BH recebe a mostra Viajante: experiências de São Miguel das Missões, de Carlos Vergara

Artista plástico destaca o diálogo de jesuítas e índios. Gaúcho critica tentativas de censurar a arte no Brasil

por Cecília Emiliana 21/10/2017 16:00
Cesar Duarte/divulgação
Cesar Duarte/divulgação (foto: Cesar Duarte/divulgação)
A partir deste sábado (21), o artista plástico Carlos Vergara apresenta, na Galeria GTO do Sesc Palladium, a exposição Viajante: experiências de São Miguel das Missões, resultado de suas pesquisas naquele município gaúcho. Vergara, que se define como “pintor andarilho”, roda o mundo para alimentar a sua obra. Aos 75 anos, ele sai em defesa da liberdade de expressão neste Brasil em conflito, onde proliferam iniciativas para censurar obras de arte.

Filho de pastor da Igreja Episcopal Anglicana e criado sob os preceitos evangélicos em Santa Maria (RS), Vergara diz que “arte e fé não são, em essência, conflitantes”. Em BH, parlamentares evangélicos atacaram a mostra de trabalhos do pintor Pedro Moraleida em cartaz no Palácio das Artes. No Rio Grande do Sul, foi cancelada a exposição Queermuseu, acusada de “blasfêmia” e “pedofilia”.

“A história mostra que o diálogo entre arte e fé, essas duas searas da cultura, pode ser bem rico. O atual embate entre esses dois elementos, na verdade, é falso. A disputa aí é política. O que está por trás deste movimento retrógrado, que tenta censurar a arte, é poder. É tudo uma questão de poder. Sempre foi”, afirma Vergara, que diz não ter religião, mas “acreditar no sagrado”.

Viajante... reúne fotografias, monotipias e pinturas. A inspiração veio da visita à região onde ficam as ruínas do povoado gaúcho onde, no século 17, missão jesuítica atuou junto aos índios. A mostra traz uma peculiaridade, observa Vergara. Enquanto a maioria das colônias religiosas brasileiras aculturaram os indígenas, em São Miguel das Missões os jesuítas estabeleceram com as comunidades locais relações mais equânimes de troca.

Formado sobretudo por padres músicos e arquitetos vindos de Viena e Florença, aquele comitê cristão preservou aspectos culturais dos guaranis, como a língua. “Meu trabalho divide com o público essa história, muito pouco conhecida. Os jesuítas de São Miguel, ao contrário de muitos outros, dividiram seu conhecimento com os índios. Ensinaram-lhes a construir instrumentos e produziram junto com eles a bela Catedral de São Miguel, esculpida em pedra”, destaca o artista.

COMUNISTA

Vergara destaca também os elementos que o clero europeu absorveu dos índios. “Os jesuítas aprenderam com os guaranis um outro tipo de organização social. Aqueles indígenas viviam sob uma estrutura horizontal, praticamente sem hierarquia. O resultado disso foi que religiosos e indígenas pretendiam fundar o país comunista cristão do Prata. Estamos falando de uma epopeia humana e tanto”, enfatiza o artista.

A abertura da exposição está marcada para este sábado (21), às 11h. Às 14h30, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium, Vergara recebe o público para um bate-papo com a participação do crítico e curador Luiz Camilo Osório.

A agenda de Viajante... em BH inclui oficina de monotipia. Em 28 de outubro, o artista José Lara ministrará aula gratuita para educadores. As inscrições vão até segunda-feira (23) e podem ser feitas no site do Sesc. De 11 a 18 de novembro, será realizado workshop de fotografia destinado a pessoas com pouca ou nenhuma experiência nessa linguagem. As inscrições se encerram em 5 de novembro.

CARLOS VERGARA

Várias linguagens. Exposição Viajante: Experiências de São Miguel das Missões. Galeria de Arte GTO do Sesc Palladium, Av. Augusto de Lima, 420, Centro, (31) 3270-8100. Abertura neste sábado (21), às 11h. Em cartaz até 7 de janeiro. O espaço funciona de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.

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