'Confesso que perdi, mas foi roubado', diz Juca Kfouri sobre o Brasil

O jornalista participa do Sempre um Papo nesta terça-feira, 20, em BH. No livro de memórias Confesso que perdi, ele fala de política, futebol e corrupção na CBF

por Pedro Galvão 20/02/2018 08:20
 Renato Parada/Divulgação
(foto: Renato Parada/Divulgação)

“Passava férias na casa da minha avó, na Rua Guajajaras, ou no casarão onde minha tia morava, no Carlos Prates”. Nas memórias do paulistano Juca Kfouri, Belo Horizonte ocupa um lugar afetivo por ser terra de sua família materna. A cidade também foi palco do fatídico 7 a 1 sofrido pela Seleção Brasileira na última Copa do Mundo – a nona acompanhada pelo jornalista, de 68 anos, reverenciado como um dos maiores nomes da imprensa esportiva do país. Combativo e crítico às autoridades encarregadas da gestão desse esporte, Juca é o convidado da primeira edição do ano do projeto Sempre um Papo. Na pauta desta noite estará Confesso que perdi: Memórias, autobiografia em que relembra os quase 50 anos de atuação profissional e a marcação cerrada sobre as tabelas entre o futebol e a política.

Com a evolução da carreira, as passagens de Juca por BH se tornaram cada vez mais breves por conta da rotina jornalística. “Hoje, não reconheço mais nada quase. Frequentava BH quando ela cabia dentro da Contorno”, diz o jornalista, formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP), colunista da Folha de S.Paulo e comentarista do canal ESPN Brasil e da rádio CBN. No entanto, a capital mineira não escapa ao olhar do ex-diretor de redação da Placar, por muitos anos a principal publicação esportiva do país. Basta lembrar que, nos últimos cinco anos, os principais clubes locais, Atlético e Cruzeiro, ganharam as competições mais importantes do país e da América do Sul. A Libertadores, pelo Galo, e o Campeonato Brasileiro, duas vezes pela Raposa, além da Copa do Brasil, levantada pelos dois rivais, que também compartilham o fato de ter ex-presidentes em destacados cargos políticos.

Campeão continental com o Atlético, Alexandre Kalil (PHS) foi eleito prefeito de Belo Horizonte em 2016. Zezé Perrella (MDB), que teve o mesmo êxito no comando do Cruzeiro em 1997, cumpre mandato no Senado Federal desde 2011, depois da morte de Itamar Franco. “A existência política do Perrella é uma coisa que lamento. Ir a senador sem voto, como suplente do Itamar, foi uma jogada espúria do Aécio (Neves). Quanto ao Kalil, não acompanho a gestão de perto, não sei dizer se tem sido um bom prefeito. Sei que foi uma eleição absolutamente legítima, que contou com votos de muitos cruzeirenses. Isso me surpreende, porque ele sempre foi um dirigente provocador, nunca foi de conciliar rivalidades” avalia Juca.

O jornalista lembra também que Mauricio Macri, presidente argentino, projetou-se na carreira política depois de anos no comando do Boca Juniors, clube mais popular do país vizinho.

COMUNISTA


A proximidade entre a bola e os palanques sempre esteve na pauta de Juca Kfouri, conforme relata em seu último livro e em Por que não desisto: Futebol, poder e política, lançado em 2009. Em Confesso que perdi, ele descreve seus anos de militância comunista na Ação Libertadora Nacional (ALN), no começo dos anos 1970, quando se iniciava nas redações.

O jornalista testemunhou copas do mundo tanto sob a ditadura militar quanto durante o regime democrático. Triunfos e fracassos que, de alguma forma, reverberaram na vida política do país, conforme explica nas 248 páginas de sua autobiografia, nas quais descreve encontros com craques dos gramados e presidentes da República.

