Nova edição de 'Os miseráveis' traz capítulos descartados do romance em 1862

Edição faz preciosas revelações sobre a relação de Victor Hugo com sua obra-prima

por Estado de Minas 20/02/2018 08:20
Etienne Carjat/reprodução -1867
(foto: Etienne Carjat/reprodução -1867)

Será que ainda há algo a aprender sobre Os miseráveis, monumento da literatura francesa e um dos livros mais conhecidos do mundo? Lançada recentemente na Europa, a nova edição da obra-prima de Victor Hugo (1802-1885) mostra que sim.

Coordenado por Henri Scepi, importante especialista em literatura francesa do século 19, o novo volume da prestigiosa coleção Pléiade da Editora Gallimard oferece preciosas revelações para fãs e estudiosos.

Nele, sabe-se que Victor Hugo hesitou por muito tempo até se decidir pelo título da saga. No início, ficou entre Les misères (As misérias ou As penúrias, em tradução literal) e Jean Tréjean, nome do herói da narrativa.

À medida que a história se desenvolvia, Jean Tréjean mudou de identidade. Transformou-se em Jean Vlajean até tomar, em março de 1861, o nome de Jean Valjean, o detento condenado a trabalhos forçados. Já Marius, amante de Cosette, outro personagem central do romance, virou Thomas, revela Henri Scepi.

Quando Victor Hugo começou a escrever o livro, em 1845, era membro da Academia Francesa, pair de France (título da nobreza) nomeado por Luis Filipe I. Porém, os eventos de 1848 – a Insurreição de Fevereiro e as Jornadas de Junho – obrigaram-no a deixar a escrita.

Eleito deputado em junho de 1848 e reeleito em maio de 1849 nas fileiras conservadoras, o escritor se afastou pouco a pouco de seu campo político, até denunciar, em 2 de dezembro de 1851, o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte.

Perseguido pela polícia, foi forçado a se exilar. O pair de France se tornou um desterrado. Morou em Bruxelas e em Jersey antes de se instalar em Guernsey. Enquanto isso, os rascunhos de Os miseráveis ficaram em caixas de papelão. Não que tivesse renunciado ao ofício. Pelo contrário. No exílio, Hugo escreveu Les châtiments, Contemplations e La légende des siècles.

Anistiado, mas ainda no exílio, o francês retomou Os miseráveis em abril de 1860, 15 anos depois de iniciar o livro. O romance foi publicado em 1862, em Bruxelas. O escritor tinha 60 anos. O lançamento da Gallimard se baseia nessa edição original.

Prefácios

Além do texto impressionante de Victor Hugo, o volume de 1.824 páginas é enriquecido com o Atelier des Misérables, com prefácios e projetos de prefácio redigidos por ele, assim como diferentes manuscritos. O material permite apreciar a evolução da obra ao longo de sua escrita. Há páginas descartadas do manuscrito, além de cenas e capítulos que não permaneceram na edição que chegou às livrarias.

A seção Images des Misérables, sob a direção de Dominique Moncond’huy, apresenta desenhos (incluindo os de Victor Hugo) inspirados no romance. Também traz o inventário completo de adaptações da obra para o cinema e o teatro. Entre elas está o musical Os miseráveis, encenado sem interrupção, em Londres, desde 1985. O clássico francês deu origem a filmes no Japão, Egito, Turquia e Vietnã.

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