Jornalista mineira lança livro com a história não contada da boate Kiss

Em 'Todo dia a mesma noite' Daniela Arbex volta ao cenário da tragédia que matou 242 pessoas em Santa Maria por meio do relato de parentes e socorristas

por Mariana Peixoto 19/01/2018 09:35

Marizilda Cruppe/Divulgação
Fachada da boate Kiss, em Santa Maria, exibe grafite de protesto com o número de vítimas mortas na tragédia, ocorrida em 27 de janeiro de 2013. (foto: Marizilda Cruppe/Divulgação)

Como contar uma história já contada milhares de vezes? Fazendo diferente.

E é isso que a jornalista juiz-forana Daniela Arbex, de 44 anos, consegue com seu novo livro, Todo dia a mesma noite – A história não contada da boate Kiss. A obra chega às livrarias na mesma semana em que se completam cinco anos da segunda maior tragédia do país (em número de vítimas) em um incêndio. Duzentas e quarenta e duas pessoas morreram depois que um sinalizador disparado do palco da discoteca em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, fez o fogo se alastrar pelo local.

A madrugada de 27 de janeiro de 2013 é reconstituída por Daniela a partir das histórias de Vitória, Flávia, Gilmara, Guto, Lucas, Heitor, Thanise, Andrielle, Silvinho, Augusto. Todos eles foram vítimas da Kiss. E muito jovens. Todos filhos de pais e mães que, pela primeira vez, contaram suas histórias. Não somente uma história de dor, mas uma história que reúne relatos do primeiro namoro, um sapato de salto comprado para ir à festa, uma amizade que vem desde a infância, uma vitória na faculdade. “É um livro sobre humanidade, não é de heróis e vilões”, afirma Daniela.

 

 

De acordo com a jornalista, para lidar com o luto, Santa Maria escolheu o silêncio. “Isso, para mim, é um trauma. A cidade não consegue falar sobre isso, é como se tentasse dizer que não aconteceu. E quem quer lembrar incomoda”, comenta a jornalista.


Autora de duas obras referência (e premiadas) do jornalismo investigativo – Holocausto brasileiro (2013), sobre o genocídio cometido pelo Estado em um hospital psiquiátrico de Barbacena, Campo das Vertentes, e Cova 312 (2015), que ajudou a localizar o corpo de um militante morto pela ditadura –, Daniela admite que o livro sobre a Kiss foi seu maior desafio. Pelo menos até agora.

Sem qualquer relação com a cidade gaúcha, ela diz que não escolheu, mas foi escolhida pela história. No início de 2016, um colega radialista insistiu para que Daniela procurasse uma enfermeira de Santa Maria – ironicamente, de todas as pessoas procuradas pela jornalista, a enfermeira foi a única que se recusou a falar sobre a tragédia.

Ao longo de dois anos, Daniela visitou a cidade gaúcha em cinco ocasiões. Fez uma centena de entrevistas (as transcrições redundaram em 5 mil páginas). No livro, 180 pessoas são citadas. Cinquenta delas atuam como personagens.

FOCO Inteligentemente, a jornalista escolheu como foco as vítimas e as pessoas que participaram ativamente do salvamento. O processo de 20 mil páginas (que ela leu de cabo a rabo), as investigações, as reviravoltas do caso (alguns pais chegaram a ser processados pelo Ministério Público; os acusados respondem hoje em liberdade) são deixados para a parte final. “Existem várias formas de se fazer uma denúncia”, diz ela, que fez uma escolha aparentemente simples: dar voz a quem não foi ouvido.

A estrutura de Todo dia a mesma noite é quase a de um thriller. Com escrita precisa, sem apelar para clichês ou pieguice, Daniela reconstitui a noite de 27 de janeiro por meio das lembranças de quem participou direta (os profissionais da saúde e sobreviventes) ou indiretamente (os parentes dos mortos) do episódio.

