'Virei menina já na menopausa'

Atriz transexual Nany People conta sua história, diz que a maturidade lhe ensinou a fazer as escolhas certas, critica a busca por fama a qualquer custo e as intrigas da comunidade LGBT

por Helvécio Carlos 24/02/2018 20:03
Helvécio Carlos/EM/D.A Press
(foto: Helvécio Carlos/EM/D.A Press)

Nany People é uma metralhadora giratória. Ora com bom humor ora com seriedade, nada escapa à mira da mineira que nasceu em Machado, foi criada em Serrania e morou em Poços de Caldas até a adolescência. A atriz transexual, de 51 anos, foi drag queen por mais de 10 anos e só mudou de sexo aos 37, fala sobre o universo LGBT, as redes sociais e a lógica, às vezes perversa, do showbiz.

“Virei menina, já na menopausa, mas já estava tão fundamentada que não teve aquele óóh.” No entanto, Nany conta a dificuldade de aceitação das trans na própria comunidade LGBT. “É na vida gay que existe o maior ranço com a gente. Gay não suporta bicha pintosa, que não suporta sapatão, que não suporta travesti. Ninguém se entende e querem respeito à diversidade?”

E cita como exemplo a manifestação contra a atuação do ator Luis Lobianco no espetáculo Gisberta por interpretar uma transexual. “Por que um ator não pode fazer uma trans? O ator pode ser o que quiser. Isso (a manifestação contra Lobianco) é ignorância. Tudo que segrega é terrível”, argumenta. “O que as pessoas precisam entender é que a condição sexual não está avante de seu caráter. Se a gente pudesse escolher ser uma coisa, escolheria o mais viável, o menos doloroso, o mais fácil. Ser trans é muito difícil. Mas estamos caminhando para uma evolução. O modo como o tema foi tratado em A força do querer (novela de Glória Perez) foi maravilhoso.”

Ela reconhece que Pablo Vittar é maravilhoso pelo alcance e projeção midiática – “isso é inquestionável” –, mas quando o papo é a música da drag queen, Nany diz que para quem teve “Boy George (artista britânico que fez sucesso nos anos 1980 com o grupo Culture Club) como musa não dá para comparar com Pablo Vittar”.

As redes sociais também não foram poupadas pela atriz. “Não acredito em um lugar (o Facebook) em que todo mundo te cutuca e ninguém te come”, ironiza, emendando uma sonora gargalhada. Com a política, Nany está descrente. “Tem que haver um cataclismo para matar todo mundo. Ninguém usa da verdade de intenção. Não há sinceridade nas ações. Somos um país feito na base do pequeno favor. ‘Vou te dar tanto, para levar tanto’. No país existe a péssima mania de fazer uma obra em que um quinto é destinado para obra e os outros quatro quintos são desviados. Assim não funciona. Isso está difícil.”

Presa fácil A atriz diz ter recebido convites para se candidatar a deputada em São Paulo e no Sul de Minas, mas nunca aceitou. “Meu negócio é o palco, não o plenário. Não sei mancomunar, não sei fazer a linha ‘nem contra, nem a favor’. Seria presa fácil. Se me fizessem uma proposta indecente, botaria a boca no trombone e seria assassinada como Celso Daniel (prefeito de Santo André morto em 2002).”

Considera que a noite no país inteiro sofreu grande mudanças. A culpa, segundo ela, é a droga química. “A estrela da noite é o DJ e as pessoas usam droga para se sentirem como parte da música. O jovem acha que pode tudo, a juventude dá esse falso poder. Estão sendo corroídos pela droga. Vai ter que morrer muita gente em rave (festas de música eletrônica) para ver que estão brincando com fogo.” Com calma, pondera, que “o tempo mostra que você não precisa de muita coisa para viver bem”. “O tempo ensina que as vezes você pode, mas não deve. Ou se deve, não precisa. Você se arma de conhecimento e cultura e não de abrir Facebook para ver quem curtiu.”


Ela continua. “Tudo mundo acha que, da noite para o dia, vira Kefera (uma das mais famosas youtubers do país). Ou se não tem ofício, vira blogueiro. Internet deu voz a quem não tinha o que dizer. Tem coisas patéticas, que não dá para achar engraçadas”, detona.

A paixão de Nany com o Sul de Minas está na cara. Ou melhor, nas costas, onde tatuou a frase “Made in Poços de Caldas”. “Sai de Poços, mas Poços não sai de mim”, reconhece ela, que não abre mão de passar feriados de Natal e réveillon. “É essa hora que desço do salto, que vou comer pão de queijo com minhas amigas de infância – algumas já são avós – sentadas no beiral do alpendre. Rimos até de falar bobagem. Essa minha origem não deixou eu me perder no mundo.”

É na terra natal que Nany também mostra seu lado devota. “Sou uma trans carola”, diz, entre mais uma gargalhada, garantindo que acompanha as procissões de São Benedito e de Nossa Senhora da Saúde. “Tenho fé em Nossa Senhora de Fátima e uma Nossa Senhora Aparecida tatuada na nuca.”

Nany só conheceu Belo Horizonte aos 35 anos, a convite de Valkíria la Roche para uma apresentação na extinta casa noturna Josefine, que considera “um templo da noite em Belo Horizonte”. E foi em seu retorno à capital, no início do mês, quando veio coroar Valkíria La Roche, Ingrid Leão e Kayete na corte momesca do Baile dos Artistas, que Nany conversou com o Estado de Minas. Contou que emagreceu 22 quilos, depois ficar três meses sem ingerir açúcar, farinha, leite e derivados. “Quando você tira o açúcar, aprende a degustar as coisas e não fica tão acelerado. Por isso entendi porque, em festa de criança, parece que existem 10 Chuckies (personagem do filme O brinquedo assassino) em cada uma”, diz entre gargalhadas. Não é só a dieta que mantêm o corpo enxuto. “O tônus do balé permaneceu”, observa ela, que dançou durante 20 anos.

Nany não faz o tipo que só fica no “mimimi” e assegura não registrar débitos, só os créditos. “Se eu fosse contabilizar os não que recebi, não estaria aqui. O pior preconceito é o velado. É quando alguém do seu lado puxa seu tapete. Um produtor melou a ideia de um programa meu na televisão. Ele tinha poder, mas o mundo girou, fiz outras coisas e não carrego mágoas.

Em pouco mais de uma hora de entrevista, a atriz ficou emocionada ao lembrar da perda da mãe, que morreu vítima de câncer. “Ela me encorajou para a vida”, resume, contando que, dentro de casa, sempre teve apoio incondicional e muito amor. “Um dia, na escola, a diretora chamou minha mãe e perguntou a ela se não havia percebido um problema em mim. Veja você, aos 72 anos, minha mãe disse que aquilo não era problema, era minha condição e ela faria de mim a pessoa mais feliz do mundo. E fez!”, afirma com emoção.

Nany também fala com carinho dos irmãos – João Batista e José Henrique – e dos dois casais de sobrinhos – “somos confidentes, ajudei a formar os quatro” – e das tias Elvira e Clara Cunha de Souza. Lembra também de pessoas importantes para sua formação profissional. Cita Sebastião Navarro, que conseguiu uma bolsa de estudos para o Colégio Pio XII, “o mais burguês de Poços de Caldas”. Foi ali que, segundo ela, seus dotes artísticos foram despertados. A atriz também não esquece da importância de Eduardo Paiva – “mistura de Ratinho com Datena de Poços” –, que conseguiu outra bolsa de estudo, desta vez no Conservatório Musical Antônio Ferrucio Viviani. “Mas ele (Eduardo Paiva) morreu assassinado e até hoje o crime não foi solucionado.”

Aprendizado Aos pouquinhos, Nany foi ganhando os holofotes. Não se esquece do sabor de duas vitórias no início de carreira. A primeira como caloura no Cassino do Chacrinha, no qual ganhou dois aparelhos de televisão em duas apresentações. “Naquela época, ter uma TV em casa era o mesmo que ter um Iphone X.” A outra foi no concurso da Liga Poços Caldenses, quando faturou 500 cruzeiros.

No Sul de Minas, Nany ganhou a vida fazendo esquetes teatrais para empresas, festas infantis e, na época, como cantor de casamentos até o dia que decidiu embarcar em ônibus com destino a São Paulo. Daí em diante, o teatro, sua grande paixão, entrou para sempre em sua vida. Trabalhou como camareira do dramaturgo Ronaldo Ciambroni (autor, entre outros, de Acredite, um espírito baixou em mim), fez curso de interpretação na Unicamp, foi bilheteira no Teatro Paiol, diretora de cena de algumas peças de Nicete Bruno, trabalhou com Antônio Abujamra, e atuou em uma dezena de peças infantis. “Meu conhecimento empírico e cultural foi formado no Teatro Paiol.”

Vivia em São Paulo e tinha 26 anos quando decidiu realizar a cirurgia de mudança de sexo. Só não fez porque a mãe foi de Poços até a capital paulista e lhe pediu para não fazê-lo. Então, teria lhe dito: “Se vagina segurasse homem, seu pai não teria me traído com empregada da fazenda”. Foi na mesma época que Nany fez carreira como draq queen, se apresentando em casas noturnas entre 1993 e 1997. Neste ano, estreou na TV, contratada pela Rede Manchete para participar do Comando da madrugada, programa de Goulart de Andrade. Depois de circular por várias emissoras, se fixou por seis anos na atração da apresentadora Hebe Camargo. De lá, comandou programa de rádio e voltou aos palcos como estrela da peça Nany People salvou meu casamento, com texto encomendado ao mineiro Bruno Motta.

 

 

 

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