Mestre do cordel e da xilogravura do Nordeste defende transmissão do conhecimento

J. Borges, aos 81 anos, trabalha seis dias por semana e quer que tradição chegue às novas gerações

por Ana Clara Brant 03/12/2017 10:30
Frankli Caldeira/divulgação
J. Borges autografa trabalhos no Festival Literário de Araxá, onde suas gravuras que ilustraram o livro de José Saramago foram expostas (foto: Frankli Caldeira/divulgação )

Assim como boa parte dos meninos e meninas nordestinos, sobretudo dos anos 1940 e 1950, o pernambucano José Francisco Borges aprendeu a ler por meio do cordel. A manifestação literária que surgiu na Europa durante o Renascimento, trazida para o Brasil no século 19, era a forma de comunicação e acesso ao conhecimento da maioria das pessoas no interior.

“O cordel era a maneira de a gente saber das coisas. Ainda mais na roça, que não tinha rádio, TV, cinema, nada disso. Meu pai lia muita história de cordel pra gente. Histórias de cangaço, de amor, de reino encantado. Brinco que até hoje a única linguagem que sei falar é a de cordel”, ressalta José Francisco, de 81 anos, que abreviou o nome para J. Borges. Foi assim que ele ficou famoso. “O nome era muito grande para caber na capa dos cordéis, por isso diminuí. Foi logo no começo da carreira. O povo acostumou. Deu sorte, o nome se espalhou e vou mantê-lo até o fim da vida”, diz o artista, um dos nomes mais importantes do cordel e da xilogravura no Brasil.

Depois de ajudar o pai na lavoura e trabalhar como pedreiro e carpinteiro, J. Borges resolveu, aos 20 anos, que queria ganhar a vida com poesia. Escreveu o primeiro cordel e, como precisava de imagens, decidiu criar as gravuras. “Sempre fui apaixonado por essa arte, mas nunca tinha feito. Decidi arriscar. Na minha família, ninguém nunca mexeu com isso. Fui o primeiro. Deu tão certo que acabei vivendo disso. Já são 316 cordéis”, celebra.

Naquela época, ele se dedicou também à xilogravura, técnica em que os desenhos são entalhados na madeira para impressão. Se tem na ponta da língua a quantidade de cordéis que produziu, o mesmo não ocorre com as gravuras. “São muitas. Imagina 60 anos desenhando! Já ilustrei capas de cordéis, livros, discos. Fiz exposição na Venezuela, Alemanha, Suíça, México e nos Estados Unidos. Outro dia, descobri que tem gravura minha no Japão e até na Nova Zelândia. Olha que lugar mais longe... Mesmo morando a vida toda em Bezerros, a 100 quilômetros do Recife, um lugar pequeno e pacato, consegui conquistar o mundo.”

SARAMAGO

Um dos trabalhos mais recentes de J. Borges é o livro O lagarto, de José Saramago (1922-2010). O pernambucano não conheceu o escritor português, mas soube por Pilar, viúva dele, que o vencedor do Nobel era grande admirador de sua obra. “É um trabalho que me deixou muito feliz e está tendo muita repercussão. Virou até exposição”, comenta, referindo-se à mostra que ficou em cartaz durante o Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), em novembro. J. Borges foi um dos convidados do evento.

Depois da divulgação de sua obra no Nordeste, J. Borges passou a ser procurado por clientes do Sul e do Sudeste. No começo dos anos 1970, pintores do Rio de Janeiro foram à sua casa, em Bezerros, encomendar várias gravuras sobre o folclore do Nordeste. Os desenhos foram parar na casa de Ariano Suassuna (1927-2014), no Recife. “O Ariano quis saber onde aquela fera morava e nem acreditou quando descobriu que eu estava a pouco mais de 100 quilômetros dele. Então, divulgou meu trabalho nos jornais do Nordeste, do Rio e São Paulo e um monte de gente começou a me procurar. Desde então não tive mais sossego (risos)”, revela.

Por falar em Suassuna, o último cordel produzido por J. Borges é A chegada de Ariano no céu, que mostra a entrada do romancista e dramaturgo no paraíso. “Pedi autorização para a família dele. Ariano se encontra com Miguel Arraes, Eduardo Galeano, Eduardo Campos, além de todos aqueles autores e escritores que já se foram, o Machado de Assis, Dias Gomes. É um cordel que vai fazer muito sucesso”, acredita.

LEGADO

Pai de 24 filhos – com três mulheres –, J. Borges tem muitos seguidores. Não só porque alguns dos herdeiros seguem escrevendo cordel ou criando xilogravuras, mas porque, ao lado da casa em que vive, em Bezerros, está o memorial criado pelo próprio artista, há quase 15 anos. O espaço abriga ateliê, oficina e galeria. É lá que ele trabalha.

“Sei que essa coisa de memorial pode parecer de gente que já morreu, mas é também para celebrar a memória de quem está vivo, produzindo ainda. Gosto demais de fazer o que faço. Só descanso no domingo”, assegura. Num canto de sua casa, chamado “bebódromo”, J. Borges costuma relaxar e curtir o tempo livre. “Gosto de tomar uma de vez em quando. Sei que beber é pecado, mas não beber é mais pecado ainda.”

Sobre a fama de maior cordelista e xilogravurista do Brasil, J. Borges diz não se importar. Mantém os mesmos hábitos de quanto era desconhecido. E faz questão de transmitir o ofício a qualquer pessoa que queira aprendê-lo. “O que mais gosto é receber as crianças no memorial, contar histórias e explicar como funciona o meu trabalho. Tem artista que não gosta de ensinar, pois acha que vai ter muito concorrente. O mundo tem bilhões de pessoas. A gente, sozinho, vai abastecer esse povo todo? De jeito nenhum. Tem que aparecer novos gravuristas, porque daqui a 50, 100 anos, minha arte ainda estará se perpetuando. Por isso gosto de ensinar.”

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS