Semana Guimarães Rosa celebra obra do autor no Norte de Minas

Em homenagem aos 50 anos da morte do escritor, evento realiza debates, palestras e oficinas em Paracatu

por Luiz Ribeiro 18/11/2017 11:01
Reprodução - O escritor João Guimarães Rosa
(foto: Reprodução - O escritor João Guimarães Rosa )

Montes Claros – “A gente não morre. Fica encantado.” Três dias depois de ler esta frase em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, João Guimarães Rosa se foi. Amanhã, 19 de novembro, completam-se 50 anos da morte do escritor. Mas ele está presente: é estudado em universidades, inspira projetos no cinema, teatro, TV e na música. Sua obra-prima, Grande sertão: veredas, foi traduzida para diversos idiomas.

“Guimarães Rosa permanece porque ele revolucionou a nossa literatura desde a publicação de seu primeiro livro, Sagarana, em 1946. Em 1956, quando lançou Grande sertão: veredas e Corpo de baile, foi efetivada essa revolução da qualidade”, afirma Telma Borges, professora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Há 10 anos a pesquisadora e doutora em letras coordena o grupo Nonada, dedicado à obra do autor mineiro.

Para lembrar as cinco décadas da morte do médico e escritor, começa neste sábado (18), em Paracatu, a Semana Guimarães Rosa, evento que tem o apoio do Nonada/Unimontes. Até dia 24, serão realizados debates, palestras e oficinas.

Sertão


Telma Borges explica que a “revolução roseana” introduziu na literatura brasileira personagens pouco presentes até então, como o jagunço, o louco e a criança. “Mais do que isso, ele escolheu um cenário próprio para abrigar seus personagens, o sertão.

Atraíram a atenção não apenas a linguagem do sertanejo, mas também os elementos do espaço ali apresentado. Daí o interesse pelo Rosa não se restringir à academia. Ele é mundialmente conhecido e estudado. Com certeza, o autor brasileiro mais estudado”, assegura a professora.

Telma lembra que Grande sertão: veredas não se limita ao universo das letras. Inspirou dasérie de TV exibida pela TV Globo, em 1985, à MPB. Tom Jobim lançou o disco Matita Perê, que traz a faixa Trem para Cordisburgo.

Clara Nunes gravou a canção Sagarana. Grande sertão deu origem à cantata com roteiro elaborado pelos professores Raul Valle e Carlos Brandão, da Universidade de Campinas (Unicamp). Atualmente, a adaptação do romance para os palcos, assinada por Bia Lessa e estrelada por Caio Blat, recebe elogios da crítica.


Conexão

Ivana Ferrante Rebello pesquisou a obra de Guimarães Rosa para seu doutorado em literatura da língua portuguesa na PUC Minas. Na opinião dela, o escritor desperta interesse porque sua linguagem vincula passado, presente e futuro, além de conectar vários ramos do conhecimento – geografia, biologia, psicologia e antropologia, por exemplo.


“Há nessa escrita interessante imbricado entre o passado – a revitalização da linguagem arcaica, a fixação de costumes ancestrais, o uso da memória como propulsora das narrativas, a presença de um narrador tradicional – o presente, pois ele questiona o ser e o estar no mundo, reflete sobre a vida e seus significados, e o futuro, pois inaugura uma escrita inventiva, aberta, ousada e até hoje surpreendente”, afirma Ivana, professora do Departamento de Comunicação e Letras da Unimontes.

“Essa mistura é enriquecedora porque não paralisa a obra, fixando-a somente num tempo-lugar. Ao contrário, alça-a para além das fronteiras, possibilitando novas leituras e interpretações. Na escrita de Guimarães, há, sobretudo, um traço extraordinariamente contemporâneo: a convocação de instâncias narrativas, gêneros textuais e valores diferenciados num mesmo tecido narrativo.

Quando lemos Guimarães Rosa, colocamo-nos em confronto com as alteridades – as mais diversas possíveis. E esse encontro com o outro é maravilhoso e temerário, coloca em xeque verdades arraigadas, forçando-nos a uma abertura para o novo”, diz.

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