Poeta Rupi Kaur conquista milhares de leitores com lírica simples e temas feministas

Com 'Outros jeitos de usar a boca', a indiana radicada no Canadá vendeu 1 milhão de cópias e ganha edição especial no Brasil

por Nahima Maciel 04/01/2018 09:06

Nabil Shash/Planeta/Divulgação
Filha de refugiados sikh, a escritora aborda questões de raça, gênero e sexualidade. (foto: Nabil Shash/Planeta/Divulgação)

Vamos falar sobre esta moça, esta Rupi Kaur, nascida na Índia, de nacionalidade canadense, detalhe importante para os versos que ela escreve. Você já deve ter ouvido falar dela. Rupi ficou famosa nas redes sociais com poeminhas feministas, versos curtos, ora contundentes, ora simplórios e infantis demais, o que já rendeu boas críticas por aí. Milk and honey, publicado no Brasil como Outros jeitos de usar a boca, vendeu 1 milhão de cópias e saiu no Brasil em 2015. A nova edição da Planeta vem com capa dura e os poemas em inglês, língua original da escrita da autora. Falando de traumas, sobrevivência, dor e cura, mas também de amor, raça e relacionamentos, a poesia de Rupi causa uma certa emoção mesmo naqueles que não compartilham sua origem sofrida e complicada.

Rupi é originária do Punjab, região do Norte da Índia, bem na fronteira com o Paquistão, uma zona de conflitos históricos e violentos. Ela também é sikh, uma etnia massacrada e perseguida. E claro, é mulher. No prefácio, faz uma rápida autobiografia e conta que venceu a primeira batalha quando sobreviveu ao próprio nascimento. Feticídio de meninas é prática comum em algumas famílias indianas. Filha de refugiado sikh que emigrou para o Canadá para fugir do genocídio, ela deixou a Índia aos 3 anos para encontrar o pai em Montreal. Adolescente, sentiu enorme necessidade de escrever em punjabi, língua cuja escrita, o gurmukhi, tem como único sinal gráfico o ponto final. Por isso os versos de Rupi não têm maiúsculas nem qualquer outra pontuação.

 

 

A necessidade de escrever veio porque ela percebeu que os traumas vão além das fronteiras do tempo. A infância de Rupi pode não ter sido das mais traumáticas, mas uma quantidade enorme de gerações anteriores enfrentaram a dor de não terem direito sobre o próprio corpo. “Eu penso na violência sexual que sofremos como mulheres sul-asiáticas. Nós a conhecemos intimamente, das centenas de anos de desonra e de opressão”, escreve. “Nos ensinam que nosso corpo não é nossa propriedade. Serve para seguir as ordens de nossos pais até que eles transfiram a propriedade ao seu marido e a sua família. Uma boa garota indiana fica quieta. Obedece as ordens. O sexo não lhe pertence, é algo que lhe acontece na noite de núpcias. Nosso papel é deitar com obediência, não sentir nada.”


Rupi tem 25 anos. Faz parte de uma geração de poetas que encontraram eco nas redes sociais e começaram ali suas experiências. Seus versos podem ser simples – e alguns chegam a ser ingênuos ou mesmo apropriações de clichês de autoajuda – e a crítica até procede, mas há um certo lirismo na maneira como ela e outras de origem semelhante expressam a raiva em relação ao sexismo e às questões de raça. Rupi conversa com sua geração de maneira direta e simples. Se daí o mergulho na poesia for uma consequência, ótimo!

 

 

OUTROS JEITOS DE USAR A BOCA
De Rupi Kaur
Planeta
272 páginas
R$ 44,90

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