Exposição no Museu Inimá de Paula destaca vigor da cultura negra em Belo Horizonte

Religiosidade e respeito à ancestralidade são transmitidos de geração a geração pela Irmandade Os Carolinos

por Márcia Maria Cruz 09/12/2017 09:11
Patrick Arley/divulgação
A Irmandade Os Carolinos, que completou 100 anos, luta para ser reconhecida como patrimônio imaterial de Minas Gerais (foto: Patrick Arley/divulgação)

Em 1917, Francisco Carolino, o Chico Calu, fundou guardas de moçambique e de congo para louvar a Nossa Senhora do Rosário. Nessa importante tradição da cultura mineira, religiosidade e respeito à ancestralidade são transmitidos de geração a geração pela Irmandade Os Carolinos. A guarda se formou num pequeno lugarejo do município de Esmeraldas, mas, em 1937, migrou para o Bairro Aparecida, em Belo Horizonte. Chegou à capital graças ao filho de Chico Calu, Luiz Carolino. Atualmente, a tradição é renovada por seus decendentes – entre eles, o capitão-mor Nilson Pereira da Silva.

Para comemorar o centenário da importante guarda mineira, será aberta neste sábado (9), no Museu Inimá de Paula, a exposição Reinado de Chico Calu – Repertórios sagrados da Irmandade Os Carolinos. Antes, um cortejo sairá da Igreja de São José, no Centro, em direção ao museu. A concentração começa às 12h.

Terceira irmandade mais antiga da capital em atividade, Os Carolinos luta para ser reconhecida como patrimônio imaterial. “As guardas completam 100 anos e sua história se confunde com a da própria cidade. Embora a historiografia oficial seja branca, BH é cidade negra desde sua fundação. Porém, a cultura negra continua sendo eclipsada. A despeito disso, a Irmandade Os Carolinos resiste”, afirma o fotógrafo e antropólogo Patrick Arley, cujos trabalhos ficarão expostos no Inimá de Paula.

A mostra reúne cerca de 30 imagens das guardas de moçambique e de congo d’Os Carolinos, além de objetos usados nas celebrações. Os registros são assinados por Patrick Arley e pelo fotógrafo Netun Lima. “Foi uma imersão de cinco anos e, se Deus quiser, será para a vida toda”, diz Patrick.

As fotografias ficarão expostas em estandartes, evidenciando o vigor da religiosidade e da cultura de matriz africana, que ganharam identidade própria em Minas.
Netun Lima/divulgação
Jovens e crianças levam à frente a cultura dos ancestrais africanos (foto: Netun Lima/divulgação)

O congado mantém a tradição das famílias negras. Por meio da cultura oral, a tradição passa de geração em geração. “É a oralidade e também algo muito corporal. As pessoas aprendem a maneira de dançar, de louvar e de tocar instrumentos. A criança pequena mal começa a andar e já dança. Acontece de forma natural, a pessoa incorpora à sua existência aquela maneira de estar no mundo”, observa Arley.

Depois de acompanhar não só as festividades, mas o dia a dia das comunidades, a curadoria trabalhou sobre milhares de fotografias. Objetos sagrados – coroas, bastão, bandeiras e faixas – também integram a mostra. “É uma surpresa, mas as pessoas vão gostar muito”, revela Arley. Um altar de Nossa Senhora do Rosário foi montado no Inimá de Paula.

Os Carolinos mantêm duas guardas: uma de congo e a outra de moçambique. A principal diferença é o ritmo. “Tanto o congo quanto o moçambique dizem respeito a histórias da diáspora negra. O moçambique é mais lento, enquanto a guarda de congo é mais animada, um ritmo mais pesado”, explica Arley.

A tradição reinventa o reinado da região onde hoje fica a República do Congo, na África. Trata-se da história de um rei convertido ao cristianismo. Por isso, as guardas trazem capitães, reis e rainhas. O antropólogo ressalta que o congado é expressão negra do catolicismo. “No Brasil, temos outras expressões que dialogam com o congado”, ressalta.

Os reinados/congados negros, com suas guardas (ou ternos) de moçambique, congo, caboclo, marinheiro, vilão e catopé, reapresentam nas ruas o mito fundador da retirada de Nossa Senhora do Rosário do mar pelos escravos. Antes de Belo Horizonte ser fundada, irmandades já atuavam na região do arraial onde foi construída a capital, que completará 120 anos na terça-feira.
Patrick Arley/divulgação
Cortejos e tambores ganham as ruas da periferia de Belo Horizonte (foto: Patrick Arley/divulgação)


REINADO DE CHICO CALU

Fotografias, adereços, fardos e santos de devoção. Registros da Irmandade Os Carolinos. Concentração neste sábado (9), ao meio-dia, na Igreja de São José, no Centro. Às 13h, sai o cortejo rumo ao Museu Inimá de Paula, que fica na Rua da Bahia, 1.201, Centro. Funciona às terças, quartas, sextas-feiras e sábados, das 10h às 18h30; às quintas-feiras, das 12h às 20h30; e aos domingos, das 10h às 16h30. Entrada franca. Em cartaz até 28 de janeiro. Informações: (31) 3213-4320.


TRÊS PERGUNTAS PARA..
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Nilson Pereira da Silva,
capitão-mor da Irmandade
Os Carolinos

Na tradição do congado, como funcionam os reinados?
É uma festa da cultura negra. Tradição antiga nossa. O congado era um meio de aliviar o dia a dia sofrido dos negros na época da escravidão. Um modo de dançar e louvar a Nossa Senhora para amenizar muito sofrimento. Geralmente, fazemos a oração de Nossa Senhora e o hasteamento das bandeiras para iniciar a festa. Tem a bandeira para avisar o início dos festejos, as bandeiras de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e de Santa Isabel – os santos negros. Elas são hasteadas no terreiro e os estandartes são levados na procissão.

Qual é o legado de Chico Calu?
Ele é patrono da nossa guarda. Tenho dele o conhecimento passado por minha bisavó, minha avó e por minha mãe. Foi um mestre. Daqueles antigos, que hoje em dia é muito difícil ter. Deixou ensinamentos. O primeiro deles é o louvor a Nossa Senhora do Rosário e ao congado. O que aprendi repasso para os demais. O capitão-mor é responsável pela organização da festa e (atua) durante todo o tempo em que a pessoa estiver no congado. Ele corrige as falhas e orienta.

Qual é a importância da exposição dedicada a Chico Calu?

Um grande passo para a cultura. O congado não é tão divulgado. Foi uma maneira muito legal que o pessoal conseguiu para divulgá-lo. Há muitos anos, foi realizado um cortejo no Centro de Belo Horizonte. É uma ideia maravilhosa fazê-lo novamente. Muitos já ouviram falar, mas não se aproximam. Confundem congado com espiritismo, mas não tem nada a ver. É um meio de louvar a Nossa Senhora do Rosário.

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