O livro tem início com o médico do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) Carlos Fernando Drummond Dornelles sendo acordado de madrugada para ir até a Kiss. Até o momento em que ele chega ao local, ninguém sabia da dimensão do incêndio. Além do médico, outro dos primeiros a chegar à Kiss é o comandante de Socorro do Quartel do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, sargento Robson Viegas Müller, e a enfermeira Liliane Espinosa de Mello Norberto Duarte, capitã no Hospital da Brigada Militar da cidade.

A partir da reconstituição dos momentos iniciais pós-tragédia, Daniela chega às vítimas. Conta como uma a uma chegou à noite fatal. São histórias de vida, frases literais, contadas pelos próprios pais. A escrita é fluida e precisa, qualidades essenciais para um bom relato jornalístico. Mas, por vezes, a leitura de Todo dia a mesma noite se torna difícil, dada a dimensão da tragédia.

A autora também sofreu muito durante o processo. “Quando comecei o livro, meu filho tinha 4 anos. Como ficava muito tempo longe de casa (fazendo as entrevistas em Santa Maria), desenvolvi o medo de perdê-lo. Foi uma coisa meio doentia, tanto que, pela primeira vez (ao escrever um livro) precisei de ajuda especializada. Mergulhei fundo na dor daquelas pessoas. Vivi um luto a ponto de meu marido dizer que, ou eu acabava o livro, ou ele acabava comigo”, conta a autora.

Daniela volta a Santa Maria nesta semana para lançar Todo dia a mesma noite. Na última vez em que esteve na cidade, em maio de 2017, ela fez uma leitura do livro para cada um dos personagens da história (prática que a jornalista utiliza em cada uma de suas obras).

“Sempre faço isso porque a pessoa tem o direito de conhecer a própria história.” Levou um cinegrafista para registrar a leitura – a autora já foi procurada por dois canais interessados em uma série não ficcional inspirada em sua obra. Daniela temeu muito a leitura, achando que os pais e mães não suportariam ouvir o relato. Surpreendeu-se positivamente com todos, entre eles Ligiane Righi da Silva, mãe de Andrielle, vítima que morreu junto com todas as amigas no incêndio.

Pouco antes de ir para a Kiss, Andrielle havia dito para a mãe: “Mãe, sabe o que descobri? Quando a gente diz ‘te cuida’ quer dizer ‘eu te amo’. Ao ler esse trecho em voz alta para Ligiane, Daniela ouviu a mãe em luto completar a frase que havia dito naquele janeiro de 2013. “Então te cuida, filha.”

Trecho

“Acompanhada de um policial militar que segurava uma lanterna, Liliane precisou desviar para não pisar em nenhuma das pessoas. Por um segundo, teve a impressão de que muitos dos jovens pelo chão apenas dormiam, embora a morte deles já tivesse sido constatada pelo médico Carlos Dornelles.

Quando a enfermeira se ateve ao rosto de cada um, percebeu que a maioria exibia uma fuligem preta na entrada do nariz e uma espécie de espuma branca saindo pela boca, sinais de intoxicação por fumaça.

A capitã da Brigada caminhou pela Kiss atordoada não só com o que viu, mas com o barulho dos celulares das vítimas. Os aparelhos tocavam juntos e cada telefone tinha um som diferente. Muitos tocavam conhecidas músicas sertanejas, outros, forró e até o repertório tradicional gaúcho. Na maioria dos casos, porém, o visor indicava a mesma legenda: “mãe”, “mamãe”, “vó”, “casa”, “pai”, “mana”. Aquela sinfonia da tragédia era tão insuportável quanto a cena que Liliane presenciava. Como lidar com um evento dessa proporção?

Mãe de dois filhos – uma menina de 7 anos e um adolescente de 14 que ficaram dormindo em casa sem saber que ela havia saído –, a capitã não tinha como deixar de pensar na dor das mães que não faziam ideia do que havia acontecido na casa noturna. Com o passar das horas, o número de chamados aumentava. Quando finalmente amanheceu em Santa Maria, um dos celulares contabilizava quase 150 ligações não atendidas.”

 

 

TODO DIA A MESMA NOITE – A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA BOATE KISS
. Autora: Daniela Arbex
. Editora: Intrínseca (248 págs)
. Preço sugerido: R$ 39,90 (impresso) e R$ 19,90 (e-book)

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