Caminhos cruzados

Quatro autores brasileiros refletem sobre o desafio de escrever ficção num país de poucos leitores e sob o bombardeio de diversas narrativas que tentam dar conta de uma realidade que parece inventada

por Carlos Marcelo 13/10/2017 08:00

Gabriel Pena/Divulgação
A escritora Isabela Noronha (foto: Gabriel Pena/Divulgação)

Ao conceder o Nobel de Literatura ao nipo-britânico Kazuo Ishiguro, na semana passada, a Academia Sueca mencionou que o escritor foi capaz de revelar “o abismo sob a nossa ilusória noção de conexão com o mundo real”. A partir da justificativa, o Pensar convidou quatro escritores brasileiros a refletir sobre a produção literária ficcional em um país com número de leitores muito inferior ao que poderia ter e cada vez mais assolado pela profusão de narrativas – notícias (falsas e verdadeiras), infindáveis séries de tevê, as resistentes novelas, vídeos no YouTube, stories do Instagram, correntes e discussões familiares no WhatsApp - que escanteiam o hábito da leitura no dia-a-dia. Será que a realidade continuará goleando a ficção? Não se sabe. O que dá para saber a partir das respostas, que expõem convergências e divergências nas opiniões, é que Ana Paula Maia, André de Leones, Flávio Izhaki e Isabela Noronha têm muito o que dizer. Nos livros. E fora deles.

 

Qual o espaço para a ficção literária em um cotidiano cada vez mais voltado para narrativas audiovisuais, reais e ficcionais?
Ana Paula Maia - O espaço da ficção literária ainda é o lugar onde se pode experimentar sem limitações. Onde o real e o ficcional se misturam dando forma a uma nova história, com outras possibilidades de início, meio e fim. É inesgotável.

André de Leones - A palavra escrita encerra um tempo muito particular. Em geral (porque sempre há exceções), sua fruição exige um demorar-se que a diferencia de outras formas narrativas. Não é que a palavra escrita seja necessariamente melhor ou pior em função disso, mas suas características lhe garantem um espaço que não me parece preenchível por nenhuma outra coisa. O tipo de trabalho que ela exige, seja por parte de quem escreve, seja por parte de quem lê, é único e, mais do que isso, pressupõe e enseja formas de pensar a realidade que são, também, únicas. Daí que, por mais que tenhamos obras de excelência inequívoca em outros meios, e dada a sua especificidade, gosto de pensar que sempre haverá espaço para a ficção literária.

Flávio Izhaki
- O momento da leitura é algo que me aflige bastante. Qual o momento ideal para que um leitor posso adentrar numa obra literária? Um adulto sempre trabalhou e lidou com a família. Mas aí entram na equação a internet e o vício das redes sociais 24h por dia, via celular especialmente. A possibilidade de escolher que tipo de audiovisual assistir e quantas vezes assistir é algo novo. Nunca antes cada pessoa teve tanta escolha do que fazer com seu tempo dito livre. Temos que trazer mais gente para a literatura. Mas como? Dito isso, a literatura coloca questões que nenhuma série audiovisual coloca, redes sociais então. Como viver sem pensar sobre si e o mundo em volta? Eu não consigo. Espanta-me que tanta gente consiga viver apenas reagindo e se adaptando ao mundo sem questioná-lo (ou repetindo o que os outros falaram sem confrontar com outros pontos de vista).

Isabela Noronha -  Somos, por natureza, sedentos por narrativas. Elas são nossas tentativas de dar algum sentido a aventura maior que é esta, de existir. E também uma forma de achar alguma companhia, encontrando-se na dor, no prazer ou no alívio do outro. O audiovisual também pode servir a isso, claro, mas o livro é um meio mais poderoso. A leitura implica em um engajamento maior, mais tempo de escuta silenciosa, e por isso mesmo as recompensas também tendem a ser maiores, mais duradouras.

Os fatos do dia-a-dia inspiram ou bloqueiam a sua ficção?

Rafael Dabul/Divulgação
A escritora Ana Paula Maia (foto: Rafael Dabul/Divulgação)
 

Ana Paula Maia - Não me inspiram, porém também não me bloqueiam. Separo a minha vida “civil” da minha vida de escritora. Não crio histórias baseadas no meu cotidiano.

André de Leones
- Inspiram. Eu não conseguiria escrever uma linha sequer sem recorrer à minha vivência. Os lugares em que já vivi, pelos quais passei, as pessoas que conheci, as conversas que tive, as leituras que fiz, as coisas que observo, tudo isso é imprescindível para a formação do meu universo ficcional.

Flávio Izhaki
- Os fatos do dia-a-dia inspiram, o dia-a-dia bloqueia, se isso faz algum sentido. O escritor precisa sempre deixar sua percepção aberta para que as pequenas epifanias, as mínimas incertezas que impactam seu cotidiano. Mas falar é fácil quando é necessário trabalhar, dar atenção aos filhos (filhas no meu caso) e a família, as contas, os horários. Por isso digo que o cotidiano pode tanto inspirar quanto bloquear um escritor. Mas claro que isso depende muito do assunto em que o escritor está se debruçando e em que momento do livro ele está. Quando já tem o terreno delimitado o autor precisa menos de inspiração e mais de trabalho, assim como também será menos impactado negativamente pelo dia-a-dia se souber fracionar seu trabalho. Para escrever um romance é preciso disciplina. Ninguém jorra 200 páginas num surto de dias.

Isabela Noronha - O cotidiano não apenas me inspira, ele alimenta meu processo criativo. Escrevi o Resta um a partir de um fato cotidiano, uma história que escrevi quando era repórter e que ainda hoje não vemos ou não gostamos de ver. Sempre frequento os lugares que quero retratar, procuro nas pessoas as características que meus personagens vão ter. Descrevo sensações que tive e que imagino que os outros tiveram. É minha forma de trazer carne, osso para dentro da página.

As redes sociais, com uma profusão interminável de narrativas, ajudam, atrapalham ou não interferem na sua criação?
Ana Paula Maia - Não interferem em absolutamente nada.

André de Leones- Não interferem, exceto como (por exemplo) forma de caracterizar um determinado personagem. A pessoa que dedica boa parte de seu tempo lendo e criando narrativas pelas redes adentro, escrevendo textões, vociferando contra isso ou aquilo, elaborando e expondo uma ficção de si mesmo via selfies e afins, essa pessoa diz muito dos tempos que correm e ainda não foi devidamente explorada em nossa ficção. Espero contribuir nesse sentido um dia desses. Se tiver estômago, claro.

Flávio Izhaki -
Vou usar essa pergunta como gancho para um tema que me incomoda. Outro dia um primo postou mensagem no Facebook: “Acordei tarde. Já tem que ter opinião sobre o assunto do dia?” Obviamente ele foi irônico, mas meu medo é que algumas pessoas estão cobrando dos escritores a mesma coisa, que se escreva sobre o Brasil de hoje, falando quase sobre o tema da semana, do dia, da tarde. Para essa gente, é preciso que a literatura dê conta de explicar o país daquele exato instante. E a literatura não tem que fazer necessariamente nada disso. Literatura não é artigo de opinião, textão nem aspas de professor de história para jornal.

Isabela Noronha - Até o momento não ajudaram. Vejo com muita desconfiança os discursos nas redes. Na maioria das vezes, têm algo de pré-moldado, superficial, sem autenticidade. Isso mais confunde do que ilumina.  
Como criar narrativas capazes de concorrer com um mundo tão congestionado pela intensa dramaticidade das histórias reais?
Ana Paula Maia - Interessante essa observação. Sim, o mundo sempre teve histórias reais assombrosas em todos os sentidos da palavra. Porém, por causa da tecnologia, essas histórias chegam até nós mais facilmente. Mas alguém precisa saber contar as histórias e para isso é preciso de um bom narrador, escritor. Um contador de história que sabe elaborar a trama e envolver o leitor não é fácil de se encontrar. Há muitas histórias por aí, ricas em conteúdo, mas é preciso saber contá-las.

André de Leones
- Conhecendo e explorando os recursos que só a ficção literária nos oferece para engendrar narrativas que espelhem e reflitam acerca disso que você chama de “histórias reais”, mas tendo consciência da obviedade de que até mesmo estas (testemunhadas por nós ou por outrem, acompanhadas via internet, televisão etc.), quando compartilhadas, na medida em que são compartilhadas, tornam-se, também, construções narrativas. A questão é que a literatura oferece formas de construção que, quando bem trabalhadas, evitam os lugares-comuns e criam um espaço estético-reflexivo que está além da mera repetição noticiosa.
Flávio Izhaki - Minha visão de literatura tem a narrativa como ponto importante, mas não como fim. As narrativas do mundo real muitas vezes são como bombas que arrasam quarteirão. Um americano de mais de 60 anos que compra dezenas de armas e fuzila 500 pessoas. Um casal que briga e o marido mata a mulher e depois se mata. Um livro quer colocar as perguntas que o levaram até aquele ponto. E em geral nem é necessária essa bomba final para que o livro fique de pé. A literatura que acredito procura um sentido, mas às vezes nem sabe formular as perguntas. O escritor tem que aprender a trabalhar com essa ideia etérea.

Isabela Noronha - Não acho que o autor deve entrar nessa disputa. Acho que as narrativas literárias em vez de concorrer podem se alimentar das histórias reais, gerar alguma reflexão sobre elas, enriquecer nosso olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos. Cheguei recentemente a uma crônica do Machado de Assis chamada “Analfabetismo”. Foi escrita em 1876 em meio a transformações sociais, políticas e tecnológicas no Brasil da época. É tão atual que assusta, mostra a força que a literatura tem de atravessar realidades.

Qual a conexão adequada entre a ficção e o mundo real? E quando esta conexão pode ser prejudicial à literatura?
Ana Paula Maia - Acho que uma história real pode ser muito bem contada no âmbito da ficção e é aí que novamente toco na questão abordada anteriormente: é preciso saber contar as histórias, ser um bom narrador. Não acredito em uma conexão adequada enquanto axioma, porém o bom senso de cada escritor é quem vai decidir o que cabe melhor na sua forma de narrar determinada história. Mas, o resultado final é que deve valer. A emoção provocada, os impactos da história é que devem ser levado em principal consideração. O fato de ser uma história real não a torna melhor do que uma história inventada.

André de Leones -
Acredito que a conexão entre a ficção e o real varia de obra para obra. Um recurso explorado por um autor em uma determinada obra pode não funcionar tão bem quando utilizado por outro (ou pelo mesmo) autor em outra obra. Agora, acredito que aquilo que se chama um tanto calhordamente de “autoficção” (conceito tão escorregadio em sua vaziez que nele cabem quaisquer torpezas) não colabora em nada para um entendimento maior acerca do mundo e, ironicamente, de si mesmo. Óbvio que, conforme respondi acima, a minha vivência é imprescindível para a formação e o estabelecimento de um universo ficcional, mas tal universo – porque ficcional – só me parece relevante na medida em que se vale da imaginação, e da imaginação voltada para o outro; eu me vejo no outro e (espero) o outro se vê em mim – coisa que me parece impossível quando o procedimento autoral se reduz a um embaralhamento infantil entre autor e obra e, se me permite o termo chulo, a uma autoboqueteação que, enquanto tal, não concebe nada e não atinge coisa alguma além de uma satisfação estéril e deprimente.

Flávio Izhaki - Embora até aqui meus livros sejam bastante realistas, não acho que a literatura tem que trabalhar somente dentro desses limites. A literatura pode transbordar o limite do real  e trabalhar com a ilusão, com a possiblidade, com o inexplicável.

Isabela Noronha - Não tem fórmula para isso. De qualquer forma, gosto muito de uma frase que o Érico Veríssimo cita no prefácio do seu romance Caminhos Cruzados: “um romancista não deve apenas fotografar a vida, mas iluminá-la”. Para mim, toda literatura está conectada ao mundo real. Mas a ela os fatos importam como pontes, trampolins, para buscar uma outra coisa que é tão verdadeira quanto esses mesmos fatos.


O que é mais difícil no Brasil? Escrever, publicar ou encontrar leitores?
Ana Paula Maia - Encontrar leitores. Imagino que este sempre foi o problema maior neste país. E continuará sendo enquanto não se investir em educação.

André de Leones
- Eu diria que as três coisas são difíceis, até porque estão intimamente ligadas. Havendo poucos leitores, publicar é complicado, o que acaba fazendo com que muitos deixem de escrever. E, no meu entender, a carência de leitores é uma consequência direta da nossa falência educacional.

Flávio Izhaki - Essa é covardia: encontrar leitores. Para escrever o maior entrave é o tempo. Mas basta vontade que isso é contornado. Publicar nunca foi tão fácil. Basta ver o crescimento exponencial do número de inscritos nos prêmios. Agora, encontrar leitores é uma batalha. Um autor nacional média sequer consegue esgotar sua edição de 3000 livros. Num país de 200 milhões esse número é chocante.

Isabela Noronha - Nada é fácil para a literatura no Brasil. Mas acho que o maior desafio é formar bons leitores. Isso depende de uma educação básica de qualidade, acessível a todos. Sem isso não temos nada, ou muito pouco.
 
O que recomenda a quem está começando a escrever no Brasil do século 21?
Ana Paula Maia - Sinceramente, acho que é muito mais fácil escrever no Brasil do século 21 do que no Brasil do século 20. Temos muito mais meios de propagar o que escrevemos, mais acesso, tudo mais dinâmico. É mais acessível ser um escritor. E para conhecer um, basta ir em um dos inúmeros festivais de literatura pelo país. Agora, em se tratando de literatura como arte, eu imagino que as dificuldades devem ser as mesmas de sempre. O fazer literário é uma devoção, ainda que possa parecer meio cafona dizer isso. Pergunte a um escritor: por que você escreve? Para que você escreve? Todos engasgam. Eu mesma não sei responder a isso com clareza. O que move um escritor a escrever e a transpor sentimentos e emoções em parágrafos, a canalizar sua energia e percepção do mundo em palavras, é o que deve pensar aqueles que estão começando a escrever.

André de Leones - Viver. Atentar para as próprias experiências e para as experiências dos outros, até onde pudermos empaticamente vivenciá-las. Observar. Pensar. E ler, estudar. Se o pretenso escritor não conhece os clássicos, não acompanha seus contemporâneos, não cria uma rede de leituras que sirvam de apoio e o ajudem a se encontrar (estilística, temática e humanamente) nesse emaranhado de vozes, o melhor é que procure outra coisa para fazer.

Flávio Izhaki - Nada diferente do que qualquer escritor vá responder: ler, ler e ler. Só assim é possível conhecer e entender o que foi e o que está sendo feito, e aqui um ponto que acho importante: leia os autores contemporâneos de sua própria língua. Escreva e mostre seu material primeiro para outras pessoas que estão no mesmo nível que você. Forme uma pequena rede. Não ache que seus 10 primeiros contos já dão um livro. Procure sites literários e tente emplacar um conto. Depois, acho que os concursos são uma boa opção, especialmente o Prêmio Sesc. Quando for procurar uma editora, entenda como funciona essa empresa, que tipo de livros ela publica, quem são os autores que já publicaram. Será que gostaram do trabalho? Faça essa pergunta via rede social. Não se acanhe. Um primeiro livro talvez seja lido com um pouco de condescendência, mas ainda assim é seu trabalho ali. Se ele for ruim, talvez você se queime para sempre. Na vida literária, o tempo é bastante distendido. Não tenha pressa.

Isabela Noronha - Ler muito, escrever, reescrever, ser persistente na busca de sua própria voz. Não ter pressa. A pressa não costuma ser amiga da boa ficção.

Como avalia a escolha de Kazuo Ishiguro para o Nobel, depois das escolhas de uma jornalista e de um compositor? Se pudesse escolher, a quem destinaria o prêmio?
Ana Paula Maia - Conheço apenas dois de seus livros. Acho que dos últimos escritores que receberam o prêmio, é o mais pop, arriscaria dizer (levando em conta que Bob Dylan não é romancista) e que teve seus livros adaptados para o cinema. Ponderando sob esta ótica, acho que o prêmio definitivamente está ampliando o olhar. Não sei a quem destinaria o prêmio, mas já está na hora de um brasileiro ser premiado.

André de Leones - Achei uma boa escolha. Ishiguro é um excelente narrador, alguém cuja obra tem bastante a oferecer para os mais diversos tipos de leitores. Se pudesse escolher, talvez destinasse o prêmio a um desses autores que, embora menos acessíveis, têm muito a nos dizer sobre a paranoia que orienta o mundo, a violência que ela enseja e a necessidade que temos das narrativas ficcionais para contra-atacar as narrativas “oficiais”: Thomas Pynchon ou Don DeLillo. Por outras razões, os extraordinários Aharon Appelfeld e António Lobo Antunes também seriam belas escolhas, creio.

Flávio Izhaki - Eu fico um pouco incomodado em dar opinião sobre quem deveria ser laureado com o maior prêmio literário do mundo. O que chega aqui no Brasil é tão pequeno para a produção mundial. É impossível que eu tenha todos os elementos para fazer tal assertiva. Claro que posso comentar se acho esse ou aquele autor muito bom ou não. Mas é difícil comparar. Minha hipótese é que o Nobel tem tentado levantar uma discussão sobre o que é Literatura nessas escolhas recentes. A Sveltana Aleksiévitch teoricamente parte do jornalismo e não ficção, mas a prosa dela definitivamente é literária. Sobre o Dylan, se ele foi contemplado pelas canções, vale o debate, mas no fim ficou parecendo mais uma tentativa de promoção do Nobel pela fama dele como músico pop (no sentido de sucesso, não da música que faz).

Isabela Noronha -  Kazuo Ishiguro estudou criação literária e foi um dos autores que me inspiraram a buscar essa formação. Gostei de ele ter sido escolhido, admiro a contenção e a delicadeza na obra dele. Se pudesse escolher, daria o prêmio a Guimarães Rosa, mas a realidade aqui atrapalha a ficção: o prêmio só pode ser entregue a autores vivos. Então, daria à americana Marilynne Robinson, que tem uma escrita comovente, metafísica, para a qual volto muitas vezes.

Seu mais recente romance é um grande livro. A quem pode interessar a leitura dele? Quais outros romances contemporâneos nacionais você indicaria a um leitor?
Ana Paula Maia - Olha, como é difícil saber a quem pode interessar determinado livro. Eu não faço ideia. Geralmente eu imagino que determinado perfil de leitor pode se interessar mais ou menos, porém, já me enganei. O leitor é uma caixa surpresa. Eu indicaria a um leitor um romance que acho excepcional: O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho. Foi publicado na década de sessenta, mas para mim é novo, é contemporâneo. É pouco conhecido. Um livro curto e primoroso. Recomendo.

André de Leones - Sem querer soar presunçoso (bela maneira de iniciar uma frase presunçosa, não?), gosto de pensar que Abaixo do Paraíso tem algo a dizer para qualquer pessoa que se interesse pelas engrenagens da nossa politicagem em seus aspectos mais comezinhos e, por isso mesmo, mais perversos, posto que ajudam a alicerçar todo esse edifício corrompido. O romance procura colocar tais engrenagens ao lado de outras que alimentam a interminável noite brasileira, como as familiares e religiosas. Não é que eu seja “contra” a família, a religião ou a política (bom, talvez contra a forma como se faz política no Brasil desde sempre), mas há aspectos sombrios em tais e tais coisas que tentei problematizar por meio da ficção.
Dentre os meus colegas, indico Sérgio Sant’Anna, Adriana Lisboa, Maira Parula, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Eduardo Haak, Edyr Augusto, Tadeu Sarmento, Bernardo Ajzenberg, Wesley Peres, Flávio Izhaki, Antônio Dutra, Luis Krausz, Luisa Geisler e Antônio Geraldo Figueiredo Ferreira. Devo ter me esquecido de vários autores bacanas.

Flávio Izhaki - Obrigado pelo elogio. Não sei quem seria esse meu leitor ideal. Prefiro não ter essa ideia em mente. Eu acho que a ideia de gostar ou não de um livro é sempre uma surpresa. As editoras e jornais tentam adivinhar esses gostos com listas de livros por assunto ou para dias festivos. Não é meu lugar fazer isso. Sobre os livros nacionais que indicaria, fazendo um arco do século 21, indicaria Diário da Queda, do Michel Laub, Barco a seco, do Rubens Figueiredo e K, do Bernardo Kucinski.

Isabela Noronha - Obrigada pelas palavras sobre o Resta um. Sobre os leitores, tenho recebido retorno de pessoas com perfis variados. Mas, em geral, me parecem pessoas atentas, capazes de se comover com a dor do outro – em muitos casos, de se encontrar nela. E estão mais interessadas em fazer perguntas do que encontrar respostas. Sobre os romances nacionais, indico dois que li recentemente: Outros Cantos, da Maria Valeria Rezende, e Noite dentro da Noite, do Joca Reiners Terron. São duas leituras bem distintas, mas ambas provocativas, cheias de força imaginativa.

De onde nascem as suas histórias? Invenção, experiência, observação ou memória?

Ana Paula Maia - Nascem da observação e invenção. As pesquisas ajudam bastante, mas existe em mim uma empatia especial pelo que escrevo. Talvez existam memórias em mim, soterradas, que me guiam na criação dessas histórias aparentemente tão distantes de mim, mas que no fundo, as carrego no peito. Acho mais fácil escrever sobre matadouros ou sobre uma colônia penal do que a minha rotina. Talvez por isso seja péssima cronista.

André de Leones - De todas essas coisas. Por exemplo, o protagonista de Abaixo do Paraíso é inspirado em um conhecido e, embora Cristiano seja muito diferente dessa pessoa (em termos de temperamento, origem familiar, classe social etc.), ambos trabalham ou trabalhavam como tarefeiros para os políticos da vez. Ou seja, resgatei algo das minhas lembranças, algo que observei há vinte anos, e usei para caracterizar o personagem, que vai noutra direção, tanto para o bem quanto para o mal. Inclusive, aproveito para dizer que a história de Cristiano ainda não acabou. Ainda vai demorar uns anos, pois tenho outro projeto em desenvolvimento, mas voltarei a lidar com o nosso amigo em algum momento.

Flávio Izhaki – Você listou quatro potes essenciais. Boto a mão na cumbuca de cada um deles e tiro uma pitada de cada. Nem sei se na filigrana das gramas algum ingrediente teria maior volume. Voltando a questão mais prática, cada um dos meus três romances nasceu de um jeito. O primeiro foi de uma ideia, uma situação. O segundo veio com as personagens e se amalgamou como história quando o que eu tinha escrito atingiu certo volume. E esse último, Tentativas de capturar o ar, nasceu da ideia de como lidar com a culpa pela morte não intencional de alguém e se espraiou por outros assuntos e personagens (relação pai e filho, mercado editorial). Não vejo tanta importância em como nascem a história, pois escrever um livro, para mim, é deixar o caminho aberto para as surpresas. Tenho minhas ideias iniciais anotadas e nenhum dos livros tem nada a ver com o que foi inicialmente pensado.

Isabela Noronha - As experiências são um grande manancial, não apenas as minhas, mas as de outros com quem me relaciono, como foi no caso do Resta um, com as mães de crianças e jovens desaparecidos. Depois, na construção da história, essa primeira ideia cresce e se desenvolve com observação, pesquisa, invenção e memória. Tem sido assim, mas procuro me manter aberta. A literatura pode nascer de qualquer lugar.

 

 

Ana Paula Maia
(Nova Iguaçu, 1977)


Mais recente livro –
Assim na terra como embaixo da terra (Record, 2017)

Por que ler – Poderia ser uma alegoria, como aponta Marcia Tiburi na “orelha”, ou até distopia. Mas a verdade é que o mundo bruto descrito por Ana Paula está perigosamente próximo da realidade, daí o impacto da narrativa, acentuada pela utilização do tempo presente. De “horror desmedido”, abrasileirada, a Colônia kafkiana é habitada por gente marcada como gado. A prosa assusta, afasta, fascina. Arde.

Trecho -  ‘‘Durante todo o fim de tarde, os homens permanecem entreolhando-se a distância, vez ou outra; seus semblantes refletem a ansiedade e algum fio de esperança em ver os portões se abrirem e o oficial atravessá-lo. Estão no meio de lugar nenhum e não sabem nem em que região está localizada a Colônia. Do lado de fora, além da vastidão e dos espaços vazios, existe o silêncio empurrando-os para o nada.’’

 

André de Leones
(Goiânia, 1980)

Mais recente livro –
Abaixo do paraíso (Rocco, 2016)

Por que ler – A partir do título e do nome do protagonista, referências bíblicas são bússolas fundamentais para o sexto livro de Leones. Com domínio pleno da narrativa, o autor encharca de sexo e violência a trajetória de Cristiano, faz-tudo de um político corrupto. Em fuga, Cristiano promove acerto de contas com o passado em Silvânia, cidade natal, “uma Jerusalém sem a possibilidade do Messias”. Brasil, terra de cometer e expiar pecados: originais e adquiridos.

Trecho - “Os pacotes trocam de mãos. Tudo para o bom funcionamento do mecanismo. Um serviço, agora. Hoje. Acabei de chegar. Onde foi que você se meteu? Você não quer saber. Precisa de dinheiro? Lava essa cara, um café. Esteja pronto. As próximas eleições. Todas as malditas eleições. A mesma coisa, um mesmíssimo processo. Compra e venda. Estou à disposição.”

 

Isabela Noronha
(Belo Horizonte, 1980)

Mais recente livroResta um (Companhia das Letras, 2015)

Por que ler – Com destreza e sensibilidade, Isabela fraciona a narrativa em dois tempos e um mistério para acompanhar a angústia crescente e exponencial de uma professora de matemática que tem “fé na lógica” e mergulha no “terror do inconcluso” após o sumiço da filha única. Impossível parar de ler.

Trecho - “Eu revisava uma página a cada dois minutos, levaria uma hora e seis minutos para finalizar. Isso se não fossem necessários ajustes. Erros poderiam dobrar o tempo de trabalho, demandando reescrever parágrafos, às vezes trechos inteiros, à procura do termo exato, da expressão mais correta. Palavras confundem, têm múltiplos significados, são escolhas. Um número apenas é”.

 

Flávio Izhaki
(Rio de Janeiro, 1979)

Mais recente livroTentativas de capturar o ar (Rocco, 2016)

Por que ler –  Com diferentes vozes e estruturas narrativas, Izhaki elabora romance engenhoso sobre um biógrafo que tenta desvendar o motivo pelo qual seu biografado, o escritor Antonio Rascal (AR), parou de produzir no auge do reconhecimento. Segura, a ficção avança pelo território movediço dos êxitos e fracassos: literários, familiares. E nem as mortes ofuscam a vitalidade da obra.

Trecho - “De certa forma, escrever essa biografia, me enfronhar numa vida que não a minha, responde minha necessidade de tentar entender como os outros vivem, de que maneira é possível viver. Eu leio sobre essa relação de pai e filho e penso na minha, surpreendentemente nem tão diferente assim. AR e o filho sempre distantes, mas próximos. Eu e meu pai, sempre próximos, mas distantes. A diferença é que um de nós quatro é um gênio. Um de nós quatro pode ter matado outra pessoa. E ambos são a mesma pessoa.”

 

 

 

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