Livros de Marcelo Montenegro e Fabrício Corsaletti desvendam a poesia que se esconde no dia a dia

Cinema, cultura pop e cenários urbanos marcam as obras recém-lançadas 'Perambule' e 'Forte apache'

por Nahima Maciel 28/02/2018 10:35

Renato Parada/Divulgação/YouTube/Reprodução
Dupla lança os livros 'Perambule' e 'Forte apache'. (foto: Renato Parada/Divulgação/YouTube/Reprodução)

É das pequenas coisinhas do dia a dia, do banal e rotineiro que Marcelo Montenegro e Fabrício Corsaletti se alimentam. É um alimento nutritivo, responsável por dar vida e força a versos e crônicas que figuram entre o melhor da produção contemporânea. Com os recém-lançados Perambule e Forte apache, Fabrício e Marcelo apontam para uma geração capaz de transformar o despercebido em essencial.

Montenegro há muito abandonou o posto de iluminador e operador de luz e som no teatro para assumir o de roteirista. É dele uma das penas por trás de Lili, a ex, adaptação das tirinhas de Caco Galhardo para o canal pago GNT; O negócio, produção da HBO; e O sítio do pica-pau amarelo, da Globo. A poesia, no entanto, nunca ficou de lado. Forte apache reúne três livros do autor. Além do volume homônimo, inédito, estão lá Garagem lírica, de 2012, e Orfanato portátil, de 2003.

 O poeta tem no cinema e na música as primeiras referências literárias e justamente por isso produz versos coalhados de citações. É uma poesia imagética, quase cinematográfica. Montenegro leva o leitor para um passeio quando escreve “duas pessoas/ que quase se reconhecem/ mas seguem adiante/ sem olhar pra trás” ou “lembro as pausas,/ a música dos seus braços,/ o cabelo tirado do rosto/ no momento exato”.

Como ele mesmo lembra, “poetas moram dentro de seus poemas” – no seu caso específico, a moradia é um pequeno forte apache, brinquedo de infância com o qual costumava reinventar o mundo à moda de Truffaut e seu “cinema de quartinho dos fundos”.

Para Marcelo Montenegro, Ramones é tão importante quanto João Cabral de Melo Neto, e Murilo Mendes está na mesma prateleira de Itamar Assumpção, o que acaba por transparecer em sua poesia. “Nunca gostei de universos muito circunscritos, de escritores que só falam para escritores, de músicos que só falam pra músicos. Sempre gostei de fazer pontes”, avisa. “Faz parte da minha formação essa diversidade de formato, isso de não ser uma poesia muito voltada só para a poesia.”

A música também tem lugar importante na vida do poeta de São Caetano, cidade do ABC paulista que, desde 2005, apresenta o espetáculo Tranqueiras líricas em parceria com o músico Fábio Brum. Agora, ele lança o disco gravado a partir de Forte apache. Mas não, Montenegro não faz poesia para ser falada. É para ser lida mesmo.

A linguagem cinematográfica, cheia de cortes e referências, atrai o leitor sem nunca comprometer a qualidade literária. “Minha preocupação é com a linguagem”, avisa o poeta. “Você dialogar com a cultura pop, na minha visão, não superficializa o poema.” É como tirar a poesia do sério e, eventualmente, até despenteá-la com a prosa – imagem roubada de uma entrevista do português António Lobo Antunes e inserida no poema Carpintaria revisited.

Montenegro introduz prosa na poesia com muita liberdade, faz o leitor se sentir à vontade para encontrar ali o descabelamento que quiser. “Se você tem essa prosa de status mais realista e insere pitadas de poesia, acaba despenteando a prosa. No meu caso, é o contrário”, adverte.

HUMOR E LIRISMO A disponibilidade para o prosaico no cenário urbano dá vida à escrita de Fabrício Corsaletti. Autor de quatro volumes de poesia reunidos em Estudos para o seu corpo, ele desembarca nas livrarias com Perambule, reunião de crônicas publicadas em jornais e revistas entre 2014 e 2017. É um conjunto de textos muito atraente, que imediatamente transporta o leitor para um dia a dia paulistano em que não faltam humor e lirismo, combinação essencial para o autor quando se trata de classificar um texto como crônica.

Corsaletti captura o leitor desde o primeiro texto e comete uma espécie de sequestro interior: difícil largar o livrinho de 157 páginas antes de chegar ao final. Não que algo extraordinário vá ocorrer entre a primeira e a última crônica, se extraordinário for, para você, um desfecho genial para cada texto.

O genial, no caso, é a capacidade do autor de mergulhar o convidado num universo de acontecimentos desimportantes, mas cheios de poesia. “Dificilmente dá pra fugir desse tema cotidiano tratado com um pouco de humor e de poesia. Não são os grandes temas do romance ou os temas mais essenciais da poesia” reconhece.

A poesia, universo ao qual o nome de Corsaletti é comumente associado, é tema de alguns momentos muito delicados das crônicas. É pela poesia e pela escrita que ele se conecta com o mundo. “Se não estou escrevendo nada, sinto-me desconectado de tudo, preso em mim mesmo. É o contrário da imagem que as pessoas têm de que quem escreve fica sofrendo isolado. Quando estou num bom momento de escrita, fico muito mais comunicativo, aberto para o outro, disponível, porque é como se fosse destravando a minha própria loucura, a própria solidão. Escrever é entrar em contato com as coisas, não o contrário”, avisa.

Trata-se de uma relação tão séria e dependente que algumas coisas só são reconhecidas pelo autor quando ele consegue escrever a respeito. Marcelo Montenegro, de 46 anos, e Fabrício Corsaletti, de 40, fazem parte da mesma geração e se reconhecem nesse espaço. Há, inclusive, citações de um e outro em Perambule e Forte apache.

 

PERAMBULE
. De Fabrício Corsaletti
. Editora 34
. 159 páginas
. R$ 38

FORTE APACHE
. De Marcelo Montenegro
. Companhia das Letras
. 120 páginas
. R$ 39,90

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