Autores contam a inspiração para as frases iniciais de seus espetáculos

por Pedro Antunes/Estadão Conteúdo Ana Clara Brant 13/01/2018 10:30
Era uma vez... é provavelmente a mais conhecida frase inicial de um texto de ficção, na verdade, de diversos contos de fadas. Mas como um autor decide as exatas palavras com que começará a contar sua história? O Estado de Minas fez essa pergunta a diversos dramaturgos e descobriu a origem de frases como “No armário ficaram umas roupas”, as primeiras palavras ditas pelo ator Luis Lobianco no monólogo Gisberta, em cartaz no CCBB-BH.

A peça aborda a vida da transexual brasileira que foi torturada e assassinada em Portugal e se tornou um símbolo na luta para a erradicação dos crimes de ódio contra gays e transexuais. O autor do texto, Rafael Souza-Ribeiro, conta que, no processo de criação do espetáculo, entrevistou diversas pessoas próximas e reuniu informações sobre Gisberta, que costumava ter muitas roupas, sobretudo vestidos, no guarda-roupa. A maioria  extravagante.

“A irmã de Gisberta contou que eles doaram muita coisa quando ela morreu, mas ficou um vestido azul com borboletas e lantejoulas. Ela não conhecia ninguém que usaria aquele tipo de figurino. Durante muito tempo, o vestido ficou lá, guardado, e era como se a Gisberta continuasse presente naquele ambiente. Por isso a produção começa assim: ‘No armário ficaram umas roupas”, explica o dramaturgo. Até que um dia, a irmã resolveu entrar num curso de dança e deu o vestido de presente para sua professora. “Na estreia, no ano passado, no Rio, ela resolveu fazer uma surpresa. Pediu o vestido azul emprestado e o levou ao teatro. Foi emocionante”, recorda Rafael.

Homem vazio na selva das grandes cidades, do Coletivo ZAP 18, que estreia na próxima sexta, na programação do Verão Arte Contemporânea (VAC), propõe uma reflexão sobre os desafios de viver na metrópole e de lidar cotidianamente com funções repetitivas. O dramaturgo Francisco Falabella Rocha misturou uma história fictícia com textos de Bertolt Brecht. “É um texto autoral, mas livremente inspirado no Brecht. Tem essa coisa do teatro épico também, que é forte no grupo”, diz ele, que levou quatro meses para concluir a dramaturgia. Francisco escolheu uma citação de Karl Marx para abrir Homem vazio... “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda, como farsa”.

“A peça fala desse ambiente em que vivemos hoje. Esse cotidiano duro, da cidade cruel, da falta de humanidade das cidades. A frase do Marx mostra exatamente o que vai acontecer. A história inteira é uma tragédia que vira uma grande farsa”, explica.

Misturando uma pitada de realidade com criatividade e intuição, a jornalista e dramaturga mineira Isis Baião escreveu há dois anos o texto de Frau Amália Freud, em cartaz na Campanha de Popularização Teatro & Dança. A pedido da atriz Beth Grandi, que estrela o monólogo, ela decidiu mergulhar de cabeça na trajetória da mãe do pai da psicanálise.

“O filho da Beth é psicólogo e sugeriu essa história. Li várias biografias do Freud e achei curioso que haja pouquíssima informação sobre a mãe dele. O que deu para perceber é que Amália era uma mulher muito forte e que os dois tinham uma relação quase edipiana – um era apaixonado pelo outro”, acredita. É com esse comentário: “Vocês acham o máximo ter um filho superdotado, não é? Ah, dá muito orgulho! Todo mundo se estarrece!” que Beth Grandi inicia o espetáculo, mostrando a admiração da mãe pelo filho.

“Apesar de poucos dados sobre Amália Freud, a gente percebe que ela tinha noção da genialidade dele e de como o admirava. Por isso quis abrir o texto assim. A espinha dorsal do espetáculo é verdadeira, mas o resto –falas, citações – tudo é ficção. É como eu imagino que seria”, declara Isis.