“Recebo muitas críticas de leitores do meu blog e de ouvintes da CBN, dizendo ‘você mistura muito, vim aqui pra saber de esporte’. Acho que essa é uma atitude cega, só não vê quem não quer. São situações delicadíssimas, em qualquer tipo de regime. Ditaduras usam o futebol, democracias também”, argumenta, lembrando que 2018 é ano de Copa e eleição. “Não há relação direta entre elas, uma desmente a outra. O Brasil ganhou em 1970, em plena ditadura, que tentou usar a vitória a seu favor. Mas a imagem que a história deixou foi a vitória de Pelé, Tostão e Rivelino. O Médici entra para a história como o ditador que mais torturou e matou. Em 1994, contraditoriamente, tenho pra mim que se o Brasil não ganha, o FHC não se elege. Ele se elege porque, além de o Plano Real dar certo, quando Ayrton Senna, o único herói brasileiro, morre, o país retoma seu amor próprio com o tetra. Em 2014, o Brasil tomou de 7 e a Dilma foi reeleita. Qual é a lógica? Não há. Mas separar tudo o que aconteceu no país em 2013 e 2014 e dizer que não houve relação com o futebol é não entender o que se passou aqui”, argumenta.

Sede da Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo em 2014, o país viu eclodir naquele período movimentações que culminaram no impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Paralelamente ao furacão político provocado pela Operação Lava-Jato, a cúpula da Confederação Brasileira de Futebol foi alvo de denúncias e investigações, com graves consequências – José Maria Marin, presidente da CBF entre 2012 e 2014, está preso desde 2015. No livro, Juca descreve detalhes dos processos políticos, muitos deles desastrosos, que envolveram a realização de megaventos esportivos no Brasil.

“Se você olha para o futebol brasileiro e o gap que se abre entre o que se faz na Europa e o que se faz aqui, a conclusão é que somos a segunda divisão do futebol internacional. E aí você vê que os três últimos presidentes da CBF estão complicados com a Justiça: um preso e outros dois sem poder sair do país, sendo que a estrutura não permite outras alternativas para o cargo. Enquanto isso, no Brasil, um golpe derrubou uma mulher contra quem não havia prova, e ela é substituída por um cara flagrado em gravações participando de esquemas de corrupção”, compara.

No livro, ele critica a atuação do governo Dilma Rousseff na condução da organização do campeonato mundial, lembrando os escândalos de superfaturamento de estádios e contratos escusos com construtoras.

RÚSSIA

Desde que lançou a autobiografia, em setembro, a Seleção Brasileira se recuperou, pelo menos nos gramados, e figura entre as principais candidatas ao título mundial na Rússia. O bom trabalho do técnico Tite, que, segundo Juca Kfouri, “olha para o futebol com olhos de prazer e não de guerra como seu antecessor, Dunga”, é avaliado com cautela pelo comentarista. Ele diz que o favoritismo, via de regra, não resulta em glórias para o Brasil nas copas e destaca a força das concorrentes Alemanha e França, além da Bélgica e da Argentina.

Fora das quatro linhas, a postura é inversa. Apesar do pessimismo destacado no próprio título do livro, Juca Kfouri persevera. “Para estar otimista neste momento do Brasil, você precisa de uma certa dose de alienação. Não consigo estar otimista, mas sempre gosto de citar o Gramsci, com aquela coisa de ser pessimista na análise e otimista na ação”, afirma, referindo-se ao filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

“Vejo o futuro imediato do Brasil com grande preocupação, mas isso não significa que desista dos meus sonhos. Como disse um amigo meu, confesso que perdi, mas foi roubado. Vou brigar até o fim para pelo menos empatar”, conclui.



CONFESSO QUE PERDI: MEMÓRIAS

>> De Juca Kfouri
>> Companhia das Letras
>> 248 páginas
>> R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)
>> Lançamento nesta terça-feira (20), às 19h30, no projeto Sempre um Papo. Auditório da Cemig. Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho. Entrada franca.

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