Leia entrevista com Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Governo de MG

Escritora diz que Belo Horizonte se redimiu depois de lhe negar oportunidades de trabalho nos anos 1970

por Márcia Maria Cruz 01/12/2017 11:28
Walter Craveiro/divulgação
(foto: Walter Craveiro/divulgação)
“O cuidado de minha poesia/ aprendi foi de mãe,/mulher de pôr reparo nas coisas,/ e de assuntar a vida.” Os versos do poema De mãe mostram a força da ancestralidade na obra da belo-horizontina Conceição Evaristo. Nascida na Favela do Pindura Saia, em 29 de novembro de 1946, Maria Conceição Evaristo de Brito, de 71 anos, é a vencedora do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2017 pelo conjunto de sua obra.

“Recebo o prêmio um dia depois do meu aniversário. É um presentão muito simbólico, pois reconhece minha longa trajetória – de BH até agora”, disse a escritora, ontem de manhã, logo depois de receber a notícia. Na década de 1970, Conceição se mudou para o Rio de Janeiro. Deixou de ser empregada doméstica em Belo Horizonte – para desaponto da patroa –, trocando as panelas pelo mestrado e doutorado. Fez carreira na capital fluminense como professora universitária e escritora, mas levou de BH as histórias e a oralidade de família, marcas registradas de sua obra.

A cidade natal tinha uma dívida com Conceição, que não encontrou portas abertas no início da carreira – aspecto destacado por ela no Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), em setembro. Porém, a reparação se dá agora, quando a capital mineira completa 120 anos. “BH me expulsou. Saí por falta de condição de trabalho. É como se BH estivesse se redimindo. Estou muito feliz”, afirma ela.

Conceição receberá R$ 150 mil. De acordo com a Secretaria de Estado de Cultura, ainda não foi definida a data de entrega do prêmio. Ano passado, ele foi concedido à poeta divinopolitana Adélia Prado.

A autora belo-horizontina ecoa a voz de mulheres negras em sua obra – cinco romances, um livro de poesia e um infantil. São eles: Becos da memória, Ponciá Vicêncio, Olhos d’água, Insubmissas lágrimas de mulheres, Histórias de leves enganos e parecenças, Poemas da recordação e outros movimentos e Azizi, o menino viajante (este para crianças, em versão digital, pelo Itaú Cultural).

Desde o início da carreira, Conceição encontrou apoio e leitores no movimento negro. Tempos depois, foi traduzida e passou a ser lida em diversos países da Europa, onde participou de eventos literários, a exemplo do Salão de Paris, em 2015. Na academia, há teses e dissertações sobre a literatura desenvolvida por ela, na fronteira da escrita e a oralidade.

Em abril, Conceição foi homenageada na ocupação promovida pelo Itaú Cultural, em São Paulo. Em julho, chamou a atenção na sessão de encerramento da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em que sua trajetória foi apresentada pela escritora Ana Maria Gonçalves. Em julho, reverenciada na 2ª Mostra Conceição Evaristo, no Sesc Palladium, em BH, leu poemas durante o sarau. Em setembro, voltou à terra natal como homenageada da FLI-BH.

Conceição costuma enfatizar que não está só. Diz-se amparada por outras mulheres – entre elas, escritoras como a também mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), negra, favelada e ícone da literatura brasileira. Cercada pela comunidade afrodescendente, a autora se inspira na força feminina. Mesmo diante de situações adversas, as mulheres criam espaço para o belo e o lazer.

“Lembro-me de minha mãe fazendo doces para a congada e flores de papel crepom. Apesar de toda dor e dificuldade, bordava vestidos a mão para os bailes”, contou ela ao EM, ao lançar Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê), em 2016. “As mulheres criam espaços para a alegria, riem das próprias dores e, de maneira resiliente, conquistam lugares que lhes são negados por serem negras e mulheres”.

O amor pela escrita veio da família, formada por exímias contadoras de causos. Conceição guarda ecos da África ancestral, com sua preciosa cultura oral, e também da velha e boa prosa mineira.

Três perguntas para Conceição Evaristo
Este ano tem sido especial para você?
É um ano superpositivo. Mas nada que é nosso conquistamos de uma hora para outra. Não é resultado de milagres. É resultado de lutas. Quando nos acolhe, a Flip 2017, marcada pela curadoria de Josélia Aguiar, que é mulher e tem olhar mais sensível, é fruto de reivindicações feitas em 2016. Um manifesto foi proposto por Giovana Xavier, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que integra o grupo Intelectuais Negras. O trabalho dessas intelectuais negras foi o que sustentou a minha fala. Estava ecoando a voz de outras mulheres negras. É importante marcar que nossa luta é coletiva. Ontem, discutia o risco de ser vista como excepcionalidade. Não posso ser retirada desse coletivo. Ao se conferir o prêmio à mulher negra, estão conferindo-o a Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis, Myriam Álves, Lívia Natália e outras.

Sua primeira publicação foi nos Cadernos negros, em 1990. Qual a importância desse espaço para a sua carreira?
Foi uma antologia, o que marca essa produção coletiva. O primeiro lugar de recepção da minha obra foi o movimento social negro, nos encontros, saraus e rodas de poesia. Depois, professores e pesquisadores levaram para a sala (de aula). A militância levou esse trabalho para outros lugares. É quando começa chegar nos cursos de letras e, sem sombra de dúvida, isso vai se ampliando. Temos os professores Constância Lima Duarte e Eduardo de Assis, da Universidade Federal de Minas Gerais, as professoras Maria Nazareth Soares e Terezinha Taborda, ambas da PUC Minas.

O termo escrevivência define a sua literatura. Quando você o usou pela primeira vez?
Começo a usá-lo em 1994, em minha dissertação (“Literatura negra: uma poética da nossa afro-brasilidade”). Desde então, venho pensando numa escrita cujo arcabouço é a vivência particular e coletiva. Nossos passos vêm de longe, de nossas ancestrais, desde o solo africano, na travessia do Atlântico de navio até a chegada na América. São mulheres que não estão incluídas na cultura hegemônica. Em silêncios premeditados ou silêncios obrigados, essas mulheres vão palmilhando nossos caminhos. São mulheres no campo das artes, no campo da religião. Veja a importância das mulheres de axé, aqui no Rio, ou das rainhas de congado aí em Minas. Estamos palmilhando caminho para nossa descendência, que encontrará caminho menos árduo. A ideia de gerações, porém, não segue o tempo linear europeu. É o tempo circular africano, em que o ancestral assiste ao nascimento do novo. O novo vem ao mundo pela força da ancestralidade, um momento muito bonito.

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