Já em Nigthvodka, espetáculo do Grupo Armatrux que marca os 10 anos de trabalho da companhia com o diretor e dramaturgo Eid Ribeiro, é a música que abre o espetáculo. A montagem, livremente inspirada no livro Vozes de Tchernóbil, da escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, parte dos relatos dos sobreviventes da tragédia nuclear para criar uma metáfora filosófica e existencial sobre nossos tempos. Foi por isso que Eid optou por abrir o espetáculo com uma canção russa.

“Essa composição simboliza tudo que se desenrola no palco. Fala da natureza, do tempo, da água e tem tudo a ver com a situação dos sobreviventes”, diz o autor. Em seguida, surge um áudio da personagem de Tina Dias, uma professora: “Antes não percebíamos o mundo à nossa volta. O mundo era como o céu, como o ar, uma dádiva eterna que não dependia de nós. Estaria ali para sempre...”. “Essa pequena fala trata do que ela tem que deixar para trás, do abandono das coisas, dos livros, já que ela é professora e uma das que sofreram com o acidente de Chernobyl”, pontua a atriz.

Nigthvodka voltará ao cartaz na Campanha de Popularização em fevereiro, assim como o projeto Antes do fim, da atriz e diretora Rita Clemente, que inclui quatro encenações diferentes e uma instalação. A frase que gerou o espetáculo é da personagem Laura (musicista que perde o segundo filho). Depois da tragédia, ela se encontra perdida no centro da cidade, depara-se com uma igreja. Ali, mesmo sem fé em qualquer entidade ou religião, resolve fazer um pacto e diz: “São somente três ou dois segundos... Veja bem... Não vou desencadear reviravoltas na Indonésia... Não! Nem subtrair de um terremoto seu desejo de catástrofe, que bobagem! Deixo que gozem todos... Deixo que gozem todos...Todos... Peço apenas dois ou três segundos...”

“Laura é a primeira personagem da pesquisa Bala perdida, que Rita Clemente vem desenvolvendo, e está presente também nos espetáculos anteriores 19h45 e Ricochete. Em Antes do fim, ela se apresenta na galeria, em uma instalação antes dos espetáculos de palco. Mesmo tendo quatro versões diferentes da mesma história, essa fala aparece todos os dias”, explica Rita.

Veteraníssima na Campanha de Populariza, a peça Acredite, um espírito baixou em mim marca presença também nesta 44ª edição da mostra. O autor Ronaldo Ciambroni lembra que escreveu o texto praticamente a toque de caixa. Um grupo de teatro de São Paulo precisava de um texto urgente. Ronaldo foi buscar inspiração em uma montagem espírita e achou um tédio. “Fiquei me questionando. Por que peça espírita tem que ser aquela coisa séria, sombria. Por que não uma comédia? Fui para casa e escrevi durante toda a madrugada. Surgiu assim Acredite, um espírito baixou em mim, que se não era espírita, era pelo menos espirituosa”, brinca.

Na história, Lolô, personagem de Ílvio Amaral, bate o carro, morre e não sabe onde está. Chegando ao céu, ele diz: “Boa noite. É aqui que é a festa da Fiat? Ciambroni conta que “ele fica meio sem saber o que aconteceu, já que estava indo para uma festa com as amigas, sofre um acidente e não tem noção de onde está. O tom de humor já começa na primeira fala e norteia toda a história. Era isso que eu queria”.

Foi uma notícia de jornal que inspirou Carlos Nunes a criar, há oito anos, Comi uma galinha e tô pagando o pato. Um homem havia roubado uma galinha e ficou detido durante 18 meses. “Achei aquilo tão surreal. Por que quem rouba milhões não vai preso – apesar de isso estar mudando um pouco – e um reles ladrão de galinha vai?”, questiona Nunes. A peça começa com o protagonista lendo o jornal e dizendo: “Hoje é dia tal. Nossa! Como a vida passa depressa”.

“O começo é o mesmo há oito anos. Só que a data muda. Quis fazer assim para mostrar que é uma história atemporal”, comenta Nunes. Ele se diz um pouco verde como autor teatral, mas acredita que o começo e o fim de um texto, assim como na vida, são a parte mais fácil. “Preencher é que é o complicado; colocar as coisas boas no meio. Só assim a vida tem sentido. O mesmo acontece com as peças de teatro”, afirma.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS