Zuenir Ventura elogia a Lava-Jato e vê vantagens em ficar 'em cima do muro'

Jornalista e escritor mineiro, que esteve presente na Fliaraxá, revela que desgosta do 'processo árduo' de escrever

por Ana Clara Brant 22/11/2017 08:08

Frankli Caldeira/Divulgação
Zuenir Ventura concede autógrafo durante o Fliaraxá, festival literário encerrado no domingo, 19, do qual ele foi um dos convidados. (foto: Frankli Caldeira/Divulgação)

Há uma máxima segundo a qual o mineiro pode até sair de Minas, mas Minas nunca sai do mineiro. Um dos grandes nomes do jornalismo e da literatura do Brasil, Zuenir Ventura, de 86 anos, leva essa ideia ao pé da letra. “Mal conheço Além Paraíba (cidade onde nasceu). Só passei por lá algumas vezes. E morei em Ponte Nova até os 11 anos. Mas sou muito mineiro. Apesar de ter saído há tantos anos de Minas, tem uma coisa que fica. Aquela coisa da cautela mineira, de ficar em cima do muro”, afirma.

Ainda mais nos tempos atuais, marcados pela polaridade, o autor diz que está valendo muito a pena carregar essa característica típica da mineiridade. “Algumas pessoas me acusam de não me posicionar nas minhas colunas (do jornal O Globo). Mas, diante dessas disputas que estão aí, a melhor coisa a fazer é ficar em cima do muro e assistir à briga. As pessoas querem sempre saber de que lado você está. É horrível. Então estou achando muito bom ficar em cima do muro”, diz o escritor, que participou na semana passada do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá).

“Gosto muito daqui, do clima, desse Grande Hotel”, comentou. Filho de Herina, mineira de Além Paraíba, e de seu José Antônio, fluminense de Nova Friburgo, Zuenir Ventura conta que o pai trabalhava na Estrada de Ferro Leopoldina, primeira ferrovia implantada em Minas Gerais, estado onde acabou conhecendo a mulher. Quando deixou o emprego, seu José voltou para Friburgo com a família e retomou o seu primeiro ofício: pintor de paredes. “E este também foi o meu primeiro trabalho. Eu o ajudava. Gostava bastante”, recorda.

 

 

O casal teve 11 filhos, dos quais quatro estão vivos. Zuenir brinca com o fato de seu nome ser incomum e assegura que não sabe o motivo da escolha. “Não conheço nenhum outro Zuenir. Ziraldo, outro mineiro radicado no Rio, é a junção de Zizinha (a mãe) com Geraldo (o pai). Mas eu nunca soube o porquê desse meu nome e nunca vou saber (risos). Tenho dois irmãos com nomes parecidos, Zeir e Zenir. E acho que, como meus pais queriam que tivesse mais gente com a letra Z, inventaram esse Zuenir horroroso”, diverte-se.

Um dos livros mais famosos do autor, 1968: o ano que não terminou, lançado em 1988, retrata, em estilo jornalístico, os fatos que marcaram o conturbado 1968 no Brasil e no mundo. “Tem horas que parece que 1968 é um personagem; ele nunca sai de cena. E, no ano que vem, quando completar 50 anos, vai se falar muito nele e em tudo que ele trouxe. Ninguém vai aguentar (risos)”, diz.

Zuenir acredita que a analogia daqueles tempos com a atualidade é inevitável. No entanto, há grandes diferenças. “Naquela época, a gente odiava os militares. Hoje, estamos odiando nós mesmos, principalmente com essa coisa da internet. Pessoas de todas as classes se xingando nas redes sociais. O pior de hoje, para mim, é realmente esse ódio dominando tudo. Tem família que não pode mais falar em política, senão sai briga. Gente rompendo amizade. Conheço uma amizade de mais de 50 anos que só não acabou porque uma das partes disse que só não rompia porque não ia ter tempo de encontrar um amigo tão antigo. Pode parecer piada, mas é verdade”, revela.

