Eduardo Jardim lança 'Tudo em volta está deserto', ensaios sobre momentos importantes da cultura brasileira

Entre os assuntos estão o livro 'Quarup', o show de Gal Costa e a poesia de Ana Cristina Cesar

por Pedro Antunes/Estadão Conteúdo Nahima Maciel 05/02/2018 20:03

Seria possível eleger três momentos capazes de representar a cultura brasileira e seu impacto sobre uma geração em um recorte de 30 anos? O que sairia de uma análise dessas? O filósofo Eduardo Jardim se propôs a fazer o exercício e o resultado foi o curto e preciso Tudo em volta está deserto, um conjunto de três ensaios sobre manifestações culturais que mexeram com o autor.

Bazar do Tempo/Divulgação
O filósofo Eduardo Jardim aposta na distância do tempo para poder analisar os eventos históricos (foto: Bazar do Tempo/Divulgação)

Para Jardim, Quarup, o romance de Antonio Callado, Gal a todo vapor, o show catártico de Gal Costa, e a poesia de Ana Cristina Cesar foram emblemáticos para certos momentos da história do Brasil. Guardam um lugar nas décadas de 1960, 1970 e 1980 que só a distância temporal permite compreender. “Queria compreender o que tinha ocorrido. Pontuar o que tinha vivido. Acho que as coisas só são compreensíveis quando contadas. Não pensei em tirar nenhuma lição. Não acho que se pode usar para entender o que acontece hoje. Cada momento tem que ser contado como foi e não se repete. Mas precisa ser contado para ser compreendido. Compreender é muito importante para a vida fazer sentido”, diz Jardim.


Eleger manifestações capazes de causar o mesmo impacto neste início do século 21 é tarefa que necessita de tempo, afastamento e, sobretudo, um desligamento dos fatos contemporâneos para que o pensamento possa realmente emergir. Mesmo assim, Jardim olha para os dias de hoje com certo recuo. No entanto, ele elege alguns movimentos recentes que merecem destaque, como o rock dos anos 1990 e o funk. “Apareceram uma música e uma poesia popular nascidas das periferias, como o funk — que têm vida. E que vida! Própria! É possível que muitas coisas novas surjam daí, da criatividade das camadas da periferia”, aponta.

Eduardo Jardim leu Quarup pela primeira vez no final da década de 1960. O livro publicado em 1967 narra a trajetória do padre Nando, um idealista que sonha em reproduzir no Xingu a experiência dos jesuítas e acaba por se engajar na militância política. O romance cobre o período que vai da queda de Getúlio Vargas, em 1954, ao início da ditadura militar, em 1964. “O que é legal em Quarup é o fato de que essa proposta militante é vista de uma forma muito problematizada”, explica Jardim. “O cara está tentando buscar um retrato do Brasil, chega lá no retrato do Brasil, um formigueiro com formigas assassinas e tudo dá errado. O barato do livro é o fato de não ser uma resposta simples.”

Jardim não gosta de respostas simples e, por isso, aponta Ana Cristina Cesar como um ícone de uma geração. Diferentemente de Callado, a obra da poeta não faz concessões às conjunturas, e o filósofo tem especial apreço por esse detalhe.

 

Ana Cristina produziu nos últimos anos da ditadura e não chegou a ver a abertura política. O suicídio, em outubro de 1983, pode ter sido responsável por um certo isolamento da obra da autora nos anos seguintes. Mas Ana Cristina virou o ícone de uma geração e acabou homenageada na Flip de 2016. “Acho que ela é a possibilidade de, mesmo num momento tão difícil, duro, criar um projeto de exploração poética tão forte”, afirma o autor. Para ele, o fato de a escritora colocar a poesia acima de um engajamento político direto e circunstancial é algo muito peculiar.

