma obra audiovisual em 1974, será retomada pela AM Galeria. Fotografias da Procissão do Senhor Morto, em Diamantina, acompanhada por trilha sonora feita sob medida, formam Paixão e fé, obra que, na época, foi exibida com duas projeções de slides que se sobrepunham.

“O trabalho foi montado no Rio de Janeiro, em Ouro Preto e nunca mais foi visto. Por mais de 40 anos, ficou guardado na coleção da Funarte”, revela Manu Grossi, curadora da exposição. Premiado, o projeto audiovisual ganhou exposição no Palácio das Artes logo após seu lançamento e acabou dando origem a outra parceria entre mineiros. Encantado, Milton Nascimento encomendou a Fernando Brant uma letra baseada no trabalho de Pederneiras e Tavinho. Assim nasceu a canção homônima, imortalizada na voz de Bituca.

Para a nova exibição, a obra audiovisual foi reconstituída. Saem os antigos projetores de slides e entram cópias digitais, com máxima qualidade de som e imagem, mas totalmente comprometidas com a fidelidade ao produto original. Os visitantes poderão conferir ainda recortes de jornais da época referentes ao sucesso do trabalho, além da reprodução de um catálogo semelhante ao que foi vinculado na década de 1970.

Manu afirma que a obra ressurge em bom momento. “Esse audiovisual traz uma temática cultural e religiosa muito característica do interior. A fé do povo dialoga com o período de quaresma, propiciando um momento de reflexão e imersão”, diz. Ela classifica como única a chance de conferir uma obra que reverencia as raízes mineiras e que deu origem, inclusive, a uma canção que traduz tão bem esse universo. Além de hoje, Paixão e fé também poderá ser vista na segunda-feira, das 10h às 19h.

ESCOLA Vinte e cinco artistas integram as ações da Dotart Galeria neste sábado (3). Em um dos salões, os visitantes poderão conferir performances e pinturas feitas em tempo real na ocupação Cisco, lasca, triz, enquanto no segundo salão, na mostra Raiz forte, ficarão expostas obras que integram o acervo da galeria. Quem for ao local poderá ver produções de Arthur Camargos, Davi de Jesus do Nascimento, Estandelau, Marco Paulo Rolla e Noemi Assumpção, entre outros artistas.

Para Leila Gontijo, proprietária da Dotart, o circuito torna mais convidativo o programa, muitas vezes solitário, de ir às galerias para ver arte. O diretor artístico do local, Wilson Lázaro, reflete que o fortalecimento das galerias requer, também, o fortalecimento de seus artistas. “Entendo as galerias como grandes instituições que comercializam obras de arte, mas que também devem ter um compromisso com a criação e uma relação próxima com os artistas”, afirma.

Na ocupação Cisco, lasca, triz, cada profissional terá a liberdade de criar sua obra, podendo inclusive pintar as paredes do local, além da possibilidade de bate-papo com os presentes. “O objetivo da ocupação é mostrar o que está acontecendo em Belo Horizonte em termos de criação. A ideia é trazer o ambiente de uma escola de arte para dentro da galeria”, revela Wilson.

Já Raiz forte reúne trabalhos de ex-alunos e atuais professores da Escola Guignard, além de outros importantes nomes para a cultura da cidade. Ambas as ações permanecem abertas à visitação na próxima semana, de segunda a quarta-feira, das 9h às 19h.

INVESTIDORES A galerista Flávia Albuquerque afirma que a crise atravessada pelo país é inegável e atinge também o mercado das artes plásticas. Uma situação que, segundo ela, não é incontornável. “Algo muito interessante nesses momentos é que nós ficamos mais criativos. Há uma vontade de fazer o melhor justamente para que se possa ultrapassar esse período da melhor forma possível”, observa.

Em meio ao caos econômico, Ângela Martins nota uma mudança no perfil dos clientes da AM Galeria. “As pessoas começaram a ver as artes plásticas como um mercado de investimento, não mais de decoração”, observa. Nesse movimento crescente, ela reforça a importância de se adquirirem obras diretamente nas casas especializadas. “Arte se compra em galeria de arte. Somente uma galeria faz o currículo do artista. Só o artista da galeria de arte vai se valorizar no mercado, porque nossa preocupação é com o currículo. Investimos em exposições que não são comerciais, além de projetá-los para mostras coletivas e experiências no exterior”, enfatiza.

Ela afirma que sua galeria busca fomentar novos artistas, ainda que os profissionais com carreira estabelecida tenham maior destaque no mercado. “Sempre aconselho investir em jovens artistas, porque desta forma ele pode-se acompanhar o currículo daquele profissional ao longo da vida”, afirma.

Leila Gontijo, da Dotart Galeria, observa que os colecionadores costumam optar por artistas de maior renome, mas o investimento em iniciantes não necessariamente configura um negócio arriscado. “Os curadores das galerias acompanham os artistas desde cedo e conseguem dizer quais têm potencial. Muita gente investe em novos nomes porque sabem que, no futuro, terão grande valorização”, diz.

A importância da valorização dos novos profissionais para a constante reinvenção artística no setor também é destacada pela galerista da Celma Albuquerque. “Acredito muito no movimento do novo e na função das galerias de trazer novas questões, promover novos artistas e ajudar em suas carreiras e perspectivas de futuro”, opina Flávia.

CIRCUITO 10 CONTEMPORÂNEO
  • AM Galeria: Rua do Ouro, 136, Serra. (31) 3223-4209.
  • Beatriz Abi-Acl: Rua Santa Catarina, 1.155, Lourdes. (31) 3291-2101
  • Celma Albuquerque: Rua Antônio de Albuquerque, 885, Lourdes. (31) 3227-6494.
  • Dotart: Rua Bernardo Guimarães, 911, salas 8 e 18, Funcionários. (31) 3261-3910.
  • Lemos de Sá: Av. Canadá, 147, Jardim Canadá, Nova Lima. (31) 3261-3993
  • Manoel Macedo: Rua Lima Duarte, 158, Carlos Prates. (31) 3411-1012
  • Murilo Castro: Rua Benvinda de Carvalho, 60, Santo Antônio. (31) 3287-0110
  • Orlando Lemos: Rua Melita, 95, Jardim Canadá, Nova Lima. (31) 3224-5634, (31) 3581-2025.
  • Quadrum: Av. Prudente de Morais, 78, Cidade Jardim. (31) 3296-4866.
  • Studio Cícero Mafra: Rua Xingú, 487, Alto Santa Lúcia. (31) 3296-4246.
Hoje, das 11h às 18h. Entrada franca. Informações: www.10contemporaneo.com.br.

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