Franthiesco Ballerini lança o livro 'O poder suave' e questiona sistemas culturais

O jornalista diz que Hollywood, Beatles, telenovelas e carnaval podem ser mais eficazes do que a força das armas ou a coerção político-econômica

por Severino Francisco 09/11/2017 09:11
Acervo Pessoal
'É importante falar de poder suave hoje porque o hard power anda causando muitos danos ao mundo', diz o autor. (foto: Acervo Pessoal)
O que é melhor: ser temido ou ser amado? Esta é a pergunta que o jornalista e professor Franthiesco Ballerini faz no livro O poder suave (Summus Editorial). O conceito foi formulado pelo norte-americano Joseph Nye na década de 1980, mas Franthiesco incorporou a ele uma nova perspectiva. Nye se ateve a estratégias leves de persuasão. Franthiesco aplicou o conceito a sistemas culturais: Hollywood, a arte renascentista, a moda francesa e a música dos Beatles, entre outros. No Brasil, ele escolheu o carnaval, a bossa nova e as telenovelas como representantes do poder suave nacional. Para Franthiesco, o conceito de poder suave é de alta pertinência neste mundo dominado pela força das armas e pela coerção econômica.


Como você definiria o poder suave?
O termo é a tradução livre do conceito de Joseph Nye, formulado na década de 1980. Define o poder oposto ao poder duro, da força, das armas, do Exército e da coerção econômica ou política. Ele percebeu que, no final da Guerra Fria, certos países eram muito mais eficientes em suas políticas públicas, mas não necessariamente pelo poder duro da política. Vendiam a cultura, a língua ou os esportes. Fiquei apaixonado por esse conceito, mas percebi que ele abordava o poder suave no âmbito das relações internacionais. Queria abordar o poder da cultura. Ela tem um poder de convencimento muito maior do que o hard power, o poder pela força.

Por que é importante falar do poder suave neste momento?
Em primeiro lugar, é importante falar de poder suave hoje porque o hard power anda causando muitos danos ao mundo. O governo norte-americano, na figura do Donald Trump, e o brasileiro, na figura do Temer, têm erodido os dois países. Vários artigos mostram que o Brasil teria um poder mundial muito menor se não fosse pelos poderes suaves daqui.

Quais são os poderes suaves do Brasil?
Os mais importantes são o carnaval, a bossa nova e as telenovelas. O carnaval é a maior festa do planeta – e não apenas para os brasileiros, seduz o mundo inteiro. Vende a imagem de que somos um povo que celebra a vida. Outro poder suave importante no âmbito privado é a telenovela – poderosa para a imagem do país. Foi capaz de fazer um país gigantesco como a China parar para assistir a A escrava Isaura, que não tem nada com a cultura deles. A novela Sinhá moça conseguiu interromper, por instantes, os conflitos na África. Tem um poder interno e externo de sedução, de mudar valores, instaurar novos comportamentos e hábitos de consumo. O terceiro é a bossa nova, que já teve poder muito maior, mas internacionalizou o Brasil, levou uma imagem sofisticada do país para o mundo.

Mas não há poderes suaves com alta capacidade de alienação cultural e social?
Sem dúvida, Hollywood reforçou estereótipos altamente perigosos. Criou no imaginário mundial a imagem de que os russos são todos vilões, os vietnamitas são todos baderneiros. Muitos se debruçaram sobre o poder de Hollywood – ao mesmo tempo, benéfico e maléfico. Alienador até para os norte-americanos. E, tanto sob o aspecto positivo quanto pelo negativo, nem sempre é controlável. O governo norte-americano tentou controlar Hollywood, mas não deu certo.

Até que ponto Hollywood se tornou incontrolável?
Quando os russos viram o filme Todos os homens do presidente, os militares soviéticos ficavam embasbacados: como um país como os EUA fala mal dele mesmo? Hollywood ajudou a erodir o poder soviético por dentro. A médio e longo prazos, é preferível ter poder suave, é um elemento que se inflitra em outras culturas. Dedico um dos capítulos do livro aos Beatles. As músicas deles viraram hinos no mundo inteiro.

Na era pós-moderna, o entretenimento não tomou o lugar da cultura e se reduziu a um poder suave alienante?
Olha, acho arriscado generalizar dessa forma. Os Beatles eram também entretenimento. Era um iê-iê-iê britânico, mais aceitável do que o punk. Essa é uma fronteira muito porosa, permeável. No final das contas, é o que faz a cultura do país. Por exemplo: Hollywood continua muito forte, não mais só pelo cinema, mas pelas séries.

Há diferenças entre poderes suaves associados – ou não – a sistemas de comunicação?

A arte renascentista é um poder que existe antes do Estado italiano. Se há um país que se beneficiou da arte, é a Itália. A maioria dos turistas chega para conhecer o legado da arte renascentista. Descobri que o valor monetário do quadro da Mona Lisa ultrapassa o PIB de alguns países pequenos da América Central. Mas, claro, isso não se compara ao poder de alcance dos filmes hollywoodianos.

Que poder suave surpreende o mundo?
A moda francesa é poderosíssima. O termo alta-costura só pode ser usado dentro da França, sob o risco de ser penalizado. Foi elaborado por estilistas franceses, é um poder que gira em torno de vestuário, chapéus e perfumes. Pensei em tratar da gastronomia ou do cinema francês. Mas isso não se compara em termos monetários ao poder de sedução da moda. O Brasil é quente, mas passamos séculos vestidos com roupas altamente incômodas devido ao poder do imaginário da cultura francesa.

Os governos podem usar esses poderes suaves para manipular as massas?
Poderiam e, algumas vezes, usam. Mas é complexo e difícil. Ele não é domável, não é controlável. A China tem um poder suave importante: a arte milenar chinesa – as figuras das esculturas, dos tecidos e das aquarelas de dinastias antigas. Só que não é tão poderosa quanto Hollywood. O audiovisual é muito mais poderoso. A China tem consciência e tenta modernizar o poder suave, mas é uma ditadura, reprime a arte, causa a erosão do poder suave. Apesar de todos os defeitos da política norte-americana, eles estão sob a democracia.

O que é melhor: ser temido ou ser amado?

É muito mais eficiente ser amado do que ser temido. Ser temido pode ser eficiente a médio prazo. Ser temido é o que o Putin tenta ser. Mas, certamente, esse poder pode ser erodido. Obama era amado e a médio prazo levantou uma imagem positiva no mundo, ainda que tenha feito coisas negativas. Isso a cultura faz muito melhor do que os políticos.

Qual a relevância de estudar o poder suave?
Que mundo a gente quer ver? Queremos um mundo de ficção científica, com base no poder das armas, da força, do dinheiro? Ou queremos os poderes suaves? As armas atribuem poder de coerção aos países. Nunca é a melhor forma de poder. No Iraque, a estratégia da invasão, da coerção pelas armas e do poder econômico fracassou. Não seria mais eficiente instaurar a democracia e outros valores ocidentais por meio da arte? Falamos tão mal do nosso país, mas será que gostaríamos de ser um gigante chinês, que cresce avassaladoramente? A imagem do carnaval é negativa pela violência, mas é positiva de um país que celebra a vida, a festa, a sociabilidade. A relevância está em saber que tipo de mundo a gente quer para o futuro. O poder suave é uma arma eficiente, mas não deixa de ser uma arma.


O PODER SUAVE
De Franthiesco Ballerini
Summus Editorial
216 páginas
Preço sugerido: R$ 46

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