Livro do escritor José Almeida Júnior mostra jornalista torturado pela ditadura Vargas que aceita trabalhar num jornal getulista

'A última hora' acabou conquistando o Prêmio Sesc de Literatura

por Pedro Antunes/Estadão Conteúdo Nahima Maciel 04/01/2018 20:03
Foi movido pela ligação entre a esquerda contemporânea e a maneira como Getúlio Vargas lidou com as questões trabalhistas no Brasil que o advogado José Almeida Júnior começou a escrever A última hora. No romance, um jornalista torturado pela ditadura de Vargas aceita trabalhar no jornal criado por Samuel Wainer porque passava por sérias dificuldades financeiras. Marcos vive um conflito: o ganha-pão vem da mesma fonte que o torturou, já que o jornal nasceu no início da década de 1950 para apoiar o então presidente.
ARQUIVO EM
Getúlio Vargas, que nesta foto descansa em sua fazenda em Itu, é personagem do romance histórico 'A última hora' (foto: ARQUIVO EM)

O romance ganhou o Prêmio Sesc de Literatura no ano passado e revelou o nome de José Almeida Júnior, um defensor público potiguar radicado em Brasília há uma década. É um bom exemplo de um romance histórico que reconstitui passagens importantes do percurso do Brasil. História e política, aliás, são dois dos temas que mais atraem a atenção do autor.

Em A última hora há personagens como Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues e o próprio Samuel Wainer, pessoas sobre as quais muito já se escreveu e que também deixaram livros de memória. O próprio Wainer contou sua experiência com o jornal no livro Minha razão de viver. “Mas é a visão dele, e é um pouco romantizado. Ele confessa, em alguns momentos, alguns malfeitos que faz no jornal, mas sempre tenta justificar que está fazendo aquilo por uma causa maior. Tentei pegar cada caso desses e analisar a partir da perspectiva de outros jornais”, conta Almeida Júnior.

Se A última hora trata do período getulista, o próximo livro vai recuar um pouco mais. Já pronto e na mão de um agente literário, o novo romance, também histórico, será ambientado no século 19 e tem personagens conhecidos, como Machado de Assis. Agora, Almeida Júnior trabalha em uma história que terá cenas em Brasília, vai se passar em Brasília e envolve política e jornalismo.

Como nasce o livro? Por que o interesse por essas duas figuras históricas?
Sempre tive uma curiosidade porque a esquerda atual é muito pautada no trabalhismo do Getúlio Vargas. Queria entender como era o sentimento da pressão de quem tinha sido torturado durante a ditadura Vargas e como lidou com isso durante o período democrático. Aí descobri que no jornal Última Hora muitos jornalistas eram comunistas, a cúpula que montou o jornal junto com Samuel Wainer era comunista. Quis ver e compreender esse personagem a partir dessa perspectiva de quem tinha sido torturado e precisava trabalhar em um jornal criado para dar apoio a Getúlio Vargas. Há vários livros de memórias de jornalistas que trabalharam para Samuel Wainer, e a maioria deles acabou se tornando getulista. Meu personagem trabalha lá não porque quis, nem porque é getulista, mas por questões financeiras mesmo. E, em certo momento, ele começa a trair o próprio Samuel Wainer. Dentro dessa perspectiva de um comunista torturado foi que criei esse personagem, Marcos.

Como foi pesquisar e escrever sobre essas figuras que têm livros de memórias e sobre as quais muito já se escreveu? Como foi ir além do que tinha sido escrito?
Samuel Wainer dá uma visão no Minha razão de viver, mas é a visão dele. É um pouco romantizado e ele confessa alguns malfeitos que faz no jornal, mas sempre tenta justificar que está fazendo aquilo por uma causa maior. Tentei pegar cada caso desses e analisar a partir da perspectiva de outros jornais. Verifiquei pelo Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, dos jornais de Assis Chateaubriand e também pelo jornal comunista. Porque o Getúlio Vargas tinha oposição da imprensa mais liberal, mas também sofria oposição dos comunistas. Até os últimos momentos dele, em agosto de 1954, ele sofria oposição forte dos partidos comunistas. Depois que a esquerda exaltou o trabalho dele. Então tentei verificar outros pontos de vista que estavam nos jornais.

Você é formado em direito, é defensor público e tem esse interesse por literatura e história. Começou a escrever há cinco anos. Como isso ocorreu e como chegou ao prêmio?

Sempre gostei muito de literatura nacional, principalmente o movimento regionalista. Queria ser um escritor regionalista, mas acabou, por outras questões profissionais, que deixei um pouco de lado o interesse em escrever literatura. Há uns cinco anos, resolvi começar a escrever um livro. Fiz um projeto para ver sobre o que ia escrever, mas não queria me autopublicar. Então, escrevi um livro e imediatamente iniciei o segundo, que foi A última hora. Para o primeiro, consegui um agente literário em 2015, mas, com a crise no mercado, não consegui publica. Concluí A última hora no final de 2016 e fiquei fazendo revisões até a inscrição no Prêmio Sesc, em fevereiro de 2017.

Política e história são duas áreas de que você gosta. Por quê?
Sempre gostei de política, mas acho que, pelo fato de morar em Brasília, isso está muito impregnado na cidade por essa proximidade com o poder. Em todo canto, numa fila de banco, no supermercado, no Uber, todo mundo só fala em política. Acho que isso vai arraigando e dá mais vontade de escrever a respeito.


A última hora
• Autor: José Almeida Júnior
• Editora: Record (352 págs.)
• Preço sugerido: R$ 44,90

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