No dia em que Affonso Ávila completaria 90 anos, o Pensar presta homenagem ao escritor

Dois textos inéditos destacam a importância do belo-horizontino e sua obra poética, crítica e ensaística

Até seu último livro de poemas, Égloga da maçã, publicado em 2012, ano de sua morte, Affonso Ávila permaneceu fiel a uma ideia de poesia como fazer crítico, que pressupõe uma relação tensa com aquilo que constitui a referência imediata para um artista, o próprio campo das artes, e com a sociedade em geral. Sua contribuição enorme como poeta, que até hoje não foi suficientemente avaliada, consiste num desmascaramento do presente histórico, das superfícies ideológicas, pela via do jogo, não apenas de palavras, mas da linguagem integralmente, do processo de “sinalização”, nos termos da Estética, de Lukács.

Já na sua estreia, em 1953, quando publica O açude e Sonetos da descoberta, o poeta revela a poesia como um discurso que não se compraz consigo mesmo, que não encontra sua razão de ser nas suas próprias particularidades literárias, digamos.  A silenciosa agonia que ali se entremostra constitui um sofisticado atestado de mal-estar num determinado mundo – o da arte poética sob a égide antimodernista da Geração de 45 – e também no mundo em geral, o espaço comum. A autoconsciência de poeta se revela, desse modo, desejosa de libertação de uma espécie de camisa de força, uma máscara, naturalizada na cena cultural.

Ao publicar Carta do solo em 1961, Affonso Ávila deu um salto qualitativo não só em relação à sua produção inicial, dado visível, mas também em relação à poesia brasileira praticada nos anos 1940 e 1950, tanto aquela de linhagem antimodernista, quanto aquela de linhagem vanguardista (concreta, neoconcreta). Carta do solo é um caso de estética à custa de ser um caso de geografia, de escrita de espaço, de produção de sentido a partir do tensionamento de um dado território, mais ainda: de territorialização da ideia de poesia, o que significaria, a partir dali, que poesia, para Ávila, efetiva-se como gesto materializante.

O aparecimento de Código de Minas & Poesia anterior (Civilização Brasileira), em 1969, permitiu que se percebesse a riqueza do processo poético de Affonso Ávila, a complexidade intrigante da sua obra. A fortuna crítica sobre o poeta mineiro cresce, cada vez mais, a partir dos anos 1970, com estudos breves e longos de grande importância, assinados por brasileiros e estrangeiros, como o espanhol Ángel Crespo, o português Alfredo Margarido, Benedito Nunes, Fritz Teixeira de Salles e Silviano Santiago. Consolida-se, nesse período, Affonso Ávila como strong poet, lembrando Bloom, como poeta forte, aquele que mais influencia outros poetas.

Com a publicação da antologia Discurso da difamação do poeta (Summus), em 1978, tendo um poema com esse título como carro-chefe, Affonso Ávila escancara o veio satírico da sua poesia de um modo que apenas na aparência é facilmente compreensível. A questão, se visada a partir do curso do processo de significação instaurado com Carta do solo, não se coloca de modo relevante a partir do horizonte do sujeito, que foi “superado” (hegeliana aufhebung, dir-se-ia), mas do objeto: o lugar, o espaço investe contra o poeta, com o que se explica toda a deriva “amoral” que marca a poesia de Ávila a partir dos anos 1980.

Poemas-livros como Masturbações (BH, Edições 1300, 1980), Delírio dos cinquent’anos (Brasília, Edições Barbárie, 1984) e O belo e o velho (Florianópolis, Editora Noa Noa, 1987), reunidos em O visto e o imaginado (Perspectiva) apenas em 1990, conferiram a Affonso Ávila o status de poeta político por excelência, rebelado contra um estado de coisas objetivas, que se atualizava – em virtude da ditadura militar (1964-1984), mas não só – num determinado lugar geográfico, numa cidade, mas que não eram coisas exclusivas desse lugar. A “amoralidade”, a decantação da “sacanagem”, é forma de resistência a uma moralidade burguesa que significa, na prática, a opressão dos diferentes, a eterna exclusão dos poetas da República.