Outra distinção entre 1968 e 2016, de acordo com o autor mineiro, é que não havia tantas crises paralelas. “Já tivemos crises políticas, crises éticas, crises econômicas, crises ambientais. Mas todas ao mesmo tempo é uma terrível novidade”, lamenta.

Mas, ‘o ano que não terminou’, também deixou duas marcas importantes, segundo Zuenir: a ética e a paixão pelo bem público, que, no entanto, andam escassas. “Não tem mais ética. As pessoas pegam o bem público e querem roubar, usufruir. A operação Lava-Jato, na minha opinião, é a melhor coisa que aconteceu nos últimos tempos no Brasil. É melhor mostrar as entranhas, as vísceras do país, do que ficar escondendo como faziam antigamente. É desagradável, cheira mal, mas é como um tumor que tem que ser extirpado. Mas, por outro lado, sou muito otimista. Acho que vai sair daí um novo país. Pior que está não pode ficar”, ressalta.

INTERNET Por falar em ódios inflamados pela internet, Zuenir Ventura faz questão de enfatizar que não é muito fã da rede mundial de computadores. Não tem Facebook, Instagram, WhatsApp e afins e revela que sua implicância começou quando um site divulgou que ele havia morrido. “A internet me matou uma vez. Uma irresponsabilidade. É claro que a internet veio para ficar, tem pontos muito positivos, mas tem uma coisa meio estranha. Essa liberdade de você botar para fora o que quer; meio terra de ninguém. Umberto Eco afirmou que a internet deu voz aos imbecis. Concordo um pouco com ele.”

Casado há 55 anos com Mary Ventura, colega jornalista que conheceu na redação do extinto Tribuna da Imprensa, Zuenir tem dois filhos – Mauro, que também é jornalista, e Elisa, dona da rede de livrarias Blooks. Mas sua grande paixão são os netos – Alice, de 8, e Eric, de 5. “Se deixar, só falo neles. É a melhor coisa do mundo. Brinco que, se eu soubesse que era tão bom, eu teria pulado a etapa dos filhos. Ia direto para os netos. É maravilhoso”, celebra. Ele conta que Alice foi estimulada desde cedo pelos pais e pela escola a gostar das palavras. “O segredo é transformar a leitura em prazer. Ela lê um livro atrás do outro. Perguntei quantos livros tinha lido no ano, e a Alice respondeu que tinha perdido a conta. Isso é extraordinário”, salienta.

A paixão pela literatura é tanta que a menina cismou que vai fazer agora um livro para entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL), entidade em que seu avô ingressou em 2015, assumindo a cadeira 32, antes  ocupada por Ariano Suassuna (1927-2014). “O Marcos Vilaça (poeta, jornalista, ensaísta), que também é acadêmico, fica alimentando essa vontade da Alice. Eles mantêm correspondência por bilhetes (risos). Alice costuma dizer que o Vilaça é um amigo do avô dela e admirador da obra dela. Eu já disse a ela que ninguém entra com essa idade na ABL. E ela respondeu: ‘Mas o Vilaça vai dar um jeito, vovô’.”

Desde que assumiu na ABL, Zuenir Ventura não sentiu o peso do fardão, segundo diz, mas é constantemente parado na rua. “No calçadão de Ipanema, sempre escuto: Ô, imortal. O Ferreira Gullar (1930-2016), que também foi da Academia, contava que muita gente acabou descobrindo que ele era um escritor, um poeta, só depois de entrar para a ABL. Ele costumava dizer que quem consagra o escritor é a crítica, mas quem o populariza é a Academia. Acho que ele tinha uma certa razão.”

Além de 1968: O  ano que não terminou e de 1968: O que fizemos de nós (2008), Zuenir é autor das obras Cidade partida (1994), Inveja: mal secreto (1998), Chico Mendes: crime e castigo (2003) e Sagrada família (2012). Ele tem uma justificativa na ponta da língua para o fato de sua obra literária não ser tão extensa: “Na verdade, não gosto de escrever. Gosto de ter escrito. O processo de escrever, de encontrar a palavra certa, qual o melhor adjetivo, é árduo. Isso realmente é penoso. O mais interessante é quando termina, e a gente vê o livro ou a reportagem concluídos”.

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