Em seu novo livro, Regina Navarro Lins analisa formas modernas de relacionamento

O pacto da monogamia e o casamento estão em xeque, defende a psicanalista e escritora que participa do 'Sempre um papo' nesta terça (28)

por Márcia Maria Cruz 28/11/2017 08:45

Kleber Sales/CB/D.A Press
Escritora é a convidada do projeto e lança livro em que discute as novas formas de se relacionar. (foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)

Mário de Andrade fez a provocação no título de seu romance: Amar, verbo intransitivo. A gramática ensina: transitivo direto, ele precisa de complemento. Amar a quem? As respostas podem ser infinitas, como demonstra Regina Navarro Lins, convidada desta terça-feira (28) do projeto Sempre um Papo para lançar o livro Novas formas de amar – Nada vai ser como era antes: grandes transformações nos relacionamentos amorosos (Editora Planeta).

Construção social, o amor vem se modificando ao longo da história, defende a psicanalista e escritora. E isso implica novos arranjos, inclusive entre pessoas do mesmo sexo. O relacionamento pode ser a dois, a três, a quatro... O pacto de monogamia, afirma Regina, vem dando lugar ao amor livre ou ao poliamor, fazendo coro aos versos de Caetano Veloso na canção Paula e Bebeto: qualquer maneira de amor vale amar.

 

 

“Em cada período da história, o amor se apresenta de uma forma. O amor romântico, esse que povoa as mentalidades e que todos anseiam, passou a ser possibilidade no casamento só depois de 1940, incentivado pelos filmes de Hollywood”, lembra a especialista. Com a invenção da pílula anticoncepcional, nos anos 1960, as sociedades ocidentais se viram diante de um profundo processo de mudança tanto de mentalidade quanto da forma de viver. “A pílula possibilitou que as pessoas, principalmente as mulheres, fizessem sexo por prazer e não só para procriação, como era exigido anteriormente.”


Regina está lançando seu 16º livro. A psicanalista atende casais em seu consultório, no Rio de Janeiro, e participa de programas de rádio e TV respondendo às dúvidas do público sobre sexo. A primeira parte de Novas formas de amar explica o que é o amor romântico, os prejuízos decorrentes desse paradigma e por que ele tem saído de cena. “Há depoimentos de pessoas que vivem o amor livre, o poliamor, o amor a três. Também me baseio em profissionais da minha área que escreveram referenciados por pesquisas e estudos”, informa.

NEGÓCIO O tempo mudou o amor, o casamento – até o século 19, era um acerto (ou negócio) de famílias – e até o próprio cortejo. Antigamente, rapazes e moças se conheciam na igreja. “Ela dava um sorrisinho e o rapaz pedia o direito de visitá-la.” O encontro marcado é uma novidade do século 20. “Com o surgimento do telefone e do automóvel, as pessoas podem marcar para se encontrar. Depois vieram as baladas e a apresentação dos pares feita por amigos.” Um capítulo inteiro é dedicado aos aplicativos de relacionamentos, recurso que pode ser positivo. “Você não vai ao encontro do outro completamente no escuro”, pondera.

A psicanalista e escritora assume a tarefa de debater a exigência de monogamia e exclusividade no casamento, missão que admite ser difícil. “Até as pesquisas partem do princípio de que a monogamia é o ideal”, diz, reforçando que é necessário discutir as novas práticas sexuais. No consultório, Regina percebeu que a relação aberta é um dos principais motivos do conflito de casais. Um parceiro propõe essa abertura, enquanto o outro se desespera.

O amor romântico – em que os dois vão se transformar em um só e o parceiro terá todas as necessidades satisfeitas pelo outro – tem dado sinais de que vai sair de cena, acredita ela. Anseios contemporâneos estão mais ligados à busca da individualidade. “Não é egoísmo. Cada um quer saber o seu potencial, desenvolver suas habilidades na vida. O amor romântico, quando prega a fusão, bate de frente com os anseios contemporâneos. Ele sai de cena e leva consigo a exigência da exclusividade”, defende Regina.