A produção de Affonso Ávila de fins dos anos 1980 até 1991, reunida em A lógica do erro (Perspectiva) e publicada em 2002, contribui para que se veja, especialmente, o senso de objetividade do poeta, por um lado, e a base material desse senso, seu vínculo intenso com o espaço social, sua apreensão clínica dos antagonismos urbanos.  Objetivar tudo aquilo que é naturalmente excessivo – história, memória, vivência, sensação etc. – é nessa produção um modo de configurar a poesia como uma espécie de campo de tensões, que tem no sujeito social, não num abstrato sujeito transcendental, seu núcleo duro, sua referência de uma lógica paradoxal, errante.

Acentuado pela presença do autor em fotografias de 1947 e 1997, o traço de escrita-de-si aparece na segunda parte de A lógica do erro, intitulada  “Décade 7: dez odes joco-sérias”, de um modo bastante peculiar, sem qualquer pretensão a representar um domínio absoluto sobre o eu, sobre a experiência, sobre o passado. Esse aspecto perpassa as três últimas coletâneas publicadas pelo poeta – Cantigas do falso Alfonso El Sábio (Ateliê, 2007), Poeta poente (Perspectiva, 2010) e o citado Égloga da maçã (Ateliê, 2012) –, revelando-o na contramão de um tempo narcisista, acrítico, absurdamente coeso com o horizonte de sentido desmascarador, contraideológico, que definiu, ainda na juventude, como “destino” do seu gesto artístico.
 
A VIAGEM BARROCA  Ao contrário do que se pensa, nunca foi intenção do poeta e ensaísta Affonso Ávila se inserir na cultura brasileira como historiador ou fundador de uma nova concepção teórica sobre o Barroco no Brasil. Mas foi, como ele mesmo disse, em depoimento publicado a seu pedido na póstuma Barroco 20, uma feliz coincidência e uma motivação telúrica que já se adivinhava em sua poesia combativa e de denúncia política das raízes mineiras, especialmente os poemas confeccionados em plena ditadura militar. Neste momento trágico do país, Ávila encara um projeto que revolucionaria as ideias sobre a análise do Barroco, o estudo de dois documentos literários: Áureo Trono Episcopal e Triunfo Eucarístico, que viria a constituir o livro Resíduos seiscentistas em Minas – premiado duas vezes nacionalmente e publicado através do Centro de Estudos Históricos da UFMG.

A partir daí, a relação de Affonso Ávila com o patrimônio cultural dá uma guinada certeira em prol da militância profissional e decisiva na definição da política de preservação do patrimônio cultural mineiro. No ano de 1968, ao lado de Vinicius de Morais, Murilo Rubião, Domitila do Amaral e Eloy Heraldo Lima, foi um dos responsáveis pela criação da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop). Posteriormente, coordenaria a equipe de criação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG).

A revista Barroco nasce em 1969 com a intenção de cumprir o valor de uma ciência empírica de experimentação, ainda que com o necessário respeito histórico às fontes arquivísticas. Buscava-se uma criatividade que abarcasse o fenômeno/arte colonial brasileira às suas diversas intertextualidades e ao fundamento das ciências humanas comparadas – uma novidade na época. Ao mesmo tempo, o organizador do periódico, aliado ao pensamento de vanguarda, foge da linearidade evolucionista, ou de uma historicidade apoiada na evolução estanque de gêneros e escolas estilísticas, que nega a possibilidade de apropriações, contaminação e “sujidades” próprias das transplantações culturais. Afasta-se do conceito de barroco maior e barroco menor, relevando toda a produção do período.

Muitas críticas foram traçadas sobre a teoria de Ávila, especialmente aquelas que pretendiam desmitificar o mito, como se ele não compreendesse o mito como lugar da ficção do preenchimento do vazio, num país carente de memória e memorização.

