Livro dedicado à arara-azul-de-lear, tesouro do sertão baiano, é lançado em BH

Essa ave genuinamente baiana serviu de inspiração para o fotógrafo João Marcos Rosa e o jornalista Gustavo Nolasco

por Ana Clara Brant 07/10/2017 08:38

João Marcos Rosa/divulgação
Preservação da arara-de-lear mobiliza fotojornalistas e sertanejos (foto: João Marcos Rosa/divulgação)

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A frase do escritor Euclides da Cunha (1866-1909) no clássico Os sertões resume a perseverança que cerca a caatinga e seus habitantes – seja gente ou bicho. Um dos principais exemplos disso é a arara-azul-de-lear, espécie ameaçada de extinção. Essa ave genuinamente baiana inspirou o fotógrafo João Marcos Rosa e o jornalista Gustavo Nolasco, do Coletivo Nitro, a criar o projeto Jardins da Arara-de-lear, que acaba de virar livro e vai se transformar em documentário. O lançamento da publicação está marcado para hoje de manhã, na Scriptum, em BH.

João Marcos Rosa/divulgação
(foto: João Marcos Rosa/divulgação)

“A palavra é esta: resistência. A arara vem resistindo bravamente – quase chegou a ser extinta –, vive em um lugar inóspito, que teve um dos maiores movimentos de resistência popular, a Guerra de Canudos, e está cercada por pessoas resistentes por natureza. É como está em um dos trechos do livro: engana-se quem pensa que o sertanejo, homem, bicho, fulô, luta para sobreviver. Ele luta é para nunca viver sem amar. Quem apenas sobrevive não tem escolhas. Já quem resiste escolhe um território para amar. O sertanejo insiste, quase morre pelo seu sertão. Porque homem forte não pede clemência. Ele luta por sua honra. Se morre, morre lutando”, afirma Gustavo Nolasco. Ele e João Marcos passaram cerca de seis meses na região baiana onde ficam as cidades de Jeremoabo, Euclides da Cunha e Canudos.
João Marcos Rosa/divulgação
A força do sertanejo inspirou os autores de Jardins da arara-de-lear (foto: João Marcos Rosa/divulgação)

Em 1830, o pintor e escritor inglês Edward Lear viu uma arara-de-lear no zoológico de Londres. Decidiu desenhá-la, sem saber do que se tratava e de sua origem. Tempos depois, Charles Lucien Bonaparte, zoólogo francês e sobrinho do imperador Napoleão, encantou-se com o desenho e passou a estudá-lo. “Ele descobriu que se tratava de uma nova e misteriosa espécie da família Psittacidae e a batizou com o sobrenome Lear”, comenta João Marcos. Durante muitos anos, tentou-se descobrir de onde viria aquela ave tão bonita e exótica. Boa parte dos animais levados do Brasil para o Velho Mundo saíam do porto de Belém, explica o fotógrafo. Por isso, só se sabia que a arara era brasileira. “Esse se tornou um dos mais longos enigmas da zoologia, especialmente da ornitologia sul-americana, que só foi resolvido em 1979”, conta João Marcos.

Em 1940, o naturalista alemão Helmut Sick veio ao Brasil e se tornou preso político durante a 2ª Guerra Mundial. Libertado depois do fim do conflito, ele resolveu permanecer no país e saiu em busca da solução daquele mistério ornitológico. Apenas em 1979, depois de dezenas de tentativas realizadas no interior brasileiro, Sick – já doente – descobriu de onde vinha a arara-azul-de-lear (Anodorynchus leari).

“Nossa obra tenta mostrar, por meio de imagens e, principalmente, do texto, essa história tão curiosa que envolve a arara, mas também os sertanejos. É minha primeira experiência com um trabalho ligado a animal e natureza. Tentei escrever não para o meio científico e acadêmico, mas para os sertanejos. Ter linguagem próxima da deles. Esse livro é para Seu Zequinha, um de seus grandes personagens, que ainda vive lá e chegou a conhecer o Helmut Sick”, destaca Gustavo Nolasco.

NATIONAL GEOGRAPHIC João Marcos Rosa já se acostumou a registrar a natureza. Inclusive, fez um ensaio para a revista National Geographic sobre a arara-azul-de-lear. O fotojornalista revela que como tinha muito material, achava que a saga renderia muito mais. Assim nasceu a ideia do livro e do documentário.

“Precisava encontrar o fio da meada. Então, pensei em humanizar a história. Contar a trajetória das pessoas no entorno da conservação da arara, seus costumes e culturas era muito mais interessante. Já trabalhei em vários biomas, mas ali, na caatinga, senti que as pessoas são muito mais próximas do bicho do que em qualquer lugar. É uma relação diferente. Não é aquela coisa de ficar apenas contemplando. O sertanejo é o guardião da arara e do território”, afirma.

O documentário, provavelmente, será lançado em 2018, com imagens do fotógrafo e diretor Bruno Magalhães. Gustavo Nolasco diz que o projeto é uma de suas experiências profissionais mais marcantes. “Aquela arara-azul voando no meio dos paredões vermelhos do sertão é uma das coisas mais bonitas que já vi. O sertão sempre me encantou. Seu Zequinha me falou uma coisa de que nunca me esqueci. Para ele, a arara sempre foi um bicho como outro qualquer dali. Porém, a partir do momento em que ele viu o povo de fora e até do exterior em busca dessa ave, admirando-a e falando de como ela era importante, ele percebeu que esse animal é um orgulho para o modo de vida deles, para aquele lugar. É, realmente, um símbolo”, conclui.

A palavra é esta: resistência. A arara vem resistindobravamente”
João Marcos Rosa,
fotógrafo

JARDINS DA ARARA-DE-LEAR
>>  De João Marcos Rosa e Gustavo Nolasco
>>  Coletivo Nitro
>>  164 páginas
>>  R$ 90
>> Lançamento neste sábado (7/10), às 11h. Livraria Scriptum, Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi

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