As mudanças permitem que cada um escolha o arranjo mais adequado para si. “Como os modelos tradicionais de comportamento não estão dando respostas satisfatórias, abre-se espaço para as pessoas escolherem a forma mais conveniente de viver. Quem quiser ficar casado 40 anos com uma pessoa e só fazer sexo com ela, tudo bem. Mas se outra pessoa quiser ter três parceiros fixos, tudo bem também. Isso não ocorria antes, pois as pessoas tinham que se enquadrar em modelos para ser aceitas socialmente.”

Os novos arranjos preveem acordos éticos entre os parceiros, livres para amar outras pessoas. “No relacionamento a dois, dentro dos ideais do amor romântico, a coisa é muito complicada. A pessoa se casa idealizando. Atribui características ao outro, mesmo que não as possua. Depois, com a convivência, é impossível manter isso. Você vê características de que não gosta. Surgem o ressentimento, a mágoa e a sensação de ser enganado”, revel a psicanalista.

Com a experiência de atender pacientes no consultório e de responder a ouvintes em programas de TV e rádio, Regina diz que a monogamia é a maior obsessão dos casais, embora grande parcela de pessoas casadas tenha relações extraconjugais. “No programa de rádio, respondia a tudo relacionado ao amor. A pergunta sobre exclusividade ocupava 95% das questões. Sempre digo: ninguém deve se preocupar se o amado ou a amada transa ou se relaciona com outra pessoa. Só deve responder a duas perguntas: sinto-me amado? Sinto-me desejado?. Se a resposta for sim para as duas, o que outro faz quando não está comigo não me diz respeito”, defende.

A discussão passa também pela possibilidade de as pessoas vivenciarem a sexualidade sem amarras. “Dentro de algum tempo, vai aumentar a bissexualidade. Muitas pessoas que se relacionavam com alguém do sexo oposto têm percebido que podem, caso queiram, se relacionar com pessoas do mesmo sexo.”

Paralelamente à liberdade de arranjos, o vetor contrário prega o modelo tradicional de família, formado por homem e mulher sob o acordo monogâmico. Porém, Regina está convicta de que não é possível impedir a revolução comportamental. “Movimento gay, movimento feminista e movimento hippie levaram a uma profunda mudança de mentalidade”, afirma.

ONDA Para a autora de Novas formas de amar, a onda conservadora que ganha força no mundo é fruto da desinformação. Na opinião dela, informar é o único caminho diante da tentativa de censurar comportamentos e criações artísticas, como foi o caso da performance do coreógrafo Wagner Schwartz, que se apresentou nu no Museu de Arte Moderna paulista. “O grito de que aquilo era pedofilia é absurdo. Ninguém sabe o que é pedofilia. Temos que esclarecer. A mesma coisa ocorreu quando a filósofa Judith Butler veio a São Paulo.” Convidada a participar do seminário ‘‘Os fins da democracia’’, no Sesc Pompeia, a intelectual norte-americana foi alvo de protestos, acusada de “inventar” a ideologia de gênero.

A profunda mudança de comportamento a que assistimos representa a possibilidade de emancipação de todas as pessoas, acredita Regina. Porém, ela reforça: compreender que há novos arranjos não significa desconsiderar o relacionamento a dois. “Ele pode ser ótimo, embora a maioria não seja. Para ser satisfatório, é necessário que as pessoas reformulem as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois”, conclui.

 

 

NOVAS FORMAS DE AMAR
Nada vai ser como era antes: grandes transformações nos relacionamentos amorosos
• De Regina Navarro Lins
• Editora Planeta
• 272 páginas
• R$ 44,90
• Lançamento nesta terça-feira (28), às 19h30, no projeto Sempre um Papo. Auditório da Cemig, Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho. Informações: (31) 3261-1501

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