No ano de 1971, Ávila nos brinda com um estudo ainda mais pertinente e inventivo – O lúdico e as projeções do mundo barroco, ressaltando o elemento lúdico nas formas de expressão do Barroco. Nesse livro, ele propõe três linhas de explicação do fenômeno: a ênfase do visual, o lúdico e o persuasório (não deixando de lado a influência ideológica da Igreja da Contrarreforma).

Ávila incrementa ainda o estudo das transplantações culturais. Entende o fenômeno como globalizante, uma sistematização de gosto e de estilo de vida, não apenas um estilo artístico formal, incluindo, além da arquitetura, pintura e escultura, o teatro, a literatura, a festa, manifestações populares até um senso de carnavalização da poética brasileira, que viria a ser confirmado pelos tropicalistas. Não persegue a origem, mas a originalidade dos modos de ser no mundo colonizado da América Latina.

Podemos acrescentar ainda estudos menores como Iniciação ao Barroco mineiro e a Circularidade da ilusão. Cabe destacar que parte da obra de Ávila, incluindo vários números da Barroco, encontra-se esgotada. Não seria esta data a oportunidade de reedição de sua obra ensaística? E a continuidade da Barroco 21, que está à espera de sensível patrocínio, que saiba reconhecer o valor da teoria como fundamento de uma consciência artístico- histórica?

Com a práxis e a lida diária patrimonial, Ávila também nos presenteou com o já clássico Glossário de arquitetura e ornamentação do barroco mineiro, que virou a bíblia dos pesquisadores em campo e voluntários da restauração, possibilitando a compreensão das diversas nomenclaturas tipológicas dos elementos formais do Barroco.

Não podemos esquecer que Ávila instigou a pesquisa entre jovens dos anos 1980/1990, nos quais me incluo, e colegas como Adriano Ramos, Adalgisa Arantes Campos, José Arnaldo Coelho de Aguiar Lima (precocemente falecido), Marcos Hill, Selma Melo Miranda, Rodrigo Duarte e Antônio Fernando dos Santos, entre outros.

Incentivou ainda a proteção do até então denominado barroco periférico, popular ou de centros menores com o tombamento de Itaverava e outras localidades do Vale do Piranga. Deixou ainda os inventários das comarcas de Minas, em que não ficou esquecida a desaparecida Bento Rodrigues (remontando à tragédia de Mariana), com as devidas recomendações de que aquele sítio não resistiria à demanda invasiva da mineração.

Não podemos deixar de reconhecer seus pares contemporâneos, como Myriam Ribeiro de Oliveira, Suzi de Melo, Benedito Nunes, Benedito Lima Toledo, Ivo Porto de Menezes, Silva Telles, Melânia Silva Aguiar, Reinaldo Gomes Machado, Haroldo de Campos, lembrando aqui apenas alguns dos precursores brasileiros. Não temos espaço suficiente para falar dos inúmeros colaboradores estrangeiros publicados em Barroco, seja através dos congressos internacionais ou nos Colóquios Luso-brasileiros de História da Arte, num vigoroso intercâmbio de estudos internacionais.

Reconheço entre os estudiosos atuais mais talentosos em Minas Gerais Márcia Almada, de vertente iconológica; em São Paulo, Carolina Tomasi, de matriz linguística, e Josoel Kovalski (Paraná), cuja releitura barroca das Américas coloca Ávila ao lado dos cubanos Lezama Lima, Alejo Carpentier e Severo Sarduy. O Barroco há de caminhar sob nossa persistência e os bons agouros do mestre autodidata Affonso Ávila – que, encantado, mantém-se vivo em suas ideias, entusiasmo e luta pela preservação histórica brasileira.
 
*Anelito de Oliveira é pós-doutor em teoria literária pela Unicamp, doutor em literatura brasileira pela USP e professor na Unimontes, autor, entre outros, de A aurora das dobras: introdução à barroquidade poética de Affonso Ávila (Inmensa, 2013). 
 
*Cristina Ávila é historiadora da arte e da cultura, diretora da revista Barroco e autora, entre outros, de A palavra no espelho: os reflexos da imagem no barroco mineiro

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