Em livro, jornalista mostra história de amor em meio à guerra na Síria

'Lua de mel em Kobane' relata vida de casal curdo que se conheceu via Facebook, se apaixonou, se casou, e voltou à Síria para trabalhar

por Mariana Peixoto 30/01/2018 09:32

Ocalan Iso/Divulgação
Barzan Iso e Raushan Khalil realizaram uma cerimônia simbólica de casamento em Diyarbakir, capital não oficial do território curdo na Turquia, antes de retornar para Kobane, viajando num carro funerário. (foto: Ocalan Iso/Divulgação)

Um fixer é a figura mais importante que um correspondente internacional pode ter a seu lado. Grosso modo, ele é uma figura local, que pode atuar como tradutor, motorista e fonte de conhecimento. Muitos deles são também jornalistas. Na cobertura de conflitos, pode ser ainda a pessoa que vai colaborar para a segurança do repórter – ou provocar sua desgraça, já que há casos de fixers que “vendem” jornalistas a grupos terroristas.

Pois em setembro de 2015, às vésperas de deixar a Turquia com destino à Síria em guerra (numa jornada complicada e perigosa), a jornalista paulista Patrícia Campos Mello descobriu que havia levado um bolo. O fixer que a acompanharia estava em outro trabalho.

Depois de um acerto de última hora e sem muitas referências sobre com quem trabalharia, Patrícia chegou à Síria. E lá encontrou o casal Barzan Iso e Raushan Khalil. Ele seria seu novo fixer, mas não só. O casal lhe apresentou uma história que acabou gerando, além de uma reportagem, o recém-lançado livro Lua de mel em Kobane (Cia. das Letras).

Barzan e Raushan são curdos. Ele é de uma família ativa politicamente em Kobane, cidade na fronteira com a Turquia, com população majoritariamente curda. Ela, de ascendência russo-curda, sempre foi apolítica. A guerra os levou para outros caminhos. Quando se conheceram por meio do Facebook, em abril de 2014, viviam a milhares de quilômetros de distância.

Para escapar da perseguição do regime de Bashar al-Assad, Barzan havia se mudado para Istambul. Raushan, por seu lado, abandonou o curso de direito em Aleppo para viver com a avó russa em Rybinsk, distante 300 quilômetros de Moscou.

Em poucas semanas de contato diário pela internet, eles se apaixonaram. Encontraram-se a primeira vez em Istambul. Em setembro de 2014, casaram-se em Diyarbakir, a capital não oficial do território curdo na Turquia – um casamento simbólico, já que eram estrangeiros vivendo ilegalmente no país.

ESTADO ISLÂMICO Recém-casados, decidiram ir para Kobane, onde Barzan esperava encontrar sua família. Lá chegando (boa parte do trajeto foi feita num carro funerário), em outubro de 2014, descobriram que a cidade era um lugar quase fantasma. Kobane estava sob o domínio do Estado Islâmico.

A história dos dois “é a vida na guerra apesar da guerra”, comenta Patrícia. Repórter especial da Folha de S.Paulo, com experiência em coberturas internacionais – ela atuou em conflitos no Iraque, Líbia e Quênia –, a jornalista tinha a intenção de chegar a Kobane para ir atrás da família do pequeno Alan Kurdi.

No início de setembro de 2015, o mundo parou para chorar quando a imagem do corpo do menino sírio de 3 anos encontrado na praia turca de Ali Hoca Burnu ganhou divulgação planetária. Alan, sua mãe, Rihan, e seu irmão mais velho, Galib, morreram numa travessia de bote. Tentavam ir da Turquia para a Grécia, seguindo o caminho de milhares de sírios em fuga da guerra. Somente o pai sobreviveu.

Os avós maternos de Alan viviam em Kobane, daí a jornada de Patrícia até a cidade, que ficou conhecida como símbolo da resistência curda. Entre setembro de 2014 e janeiro de 2015, Kobane ficou sob o jugo do Estado Islâmico – Barzan e Raushan permaneceram ali por quase três dos quatro meses em que a cidade foi atacada continuamente.

Lua de mel em Kobane
não é simplesmente uma história de amor em tempo de guerra. A partir dessa situação para lá de inusitada, Patrícia mapeia a guerra da Síria. Com uma extensa gama de informações – que incluem dezenas de notas, cronologia do conflito e glossário – o livro serve como uma imersão (para iniciantes e iniciados) em um conflito que completa sete anos em março sem sinais de arrefecimento.

“O livro traz uma história de amor, mas, se você não explicar quem são os curdos, sunitas, alauitas, não faz o menor sentido. A guerra da Síria é muito complicada. E é uma guerra de procuração, pois todas as potências têm interesse lá dentro. Além do mais, ninguém sabe quem são o curdos, porque eles não têm país. Há uma ignorância do mundo todo em torno deles”, afirma Patrícia.

Assim que decidiu escrever o livro, a jornalista voltou à Síria – em março de 2016. “Idealmente, queria ter ido uma terceira vez, mas, depois que fecharam a fronteira, ficou superdifícil entrar”, comenta. Na segunda viagem à região de Kobane, Patrícia e o fotógrafo Fábio Braga realizaram pelo menos 40 horas de entrevistas em vídeo – material que a jornalista ainda não sabe se vai aproveitar em um outro projeto. Mas, para finalizar o livro, já de volta ao Brasil, teve que se valer dos mesmos artifícios que Barzan e Raushan ao se conhecer. Foram muitas entrevistas via Whats-App e Facebook, sempre que a internet permitia.

Para Patrícia, o mais difícil de uma cobertura de guerra é conseguir ouvir todos os lados, “separar o que é propaganda de guerra e o que é fato.” Chegar aos lugares é sempre um grande complicador. “Nesse conflito, eu estava no lugar dos curdos porque consegui autorização. Se eu estivesse cobrindo o lado dominado pelo Assad, teria outra visão. Mas é importante fazer os retratos, mostrar a vida das pessoas na guerra, que elas continuam se apaixonando e vivendo, apesar das limitações.”

A narrativa de Lua de mel em Kobane vai até setembro de 2017. De lá pra cá muita coisa mudou – os curdos voltaram a ser atacados recentemente. Mas outras permaneceram as mesmas. Barzan e Raushan continuam juntos, atuando como repórteres, mas separados fisicamente pela guerra.

REFÚGIO NA FRANÇA Desde 2011, 4,9 milhões de sírios abandonaram, às pressas, seu país. A metade está na Turquia, enquanto outra parte se divide, principalmente, entre a Europa, Líbano e Jordânia. Joude Jassouma, de 34 anos, é um dos 10 mil sírios que conseguiram asilo na França.

Professor de francês, ele vive atualmente com a mulher e a filha em Martigné-Ferchaud, pequena cidade da Bretanha, no Norte da França. Eu venho de Aleppo (Vestígio/Intrínseca, 160 páginas, R$ 37,90) é o relato em primeira pessoa desse sobrevivente.

Escrito com a jornalista Laurence de Cambrone, o livro acompanha a saga do autor a partir de 2015, quando a guerra civil afundou a maior cidade síria. De Aleppo, Joude percorreu o roteiro habitual de milhões de refugiados: foi para a Turquia, para depois chegar à Grécia, na arriscadíssima travessia de bote inflável.

Dos campos de refugiados da ilha grega de Leros o professor relata sua trajetória até a chegada em território francês. Que é o início de um novo caminho. “Se tivesse apenas um desejo a formular, seria o de que, um dia, na França, ninguém mais me considere como um ‘refugiado’”, afirma Joude.

 LUA DE MEL EM KOBANE

Autora: Patrícia Campos Mello
Companhia das Letras (194 páginas)
Preço sugerido: R$ 49,90

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