Na festa de 10 anos da Orquestra Filarmônica mineira, regente titular defende compromisso com qualidade

Fabio Mechetti cobra retorno do dinheiro público investido no grupo

por Pedro Galvão 17/02/2018 08:21
Bruna Brandão/divulgação
Com ingressos esgotados, dois concertos na Sala Minas Gerais celebrarão o aniversário da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (foto: Bruna Brandão/divulgação)

Uma ode à alegria e ao sucesso. Assim pode ser definido o concerto que celebra os 10 anos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com duas apresentações neste fim de semana. O programa repete o primeiro encontro com o público, em fevereiro de 2008, com a cultuada Nona sinfonia, de Beethoven, além do Hino Nacional e da Suíte Vila Rica. O regente titular, Fabio Mechetti, comemora as conquistas da companhia, mesmo nestes tempos complicados para o setor cultural.

“Os resultados que mostramos ao longo desses 10 anos comprovam e justificam o investimento na criação da Filarmônica. Nós nos comprometemos a realizar um trabalho de excelência de formação de plateia e de orquestra, reconhecida como uma das melhores do Brasil. Isso tudo dá muito orgulho para os músicos, os funcionários e todos que estão aqui desde o princípio”, afirma Mechetti. O maestro paulista já esteve à frente da Filarmônica da Malásia (foi o primeiro brasileiro a liderar uma orquestra na Ásia) e atua na Sinfônica de Jacksonville, nos EUA.

Desde 2008, a Filarmônica fez 731 concertos em BH, no interior de Minas e em outras capitais, além de estados brasileiros e no exterior. Apresentou-se para 950 mil espectadores. Embora a música erudita seja comumente associada à fatia mais elitizada do público, estratégias de popularização sempre foram preocupação, afirma Mechetti. Os ingressos para hoje e amanhã, que custam de R$ 50 a R$ 150, se esgotaram rapidamente. A orquestra vendeu 3,5 mil assinaturas para a temporada deste ano.

“Isso mostra receptividade, temos uma política de preços que não dá desculpas financeiras para as pessoas não se interessarem. Nosso concerto é mais barato do que um jogo de futebol”, defende Fabio Mechetti, ressaltando que essa relação é construída a longo prazo.

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
'Temos uma política de preços que não dá desculpas financeiras para as pessoas não se interessarem. Nosso concerto é mais barato do que um jogo de futebol' (Fabio Mechetti, maestro) (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )


ORÇAMENTO “Questão cultural não pode ser avaliada por um dia ou outro de sucesso, mas pela trajetória respaldada pela sociedade”, afirma o maestro. Anualmente, o governo estadual repassa R$ 18,3 milhões à Filarmônica (o mesmo valor de 2016 e 2017). O orçamento para 2018, de R$ 30 milhões, será complementado pela iniciativa privada e por recursos oriundos de bilheteria.

“A Filarmônica não foi criada com a ideia de ser mais uma orquestra, mas um produto de qualidade que justificasse o investimento e com resultado comprovado. Algo que se pudesse avaliar constantemente. Tanto governo quanto a iniciativa privada tiveram esse respaldo. É isso que falta a outras produções culturais do Brasil”, defende.

Em 2015, a Filarmônica ganhou um investimento público a mais: a Sala Minas Gerais, no Barro Preto, em BH, com acústica projetada especialmente para concertos e com capacidade para 1,5 mil pessoas. A obra custou R$180 milhões.

“A população não se importa quando vê gastos e resultados. O problema é quando há gastos e não há resultados. A cultura nunca teve vida fácil, o percentual de investimento é mais baixo e, na hora dos cortes, o setor é sempre o bode expiatório. Concordo que em momentos de crise é importante avaliar tudo o que está sendo gasto, mas há o reconhecimento do bom retorno da Filarmônica, da visibilidade dada à música de Minas Gerais, inclusive no exterior. Tudo isso é investimento benfeito”, pondera o regente. De acordo com ele, a Sala Minas Gerais é o melhor espaço para concertos do Brasil.

BEETHOVEN A Nona sinfonia, de Beethoven, que encampa a Ode à alegria, se encaixa no clima de comemoração dos 10 anos da Filarmônica. Para muitos, trata-se da maior expressão artística relacionada à felicidade e à celebração. “Além de ser uma obra-prima, ela reflete manifestações humanas que buscam a compreensão e a harmonia entre as pessoas. Foi usada em momentos como a Queda do Muro de Berlim e na abertura de Olimpíadas. Tornou-se uma obra musical e espiritual”, diz Mechetti.

Beethoven começou a escrever a peça em 1818, 12 anos após a invasão de Berlim por Napoleão e algum tempo depois do fracasso do imperador francês em Waterloo. Mechetti explica que a Nona sinfonia faz alusão à tirania. “Beethoven o admirava antes, como libertador, mas depois se decepcionou com Napoleão, viu que se tratava de um ditador. Há um trecho, uma marcha militar, com o tempo deslocado. Em vez de ser no um, é no dois, é ‘marcha manca’, uma crítica.”

Como só foi concluída e apresentada em 1824, quando o compositor havia perdido quase toda a audição, muito se especula sobre o quanto a obra original se aprimorou durante execuções ao longo dos séculos. “Atualmente, há uma chance maior de as obras serem melhor executadas. Nossos instrumentos são melhores, nossos músicos mais bem treinados. Não quer dizer que todas as execuções sejam melhores, mas se ele (Beethoven) pudesse escutá-la hoje, seria muito mais feliz do que naquela época, quando estava praticamente surdo”, diz Mechetti.

A obra-prima de Beethoven traz boas lembranças para o maestro. “Quando a gente acabou nosso primeiro concerto, em 2008, fomos muito aplaudidos. Uma pessoa da plateia falou pra mim que nunca tinha visto a Nona tão bem executada. Respondi que seria o pior concerto que ela veria da nossa orquestra, justamente porque foi o primeiro. Seria muito difícil ter um produto acabado já naquela época. Hoje, o time está jogando junto há mais tempo. E temos a Sala Minas Gerais, agregado importantíssimo nessa história de sucesso. Com certeza, hoje está melhor do que naquela época”, garante Mechetti.

Completam o repertório o Hino Nacional, de Francisco Manuel da Silva, e a Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri. “O Hino faz parte do programa por ser uma festa da orquestra. Já a Suíte Vila Rica é uma homenagem a Minas Gerais, peça escrita sobre a antiga Ouro Preto com várias canções e danças folclóricas incorporadas ali. Nós nos preocupamos em ter a música brasileira em nossos concertos”, reforça o maestro.

Foram convidados para os concertos os cantores Gabriella Pace (soprano), Denise de Freitas (mezzo-soprano), Matheus Pompeu (tenor) e Licio Bruno (baixo-barítono). O calendário de apresentações pode ser acessado no site www.filarmonica.art.br 


ORQUESTRA FILARMÔNICA DE MINAS GERAIS
Concerto de 10 anos. Sábado (17), às 20h30, e domingo (18), às 19h. Sala Minas Gerais. Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto. Ingressos esgotados.

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