Gal Costa foi um capítulo à parte da década de 1970. Jardim lembra que saiu do show impressionado. Era 1971, a ditadura nas mãos do general Médici. Quando Gal cantou Como 2 e 2, de Caetano Veloso, e chegou ao verso “tudo em volta está deserto tudo certo”, Jardim projetou o Brasil de então. “O show da Gal, para mim, é uma resposta, uma reação a uma situação de repressão política e de pouco espaço para expressão que é próprio desses primeiros anos da década de 1970. Tinha uma experiência de juntar um pessoal que vivia num mundo muito esvaziado de experiência e teve ali uma experiência catártica”, conta.

Hoje, o filósofo não consegue eleger três momentos na música e na literatura que sejam capazes de projetar um momento da história do Brasil. É preciso que o tempo passe para que se consiga um descolamento dos fatos e uma suspensão do pensamento. “Sinto também que da parte dos estudiosos começa a haver um movimento de revisão da nossa história cultural. Eu mesmo tentei escrever sobre o modernismo – Mário de Andrade – e este livro atual. Este é um importante momento de parar para pensar.Temos que rever a ruptura com o passado e auscultar o que aparecerá”, analisa.

ENTREVISTA
Eduardo Jardim, filósofo

A militância, o engajamento e o compromisso poético que estão nos três momentos escolhidos para o livro você encontra hoje na cultura brasileira do século 21?

Tenho tendência a ver cada momento como cada momento. Não dá pra gente entender o que está ocorrendo hoje com aqueles critérios. No caso da Ana, especificamente, é que esse movimento que a Ana faz de se deslocar de uma perspectiva mais presa às circunstâncias ou respondendo ao imediato para uma dimensão que é mais do poético, da imaginação, acho que isso vai ser sempre importante na medida em que, se a gente não tiver imaginação, a gente não vai formular nada de diferente.

Você enxerga uma preocupação semelhante à da Ana Cristina na poesia feita no século 21?
O que a Ana me inspira? O fato de ela ter possibilitado, se soltado de qualquer militância e ter dado algo para a imaginação. O que sinto que ocorre hoje em dia é que as conversas são muito presas no imediato, nos apelos mais circunstanciais. Às vezes, penso que isso empobrece a simulação das questões.

Existe alguma literatura hoje que lhe provoque o que Callado e Ana Cristina provocaram?
Não tenho lido nada que tenha me entusiasmado. Li as coisas do Bernardo Carvalho e me interessava, mas não li as últimas. Eu gostava do (João Gilberto) Noll, porque acho que ele também falava das coisas do nosso tempo de uma maneira que nunca estava satisfeito com as respostas que estão aí. Ele era um cara imaginoso, criativo, não se contentava com as respostas dadas. Ficcionalmente, ele inventava uma outra coisa. A Ana diz que a poesia é lidar com o impossível e o impossível é o real. Isso é incrível.

E na produção cultural de hoje, o que é transformador? Tem algo transformador sendo feito na literatura, na poesia e na música?
Acho que deve ter muita coisa. Há alguns anos, fui a Salvador a convite da Flup, feira literária da periferia. A gente foi a Salvador, em Alagados, e fomos recebidos por um grupo chamado Bagunçaço, um cara que tinha montado uma superorquestra de percussão com aqueles meninos em uma situação de absoluta pobreza, vulnerabilidade. Quando fui lá falar comecei a ficar arrepiado, chorar. A música muda a vida daqueles meninos. E isso são coisas que a gente nem vê. A gente não vê essas experiências que estão acontecendo nesses lugares com arte, com teatro, com poesia recitada.

Por que não vemos?

A gente é muito classe média, né? Vejo que tem coisas legais, sim. Por exemplo, eu vi recentemente um menino aqui no Rio, o Ramon Nunes Mello, um poeta, que fez uma coletânea de poemas sobre o HIV, uma coletânea bastante grande, meio que registrando a experiência do HIV desde o início, que era uma sentença de morte, até gerações mais jovens. Escrevi uma orelha para o livro. Então, tem iniciativas. Estou pensando em coisas que tenho visto e que não passam, necessariamente, pelos caminhos convencionais, mas acho que tem vida.

 


TUDO EM VOLTA ESTÁ DESERTO
De Eduardo Jardim
Bazar do Tempo
128 páginas
R$ 42

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