Mostra Ex Africa chega a BH com trabalhos de 18 artistas que atestam a renovação da arte do continente

Exposição se distancia do estigma do artesanato de aeroporto, segundo o curador Alfons Hug

por Cecília Emiliana 08/10/2017 09:01

 

 GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A.PRESS
Montagem da obra Non-orientable, do ganês Ibrahim Mahala, no pátio do CCBB-BH, que utiliza aproximadamente 2 mil caixotes para transporte de frutas (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A.PRESS)
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Ibrahim Mahala diz que se interessa por 'objetos, sua relação com as pessoas e questões sociopolíticas que os envolvem no contexto em que existem e são usados' (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A.PRESS)

Ecos da história; corpos e retratos; o drama urbano e explosões musicais. São esses os quatro eixos temáticos da exposição Ex Africa, que reúne obras de 18 artistas de oito países africanos e dos brasileiros Arjan Martins e Dalton Paula, e será aberta na quarta-feira (11/10) em Belo Horizonte, no Centro Cultural do Brasil (CCBB).

“Assim como em toda parte, o continente africano encontra-se em permanente processo de renovação criativa e intenso intercâmbio artístico. Em Ex Africa isso fica muito claro. Portanto, quem for conferir a exposição esperando ver trabalhos cheios de referências étnicas, com o estigma do artesanato de aeroporto, com certeza, vai se surpreender”, afirma Alfons Hug, curador da mostra.

Surpreendente é, de fato, um adjetivo adequado para definir a obra do ganês Ibrahim Mahama, de 30 anos, que ocupa o pátio interno do CCBB. Dado a criações de grande escala, Mahama utiliza aproximadamente 2 mil caixotes de madeira, formando uma espécie de cubo gigante em Non-orientable. Fixados aos caixotes estão objetos diversos, como bonecas, jornais, sapatos, entre outros itens de uso cotidiano. É a primeira vez que a instalação é exposta fora de Gana.

“Sou, antes de tudo, um artista que preza a independência. É muito importante para nós a possibilidade de criar a partir de qualquer contexto, para além do universo das instituições em que estamos inseridos. Na escola em que me formei, é muito viva e fluente a ideia de que devemos produzir trabalhos que transformem o público e até o próprio sentido da arte”, diz ele, que fez uma adaptação de sua obra na montagem brasileira.

Na versão original foram utilizadas caixas de engraxates, aqui substituídas por engradados de madeira usados no transporte de frutas. “Como artista, eu me interesso muito por objetos, sua relação com as pessoas e questões sociopolíticas que os envolvem no contexto em que existem e são usados. Então, não fazia sentido carregar a obra da África para cá. No meu país, o que me inspirou foi o cotidiano dos engraxates. Eles constroem seu principal instrumento de trabalho – a caixa onde guardam cera, escovas, entre outros materiais que usam para polir os sapatos das pessoas – com pedaços de pau achados pelas ruas. E sequer têm onde dormir. A caixa é, então, a casa deles; é tudo o que têm. Como ganês, senti que era importante que meu trabalho refletisse essas condições. Aqui em Belo Horizonte, procurei reproduzir as rotinas que vi, como, por exemplo, comerciantes vendendo frutas nas ruas e mercados”, explica o africano.

JUTA Em um de seus trabalhos mais conhecidos, Fragmentos, Mahama também emprega objetos de uso prosaico de modo a dar-lhes novos significados. Sobre essa obra, ele diz: “Eu a construí com sacos de juta usados no transporte de sementes de cacau. Eles são fabricados em Bangladesh e exportados para Gana, que é o segundo maior produtor mundial deste produto. Considerado artigo fino, o cacau só é armazenado em sacos novos. Depois de usados, são direcionados ao carregamento de itens menos ‘nobres’, como coco e ferramentas industriais. Em Gana, durante um período, as pessoas tinham o costume de registrar seus nomes e de seus parentes no próprio corpo. Assim evitavam se perder definitivamente, porque podiam ser devolvidas às suas famílias quando encontradas. Depois, essas informações passaram a ser inscritas nos sacos usados. Esses itens então passaram a estampar duas coisas – ‘cacau’, que era o produto que primeiro carregavam, e depois nomes comuns. Essa humanidade transferida para os objetos me inspirou a construir uma obra formada por sacos de juta costurados, formando imensas cabanas. A forma que certos materiais adquirem depois de utilizados por nós certamente escreve narrativas muito interessantes”.

Outra obra africana que ganhou uma versão local na mostra Ex Africa é Geometria da passagem, do egípcio Yousseff Limoud. O tema sobre o qual o artista se debruça é “lugar”. Limoud iniciou a criação de Geometria da passagem há quatro anos, inspirado por fotos da guerra civil na Síria. “Há uma espécie de narrativa presente nos objetos que esse trabalho envolve e que são, basicamente, quatro elementos. Um deles é a ideia de lar, o lugar em que nos sentimos bem e amamos viver. Outro está relacionado à morte, ao local em que as pessoas vão para ser enterradas ou para onde peregrinam a fim de receber bênçãos. O terceiro elemento é a música, especificamente o sistema melódico arábico, chamado de Maqam. Por fim, há um conceito de solo enraizado numa antiga filosofia indígena”, descreve o artista, que conversou com a reportagem enquanto montava sua obra no CCBB-BH.

Vídeos, músicas, projeções, telas e esculturas completam o acervo da exposição. “Há, por exemplo, uma sala dedicada exclusivamente ao afrobeat, música muito popular em Lagos, na Nigéria. Destaca-se também a série fotográfica Gênesis, de Kudzanai Chiurai, que resgata a colonização da África Central e Oriental ocorrida no século 19”, diz Alfons Hug.

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O egípcio Yousseff Limoud monta em BH a obra Geometria da passagem, inspirada em fotos da guerra civil na Síria (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A.PRESS)

Performances

A abertura de Ex Africa, na próxima quarta-feira, contará com duas performances. O nigeriano Jelili Atiku montará sua instalação diante do público, depois de convidar os espectadores a acompanhá-lo (a partir das 17h), numa caminhada em torno do CCBB, com duração aproximada de 40 minutos. A segunda performance (indicada para maiores de 14 anos) terá lugar no Teatro I, a partir das 18h, com o músico e artista plástico angolano Nástio Mosquito. A distribuição de senhas começa uma hora antes. Em seguida, o músico e ativista de origem nigeriana Andé Bantu faz palestra, com a participação do curador Alfons Hug.

Ex Africa
Coletiva de artistas africanos e brasileiros afrodescendentes.  
CCBB-BH, Praça da Liberdade, 450, Funcionários,  (31) 3431-9400.
Abertura quarta-feira (11/10). Até 30/12.
O espaço funciona de quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Entrada franca.
Classificação indicativa: livre.

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